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Sindicatos alemães boicotam greve de condutores

Por Ulrich Rippert
13 de agosto de 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 3 de agosto de 2007.

A administração da companhia ferroviária alemã (Deutsche Bahn — DB) deu novos passos para aumentar a pressão sobre os trabalhadores ferroviários, enquanto 12.000 condutores e inspetores de trens decidiam a respeito da greve por meio de voto secreto. Na sua ofensiva, o presidente da Deutsche Bahn, Harmut Mehdorn, está confiante na colaboração de dois sindicatos que representam os trabalhadores ferroviários — o Transnet e o Sindicato Alemão dos Empregados e Aspirantes em Ferrovias Federais (GDBA — Gewerkschaft Deutsche Bundesbahnbeamten und Anwärter).

As duas organizações boicotaram a greve com um descaramento nunca visto na história alemã do pós-guerra. Desde o início elas se opuseram inflexivelmente às reivindicações dos condutores de trens por reajustes salariais, ainda que tenham bastante consciência dos salários e condições de trabalho miseráveis enfrentados pelos trabalhadores. Seus turnos são exaustivos e exigem um alto grau de responsabilidade.

O boicote do Transnet e do GDBA também é apoiado pela Confederação Alemã de Sindicatos (DGB — Deutscher Gewerkschaftsbund).

Em julho, a Deutsche Bahn concordou com um aumento de 4,5% e um pagamento único de €600 para os ferroviários. O acordo foi fechado rapidamente para isolar os condutores que haviam feito uma reivindicação separada por um reajuste maior. O acordo fechado pelos dois sindicatos ferroviários, a Transnet e o GDBA, continha uma cláusula que estipulava que a DB não poderia fazer nenhuma concessão aos condutores organizados no seu próprio sindicato, o Sindicato Alemão dos Condutores (GDL — Gewerkschaft Deutscher Lokführer).

A cláusula determinava especificamente que se a DB fizesse um acordo separado com o GDL, o acordo já fechado com o Transnet e o GDBA ficariam invalidados. O Transnet insistiu na incorporação desta cláusula, que não era nada menos do que uma forma de extorsão e que tinha como objetivo forçar a capitulação dos Condutores.

Seguindo recomendação de um membro da direção do Transnet, o executivo da Deutsche Bahn, Norbert Hansen, enviou uma carta a todos os 136.000 trabalhadores pedindo que declarassem se eram filados a algum sindicato e, em caso positivo, a qual sindicato. O objetivo dessa carta era evitar que os associados ao GDL recebessem o reajuste e o abono salarial de €600 pago aos outros ferroviários. Deve-se observar que Hansen é a pessoa adequada para aconselhar a companhia ferroviária sobre como boicotar a greve dos condutores. Além de líder do Transnet, Hansen participa do conselho administrativo da DB - e recebe um gordo salário para isso, mantendo-se sempre alinhado às políticas corporativistas industriais alemãs.

Agora, assessorada por peritos legais ligados à Transnet, a Deutsche Bahn lançou uma série de medidas legais contra o sindicato dos condutores. Por meio de oito procedimentos judiciais distintos, a companhia está tentando proibir o sindicato de fazer uma greve. Em outra ação legal a companhia está tentando fazer com que o sindicato não possa nem organizar uma votação secreta a respeito da greve - apesar deste procedimento ser permitido pela lei industrial alemã durante a condução de disputas trabalhistas.

O jornal Süddeutsche Zeitung escreveu, no último fim de semana, que isso era "ultrajante, porque a votação sobre a greve faz parte da democracia". O termo "ultrajante" se justifica e se aplica não somente ao presidente da DB, Mehdorn, mas também ao Transnet e à DGB. Esses sindicatos estão apoiando e participando ativamente da criminalização da greve. Essa é uma nova dimensão do giro à direita dos sindicatos.

