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A renúncia de Rumsfeld: o primeiro caso da crise pós-eleitoral nos Estados Unidos

Declaração da equipe editorial
14 Noviembre 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 9 de novembro de 2006.

A renúncia do Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, é uma demonstração da grave crise que estourou não apenas no interior do governo Bush, mas em todas as instituições políticas norte-americanas após as eleições de 7 de novembro.

Pelo menos 29 representantes Republicanos foram derrotados na Câmara dos Deputados, perdendo o controle desta casa para o Partido Democrata. No Senado, os Democratas conseguiram assegurar 50 vagas, e o seu candidato da Virgínia, Jim Webb, conquistou a liderança, substituindo o seu oponente Republicano, dando aos Democratas o controle do Congresso.

O resultado das eleições, que representa o esmagador repúdio popular à guerra do Iraque, foi um choque para as instituições políticas e para a imprensa. Numa situação em que a população está tão alienada em relação à política oficial, uma vez que somente 40% dos eleitores aptos a votar compareceram às urnas, a estrondosa derrota dos Republicanos é um pálido reflexo do visível descontentamento que existe nos EUA.

Enquanto o Partido Democrata é o beneficiário imediato da luta contra a guerra, ele nunca estimulou tais sentimentos antes das eleições, tampouco os defendeu após o resultado das urnas.

Na entrevista coletiva convocada na quarta-feira com o objetivo de anunciar a renúncia do chefe do Pentágono, Bush declarou: “eu reconheço que muitos norte-americanos votaram ontem a noite para demonstrar seu descontentamento com a crise existente no Iraque”. Entretanto, ele acrescentou rapidamente: “mas eu também acredito que a maioria dos norte-americanos e os líderes dos dois partidos políticos aqui em Washington compreendem que nós não podemos aceitar a derrota”.

Há muitas razões para acreditar que, longe de preparar o caminho ao fim da guerra do Iraque, o resultado das eleições de terça-feira e a conseqüente mudança na equipe do governo Bush preparará uma nova escalada do massacre no Iraque.

A renúncia de Rumsfeld, o severo arquiteto da invasão do Iraque, é parte da hábil tentativa de formular um novo plano bipartidário para a continuidade da guerra e da campanha militar global norte-americana, que está sendo levada conduzida sob a alegação da “guerra ao terror”.

Na cerimônia da renúncia de Rumsfeld, que foi substituído pelo ex-diretor da CIA, Robert Gates, Bush não deixou dúvidas que a política fundamental do seu governo não sofrerá alterações.

“Os EUA permanecem uma nação em guerra”, declarou ele. “Nós devemos nos manter na ofensiva e julgar nossos inimigos antes que eles nos atinjam novamente”.

Gates repetiu a pervertida e mentirosa racionalidade desta guerra, que na verdade é uma farsa completa. “Os EUA está em guerra no Iraque e no Afeganistão”, declarou ele. “Nós estamos lutando contra terrorismo em todo o mundo”.

Ao nomear Gates para o cargo, Bush elogiou o dirigente da CIA como alguém que “compreende os desafios que nós enfrentamos no Afeganistão” pelo papel desempenhado por ele como diretor da CIA, quando “ajudou a liderar a missão norte-americana que expulsou as forças Soviéticas do Afeganistão”.

Em outras palavras, ele faz parte da inteligência norte-americana que estabeleceu uma íntima aliança com Osama bin Laden durante a guerra financiada pela CIA, que destruiu a sociedade afegã. Assim, ele cumpriu um papel de promotor dos vários terroristas islâmicos que recentemente realizaram os ataques de 11 de setembro. Nada poderia expressar de forma mais completa o cinismo da elite dominante norte-americana do que o discurso de Bush, que se auto qualificou de líder da “guerra ao terror”.

As alianças de Gates com o terrorismo não terminam em bin Laden. Em meados dos anos 80 ele formou uma rede de funcionários da Casa Branca e de agentes da CIA a fim de organizar a operação “Irã-contras”, a qual realizou a venda secreta de armas para o Irã, que eram usadas para prover um fundo ilegal para os “contra” apoiados pelos EUA contra a Nicarágua. Nos anos 80 ele também esteve ligado ao suprimento de armas ao regime iraquiano de Saddam Hussein durante a guerra deste contra o Irã.

