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Conflitos militares avançam no Sri Lanka após dois grandes ataques do LTTE

Por Sarath Kumar
23 Octubre 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 19 de Outubro de 2006

Os Tigres de Libertação do Tamil Eelam [LTTE] levaram a cabo dois grandes ataques contra o exército do Sri Lanka nos últimos três dias, aumentando a probabilidade de um agravamento da guerra civil, que explodiu no final de julho.

Ao menos 102 pessoas morreram e 150 ficaram feridas, em sua maioria marinheiros, num ataque suicida ocorrido na segunda-feira, em Habarana, situada a cerca de 170 km a nordeste da capital, Colombo. O lugar é um ponto de trânsito de marinheiros e soldados vindos dos acampamentos do exército localizados na região leste de Tricomalee.

Um suicida dirigiu um caminhão carregado de explosivos em direção a uma área onde estavam estacionados 20 ônibus destinados a conduzir 350 pessoas ligadas à marinha. Embora ainda não tenha assumido formalmente a responsabilidade pelos ataques, o LTTE é o principal suspeito, pois possui um longo histórico de atentados suicidas.

 

Ontem, cinco botes do LTTE abastecidos de explosivos atacaram a principal base naval na cidade de Galle, ao sul. Os detalhes ainda são imprecisos, mas aparentemente duas embarcações navais foram danificadas. De acordo com o exército, dois soldados morreram na colisão e outros 26, incluindo vários civis, ficaram feridos. Todos os 15 rebeldes morreram.

O governo de Colombo imediatamente denunciou os ataques. O porta-voz da defesa Keheliya Rambukwella disse que o bombardeio de Habarana é um “bárbaro ato terrorista”. “Isso mostra claramente que a paz não está entre as intenções do LTTE e que eles não se importam com a opinião internacional”.

Os militares reagiram com ataques aéreos às áreas controladas pelo LTTE, usando jatos israelenses, um dos quais quebrou logo após ter decolado. De acordo com as notícias do LTTE, um grande número de civis, incluindo duas meninas, foram mortos e feridos durante os ataques, que tinham como alvo a torre de transmissão da rádio do LTTE, entre outros. Além destes, outros ataques aéreos foram realizados ontem, em conseqüência da colisão de Galle.

Os conflitos ocorrem em meio às preparações para as negociações de paz, que serão realizadas em 28 e 29 de outubro em Genebra. O enviado especial do Japão, Yashushi Akashi, esteve em Colombo na segunda-feira para se encontrar com o presidente Mahinda Rajapaks, enquanto o enviado norueguês, Jon Hanssen-Bauer, e o assistente da Secretaria de Estado norte americana, Richard Boucher, já confirmaram suas presenças no Sri Lanka nesta semana.

Rambukwella e outros porta-vozes estão procurando explorar os ataques para conquistar o apoio dos países ricos nas negociações, tentando com isso pressionar o LTTE. Mas a principal responsabilidade pela crescente guerra é, acima de tudo, do governo Rajapakse, que tentou, em julho, desapropriar de maneira violenta a barragem de Mavilaru, que está dentro do território do LTTE. O ataque foi obviamente uma ruptura no cessar fogo firmado em 2002.

A ação violenta de Rambukwella contra o “ataque terrorista” de Habarana e suas declarações de apoio a negociações de paz são completamente hipócritas. Na semana passada, somente alguns dias após terem sido confirmadas as negociações em Genebra, o exército realizou mais uma ofensiva contra o LTTE, em Muhamalai, situada no estreito corredor para a península de Jaffna, ao norte.

Inicialmente o governo afirmou que as ações militares foram “defensivas” - que é o pretexto oficial para todos os ataques ocorridos nos últimos três meses. Em seguida, ficou evidente que isso era mentira. O ataque se tornou uma catástrofe assim que os soldados entraram em confronto com os combatentes do LTTE. O saldo foi 130 soldados mortos e mais de 500 feridos em violentas lutas. O exército foi finalmente forçado a recuar.

Mais da metade dos soldados mortos foi deixada no território do LTTE. O LTTE entregou os corpos ao exército formalmente, por meio da Cruz Vermelha Internacional. A Missão de Monitoramento do Sri Lanka [SLMM], que supervisiona o cessar fogo, declarou diplomaticamente: “a devolução dos 75 soldados mortos pelos Tigres demostra que o exército tem realizado crescentes ataques em áreas rebeldes”.

