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Executivos americanos da indústria automobilística garantem milhões em bônus a si próprios

Por Shannon Jones
6 Abril 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 28 de março de 2007.

Fábricas de automóveis americanas estão recompensando seus executivos com polpudos pagamentos, após um ano de enormes cortes e ataques aos salários, condições de trabalho e benefícios dos trabalhadores do setor. De forma particularmente provocativa, os pacotes de milhões de dólares foram anunciados apenas alguns dias antes do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística (United Auto Workers -UAW) ter aberto negociações em Detroit para discutir o contrato a ser firmado com as Três Grandes fabricantes, que impõem uma redução sem precedentes nos salários, benefícios e condições de trabalho aos representados pelo UAW.

A General Motors premiará o chefe executivo, Rick Wagoner, e outros altos executivos com bônus, apesar do fato da companhia ter perdido 12,4 bilhões de dólares nos últimos anos e ter demitido 30.000 trabalhadores da produção nesse período. De acordo com um documento da Comissão de Segurança e de Trocas, Wagoner tem um estoque de ações restritas avaliado em 2,8 milhões de dólares e ainda 500.000 ações opcionais que somam 1,4 milhão de dólares.

O vice-presidente da GM, Bob Lutz, chefe mundial das operações de produção da GM, ficou com 60.000 ações restritas e 250.000 opcionais. O chefe financeiro, Frederick Henderson, recebeu 60.000 ações restritas somando 1,8 milhões de dólares e 250.000 opcionais. Ao todo, 18 executivos receberam prêmios em ações. Detalhes completos dos bônus não serão revelados até o próximo mês.

No início dessa semana, o Grupo Chrysler anunciou que 1.300 executivos de alta colocação receberiam bônus baseados na performance da companhia em 2006. A Daimler-Chrysler se recusou a revelar o valor dos pagamentos, mas a US Securities e a Comissão de Troca divulgaram que o chefe executivo da Chrysler, Tom LaSorda, recebeu 3 milhões de dólares em bônus, incluindo um bônus anual de 1,1 milhão de dólares. Ele ainda recebeu 2 milhões de dólares com as chamadas ações fantasma que podem ser pagas em 2010. A soma final do pagamento pode variar, caso certas metas de lucro sejam alcançadas.

O grupo Chrysler perdeu 1,5 bilhão de dólares em 2006, divulgou os planos de eliminar 13.000 empregos dentro dos próximos três anos e diminuir em 400.000 unidades a produção anual de veículos. Especula-se que a Daimler-Chrysler venderá sua divisão norte americana, o que poderia levar ao desmantelamento das operações que ainda restam.

A Ford, outra das Três Grandes fabricantes de automóveis dos EUA, anunciou também os bônus aos executivos, apesar de ter tido uma perda recorde de 12,7 bilhões de dólares em 2006. A Ford não revelou o total dos bônus, que ela justifica como sendo uma demonstração de reconhecimento pelos esforços realizados para reduzir “significativamente” os custos. A companhia está cortando um terço de seus trabalhadores — 34.000 empregos — e fechando 16 fábricas. A Ford hipotecou todas as suas fábricas e equipamentos para levantar fundos e escapar da bancarrota.

Seguindo a líder das fabricantes de carro, a falida fabricante de auto-peças Delphi também anunciou pagamentos aos grandes executivos. Na semana passada o julgamento do pedido de falência permitiu o pagamento de mais de 37,4 milhões de dólares em bônus aos executivos. Cerca de 440 executivos estão na fila para receber os bônus, que no total podem somar entre 20 e 37,4 milhões de dólares, dependendo da performance — isto é, do sucesso no corte de empregos, salários e benefícios.

Dezessete meses depois do pedido de falência, a Delphi ainda assinou um acordo com o UAW para continuar os cortes de salários e benefícios em mais de 60%. A companhia está planejando eliminar 24.000 dos seus 33.650 trabalhadores temporários e mais milhares de trabalhadores assalariados em todos os EUA.

O fato de que os patrões se sintam à vontade para conceder bônus de forma descarada no momento em que os trabalhadores estão recebendo ataques históricos — e à véspera da convenção do UAW — indica o futuro colapso dos sindicatos americanos. O contraste existente entre a reação dos operários aos pagamentos dos executivos e a do moribundo UAW pode se acirrar ainda mais.

A notícia dos bônus na Ford gerou uma intensa e generalizada inquietação entre os trabalhadores, que devem começar a sofrer pressões em cada fábrica para aceitar as propostas da empresa. O UAW anunciou o adiamento da votação em relação às concessões na assembléia da fábrica da Ford em Wayne, Michigan. Os dirigentes do sindicato, todavia, negaram que o adiamento fosse em conseqüência da inquietação em relação aos bônus, alegando que eles precisavam de mais tempo para “explicar” a proposta.

Como era de se esperar, o UAW não precisou de muito tempo para abafar a revolta, aceitando a oferta da companhia em dar uma esmola de 500 dólares para cada trabalhador da produção.

Na solenidade de abertura da convenção de negociação da UAW, o presidente do sindicato, Ron Gettelfinger, não disse nada sobre os bônus concedidos aos executivos das empresas GM, Ford e Chrysler. Ao invés disso, ele falou apenas sobre os bônus dos executivos da Delphi, que ainda não tinha assinado um acordo com o UAW.

Para os burocratas privilegiados do aparato do UAW, os enormes pagamentos aos executivos das empresas automobilísticas não é uma questão de princípios. Sua preocupação é que a simultaneidade entre o espetáculo da recompensa aos executivos e a exigência de sacrifícios aos trabalhadores dificultará a continuidade da política de grandes concessões às companhias automobilísticas levada a cabo pelo UAW.

Os advogados do UAW disseram que o julgamento do pedido de falência da Delphi e o pagamento de bônus aos seus chefes eram uma “dispersão” e um “bloqueio” às negociações dos contratos em curso, e que eles deveriam ser adiados para um período mais conveniente.

O Wall Street Journal reforçou as preocupações do UAW. Um artigo do dia 23 de março acerca dos bônus da GM tinha como título: “Os Bônus da GM devem dificultar as negociações trabalhistas”. O artigo observou que a GM exigirá do UAW amplos cortes nas despesas com saúde, assim que o contrato atual expirar no próximo mês de setembro.