É essa a tal figura que está sendo introduzida como o campeão da “nova perspectiva” da guerra do Iraque. Sua indicação nos dá uma idéia clara de quão horríveis serão os crimes que estão sendo preparados.

Reações à substituição de Rumsfeld já se manifestam. Dentre os primeiros a falar para a imprensa após a solenidade de posse foi o Senador pelo Arizona, John McCain, o principal candidato à presidência pelo Partido Republicano em 2008.

McCain declarou que a indicação de Gates será uma oportunidade de “corrigir os erros do passado”. Ele disse que Washington deve reconsiderar “se temos ou não temos força suficiente no Iraque para garantir o nível de segurança que é indispensável para derrotar os rebeldes”. Ele acrescentou que iria discutir com Gates “a necessidade urgente de aumentar o contingente de soldados do exército e da marinha envolvidos na guerra”.

A indicação do novo Secretário de Defesa, concluiu McCain, seria uma “oportunidade de estabelecer uma maior cooperação entre os dois partidos na política do Iraque—por meio da qual Republicanos e Democratas trabalharão juntos buscando assegurar a vitória”.

MacCain afirmou que os EUA teriam que “arrancar” o líder religioso radical Xiita, Moqtada al-Sadr, por meio de um ataque sangrento não apenas contra as milícias dirigidas por ele, mas também contra as massas Xiitas pobres de Bagdá, que têm se tornado incrivelmente hostis à ocupação norte-americana.

A previsão de MacCain de que a indicação de Gates facilitaria “a cooperação entre os dois partidos” foi rapidamente confirmada. O líder democrata no Senado por Nevada, Harry Reid, declarou que “por aceitar a renúncia do secretário de defesa, o Presidente Bush deu um passo na direção certa”.

Charles Schumer, Senador por Nova York, que dirigiu a campanha Democrata ao Senado, repetiu que “a indicação de um novo secretário ao Departamento de Defesa é um bom primeiro passo, e nós esperamos que seja um sinal de que o presidente esteja planejando um novo sentido para a ação no Iraque”.

O elogio ao ato de Bush veio em meio a uma série de declarações feitas pelos líderes Democratas garantindo sua colaboração com a Casa Branca. A nova porta-voz Democrata da Casa Branca, Nancy Pelosi, prometeu que os Democratas procurariam estabelecer “uma parceria com o presidente e com os Republicanos no Congresso, ao invés de assumir uma postura sectária ”.

Gates é um membro do Grupo de Estudos sobre o Iraque, uma equipe bipartidária dirigida pelo ex-Secretário de Estado Republicano, James Baker, e o ex-líder do Congresso Democrata, Lee Hamilton. Esta equipe deverá expor em breve suas recomendações sobre como preservar a política e militar no Iraque. É amplamente conhecido que isto exigirá uma atitude mais “realista” do que descartar as pretensões de Washington de promover a democracia no lugar de uma ditadura militar ilegal contra as massas iraquianas.

O apoio dos dois partidos à guerra continua sob as condições de aprofundamento da crise do sistema de bipartidarismo. O resultado das eleições de terça-feira não representa um apoio popular aos Democratas, mas um repúdio à política que o governo Bush tem conduzido com a colaboração dos Democratas. A eleição expressa o crescimento da oposição popular às instituições políticas como um todo.

A rejeição à guerra entre os eleitores é a mais acentuada desde que o Partido Democrata e a grande imprensa têm agido para suprimir esse tipo de sentimento político.

Em 2002 os Democratas garantiram que Bush recebesse os votos que ele precisava para conquistar a autoridade congressual necessária para conduzir a guerra. Eles continuam garantindo os recursos da ocupação, que giram em torno de 2 bilhões de dólares por semana. Do mesmo modo, os ataques aos direitos democráticos têm se tornado legais por meio do Ato Patriótico e do Ato das Comissões Militares. Tudo isso tem sido posto em prática com o apoio dos Democratas.

Sob tais condições, a renúncia de Rumsfeld é nada mais do que uma fachada. Qualquer expectativa de que tais mudanças pessoais ou a passagem da liderança do Congresso aos Democratas pudessem conduzir ao fim da guerra é totalmente inconsistente.