Se as preparações do GDL para a greve forem consideradas ilegais e a polícia recolher as urnas nos próximos dias, tudo isso será feito com o apoio da DGB. Condutores ou inspetores que se opuserem às ações legais e tentarem defender seu direito democrático mínimo de fazer greve serão processados e levados ao tribunal - se depender da vontade das direções do Transnet e da DGB.

Essa girada da DGB e seus sindicatos à direita tem implicações políticas profundas, que não se limitam apenas à atual luta dos condutores. As reivindicações dos trabalhadores por reajuste salarial são inteiramente justas, tendo em vista o aumento do custo de vida e suas difíceis condições de trabalho. Até agora eles se recusaram a recuar, mesmo tendo que lidar com uma frente composta pelo governo, importantes empresas e os sindicatos que, juntos, impuseram cortes cada vez mais vampirescos sob o comando das grandes empresas.

Não há dúvidas que no futuro outras camadas da classe trabalhadora terão atitudes semelhantes. As políticas da grande coalizão que hoje governa a Alemanha (União Democrata Cristã, União Social Cristã e Partido Social Democrata) são abertamente detestadas e a oposição popular contra elas vem crescendo. Sob essas condições, na qual os partidos mais importantes da Alemanha cooperam numa coligação cujas práticas políticas servem exclusivamente à elite dominante, qualquer oposição, para ser eficiente, tem que assumir uma forma extra-parlamentar e se desenvolver por fora da tradicional rota de parceria social da Alemanha pós II Guerra - isso é, a colaboração entre direção da empresa e sindicatos.

A DGB deixou claro que está determinada a impedir esse desenvolvimento a qualquer custo. Agora oferece seus serviços para cortar pela raiz ou, quando necessário - e em colaboração direta com o Estado - acabar com qualquer movimento independente da classe trabalhadora. Esse é o verdadeiro significado do apoio oferecido pelos sindicatos para as medidas judiciais contra a luta dos condutores.

Ao mesmo tempo os próprios condutores não têm clareza da dimensão política do seu enfrentamento. Isso se expressa na posição manifestada pelo seu sindicato, o GDL, que declarou que vê o conflito com a direção da Deutsche Bahn como uma "disputa salarial normal", enquanto usa a posição estratégica dos condutores para conseguir um acordo melhor do que a Transnet. Os dirigentes da GDL e seu presidente, Manfred Schell, também estão tentando explorar as diferenças entre os partidos políticos alemães com relação à privatização da companhia ferroviária, mas ao mesmo tempo se recusam a assumir uma posição de princípios contra esse processo. Ao invés disso, têm a esperança de obter um acerto que não somente represente uma melhora para os condutores mas, acima de tudo, proteja a existência dos sindicatos e seus aparelhos burocráticos.

A onda de ações judiciais e ameaças de proibições , somadas às intimidações feitas pela DGB, tornou claro que o confronto tem uma dimensão política muito maior. Os opositores da greve consideram o confronto dos condutores como um prelúdio para conflitos sociais muito maiores e tentam intimidar e enfraquecer qualquer resistência ao governo de coalizão.

Os condutores só poderão levar adiante sua luta quando estiverem completamente conscientes das questões políticas que estão em jogo e fizerem da sua campanha o ponto de partida para um amplo movimento político contra o governo. O boicote do Transnet e da DGB tem que ser colocado no centro do confronto. Os condutores devem entrar em contato com associados de outros sindicatos de trabalhadores ferroviários e mobilizá-los contra as traições da direção do Transnet.

A intensificação do confronto dos condutores também deve atrair outros setores dos trabalhadores ferroviários, numa luta contra os planos da direção da Deutsche Bahn e do governo - sob a direção do ministro dos transportes, Wolfgang Tiefensee (Partido Social Democrata) - que visam privatizar as ferrovias. Os primeiro passos para a privatização já foram tomados e tiveram conseqüências desastrosas. Dezenas de milhares de empregos foram cortados.

Acima de tudo, é necessário romper com as políticas oportunistas de parceria social e assumir uma perspectiva socialista, que coloque as necessidades da população acima do interesse das grandes empresas e dos bancos pelo lucro.