Corajosamente, o governo forjou uma justificativa, segundo a qual o ataque, e em conseqüência, a derrota, foram de responsabilidade de um oficial desqualificado. A versão mais elaborada foi dada por Iqbal Athas, que possui laços próximos ao comando militar, em sua regular “Notícia da Situação” na Sunday Times do último final de semana. Athas afirmou categoricamente que nem o presidente nem o Conselho Nacional de Segurança sabiam qualquer coisa a respeito da ação militar. “Se houve realmente uma forte ofensiva militar [em Muhamalai], o que parece ser o caso, a liderança política estava completamente desinformada. O alto comando militar também não sabia de nada, com exceção de um oficial que tentou persuadir um colega ‘entusiasta’ a não seguir adiante”, repetiu Athas diversas vezes ao longo do artigo.

Todavia, a ofensiva não era um grande segredo. O LTTE havia manifestado ao SLMM sua preocupação sobre as preparações para o ataque dois dias antes dos mesmos. A ofensiva envolveu um grande número de tropas apoiadas por veículos armados e apoio aéreo. O aviso do LTTE foi divulgado na imprensa local e internacional. É um absurdo dizer que Rajapakse e os chefes da defesa tenham lido os avisos e não feito nada, especialmente por eles saberem que isso impediria as negociações de paz.

A verdade é que essa frágil história foi inventada para evitar um maior constrangimento. Como observou Athas: “mais do que qualquer outra coisa, a absurda operação conduzida na quarta-feira sem o conhecimento de qualquer liderança política e contra as intenções dos oficiais superiores, causou enormes constrangimentos a Mahinda Rajapakse. Sua credibilidade passou a ser questionada pela comunidade internacional”.

Em torno das preparações para as negociações de Genebra, a estratégia não declarada do governo tem sido a de enfraquecer o LTTE o quanto for possível. A ofensiva em Muhamalai é apenas uma das diversas operações, incluindo os distritos de Sampur e Batticaloa, apontados como territórios ocupados pelo LTTE. De maneira nada surpreendente, o LTTE contra-atacou, a fim de tentar marcar sua posição, não deixando de priorizar as negociações. O porta-voz do governo, Rambukwella, denunciou o LTTE por matar marinheiros “desarmados” na segunda-feira. Um ataque ao pessoal da marinha, armado ou não, constitui um alvo militar muito mais legítimo do que o bombardeio aéreo e terrestre indiscriminado em áreas do LTTE. Em agosto, Rambukwella defendeu o bombardeio de uma escola que matou diversas estudantes, declarando hipocritamente que os mortos eram “crianças soldados”. Nesta ocasião ele não se preocupou com o fato dessas “crianças soldados” estarem desarmadas.

Tal propaganda é parte dos esforços do governo em criar uma histeria anti-Tamil para justificar uma guerra que grande parte da população não deseja. Seguindo o ataque do LTTE em Galle, dia 18 de outubro uma multidão Sinhala chauvinista atacou lojas de propriedade de Tâmeis no local, jogando pedras e quebrando janelas. Rambukwella culpou o LTTE por tentar provocar “um tipo de retrocesso”, mas ele e o governo são os responsáveis por criar a atmosfera atual.

O governo de Rajapakse é sustentado por partidos Sinhala extremistas, incluindo o Janatha Vimukthi Peramuna (JVP), que vem fazendo abertas campanhas pela guerra. Após o ataque em Galle, o JVP encorajou o governo a não participar das negociações em Genebra. “Nós insistimos que o governo desista de retomar as negociações de paz em Genebra”, declarou demagogicamente o líder parlamentar do JVP, Wimal Weerawansa. “Já é tempo para o enviado de paz do governo parar de passar suas roupas para ir a Genebra”.

Entretanto, a reação mais significativa veio do governo Bush. O porta-voz do Departamento de Estado, Sean McComack, condenou o ataque de segunda-feira em Habarana, declarando que “há muito tempo o governo norte-americano já caracterizou o LTTE como uma organização terrorista estrangeira”, e insiste que o “LTTE deve renunciar ao uso do terror”. Formalmente, Washington ainda apóia o tal processo de paz. Todavia, na prática, os EUA ignoraram o aprofundamento constante do conflito, desde que Rajapakse foi eleito em novembro. Obviamente McComack não tinha nada a dizer a respeito da ofensiva militar da última semana, em Muhamalai.

O decisivo apoio do governo Bush a Rajapakse tem sido um fator determinante para encorajar o governo e o exército a ignorar o acordo de cessar-fogo firmado em 2002 e realizar ofensivas contra o LTTE.

 



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