A oposição popular à guerra expressada nestas eleições não se refere diretamente à má administração operacional do governo Bush. É um repúdio à legitimidade da guerra. A maioria das pessoas quer o fim da guerra, que é considerada um erro e algo desnecessário.

Para a elite dominante, entretanto, a preocupação em relação ao Iraque tem um conteúdo completamente oposto. A elite que controla os dois partidos considera que o “sucesso” no Iraque é absolutamente essencial. A questão não é apenas o lucro resultante do controle das reservas de petróleo existentes no país, mas a defesa da posição hegemônica do imperialismo norte-americano em todo o mundo.

Quaisquer que sejam as diferenças táticas entre os Democratas e o governo Bush em relação à política no Iraque, é facilmente previsível que o partido não se oporá à escalada de violência contra o povo iraquiano. Nenhum líder Democrata protestou a respeito do selvagem cerco à cidade iraquiana de Fallujah, levantado imediatamente após a contagem dos votos nas eleições de 2004. Se o Pentágono lançar uma ofensiva antecipada contra as favelas Shiitas do bairro de Sadr City, em Bagdá, os Democratas novamente apoiarão.

Nos círculos dominantes norte-americanos, duas preocupações têm aumentado enormemente. A primeira é a desesperadora situação no Iraque. A segunda é interna—o crescente descontentamento popular com o próprio país. O resultado das eleições representa uma indicação de que a política de direita e o aparato da imprensa que as instituições têm utilizado para manipular a opinião pública estão falidos. A grande imprensa não divulgou antecipadamente—muito menos impediu—o alto nível de repúdio existente entre os trabalhadores pobres em relação à política posta em prática pelo governo Bush.

O grande perigo é, diante de um acordo eleitoral de Bush, que as massas percam qualquer expectativa numa política real. Isto dará tempo ao governo para preparar novos métodos de conduzir a política militar e atacar os direitos democráticos e as condições sociais nos EUA.

Enquanto a Casa Branca exalta publicamente os benefícios do bipartidarismo, há indicações de que isto é um outro meio de perseguir os antigos objetivos. No final das eleições , o Vice-presidente, Dick Cheney, declarou que a guerra do Iraque “pode não ser popular. Isso não importa.” Ele afirmou que a política do governo é a de “pisar fundo no acelerador” até a “vitória”, independentemente do que a população pense.

De modo semelhante, o Los Angeles Times citou Grover Norquist, um anti-semita que tem servido como um íntimo conselheiro da Casa Branca, que afirmou: “Bush governará agora por meio de medidas provisórias ao invés de trabalhar legalmente com o Congresso”.

Como a amplitude da oposição popular pode começar a interferir na realização de sua política, o governo está se preparando para adotar métodos ditatoriais, incluindo o uso da repressão do Estado-policial contra todos aqueles que se opuserem a ele.

As eleições colocaram este governo numa rota de colisão com largas camadas das massas trabalhadoras norte-americanas. A vitória eleitoral dos Democratas não inibirá este processo, mas, ao contrário, o acelerará.

O programa que o Socialist Equality Party defendeu nestas eleições exige o imediato e incondicional retorno das tropas do Iraque como sendo a única maneira de por fim ao massacre naquele país.

O SEP também exige que todos aqueles que conspiraram para iniciar esta guerra ilegal—incluindo Bush, Cheney e Rumsfeld—sejam responsabilizados política e criminalmente.

O Partido Democrata não pretende propor estas mudanças. Na sua declaração feita na quarta-feira, a nova porta-voz da Casa Branca, Pelosi, reiterou sua promessa de que o “impeachment está fora de cogitação”. Ela dá esta garantia de lealdade antes mesmo de fazer qualquer investigação a respeito da condução do governo, que tem cometido mais delitos graves contra a Constituição dos EUA e contra a população norte-americana do que qualquer outro na história.

A política proposta pelos Democratas nestas eleições tem confirmado a perspectiva central já levantada pelo SEP no decorrer da campanha: a única maneira de combater a guerra imperialista estrangeira, as desigualdades sociais e os direitos democráticos no interior do país é desenvolvendo um movimento socialista independente das massas trabalhadoras em oposição ao sistema capitalista bipartidário.

 



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