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Cúpula das Américas termina sem acordo sobre crise econômica

Por Bill Van Auken
28 de abril de 2009

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Publicado originalmente em inglês no dia 21 de abril de 2009.

A Cúpula das Américas, que teve fim no dia 19.04 em Trinidad e Tobago, foi aclamada pela maioria da mídia como outro “sucesso” para o presidente dos EUA, Barack Obama.

O New York Times, sempre criando ideologia, afirmou: “Líderes do hemisfério ocidental, inspirados por um novo presidente americano, encerraram a reunião de cúpula de dois dias proclamando um novo começo para as relações na região, marcadas atualmente por amargos desentendimentos com os Estados Unidos nos últimos anos”.

Boa parte da reportagem centrou-se no aperto de mãos entre Obama e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, retratado por alguns como um sinal do pragmatismo do presidente americano, enquanto condenado pela direita republicana como uma irresponsável reverência a um inimigo.

Alguém dificilmente adivinharia que a declaração final da cúpula seria assinada apenas pelo presidente-afitrião, o presidente de Trinnidad e Tobago Patrick Manning. Vários países recusaram-se a assinar porque o documento deixou de mencionar Cuba e, como o esboço foi feito em setembro passado, nem mesmo mencionou a crise econômica global. Sem nenhum consenso, outros membros da Organização dos Estados Americanos seguiram o procedimento, não assinando o documento.

Esta não foi meramente uma questão de documentação inadequada. A cúpula terminou sem nenhum acordo substantivo ou qualquer proposta real para confrontar a catástrofe econômica que varre as Américas.

As nações latino-americanas estão profundamente divididas entre si e são incapazes de desenvolver integrações econômicas genuínas ? ainda mais na medida em que a crise intensifica os conflitos entre as várias nações do continente.

A crise na América Latina ameaça lançar mais 15 milhões de pessoas na pobreza apenas neste ano, visto que a inflação dos preços das mercadoria, a redução de mercados e a contração do crédito foram projetadas pelas Nações Unidas para contrair as economias da região em 0.3% em 2009.

Por sua vez, Obama retornou aos EUA de mão vazias. A única nova medida que anunciou foi um programa de “micro financiamento” de US$ 100 milhões para ajudar pequenos empreendedores - menos que uma gota no oceano.

Obama também apontou a decisão de triplicar a capacidade total de empréstimo do Fundo Monetário Internacional. Na realidade, a maior parte do compartilhamento desses fundos vai para os EUA e a Europa, enquanto a ajuda do FMI à América Latina terá a forma tradicional dos termos de punição que resultam no maior empobrecimento dos trabalhadores.

O principal papel efetuado pelo presidente americano foi tentar refazer a política dos EUA na região, apresentando seu governo como uma radical ruptura com a postura confrontante da administração Bush. Ele enfatizou que os Estados Unidos estavam na cúpula “para escutar e não somente para falar” e para avançar em uma nova relação entre os EUA e os países ao sul, baseada no “respeito mútuo e igualdade”.

A realidade é que, nas relações do hemisfério, assim como em todas as políticas da administração de Obama, o que está em jogo é a tentativa do governo dos EUA de dar uma nova roupagem à mesma política levada a cabo pela administração Bush.

Em seus discursos na cúpula, Obama enfatizou sua cor de pele como prova e personificação das supostas mudanças em Washington. Foi significativo que alguns dos supostos líderes de esquerda da América Latina tenham abraçado suas reivindicações, mesmo após Obama ter trabalhado em seus três primeiros meses como um constante instrumento de Wall Street e aparato da segurança nacional, salvando os bancos, mantendo a ocupação no Iraque e intensificando a guerra no Afeganistão,

A “nova era” de Chávez

Ninguém estava mais lisonjeado que o defensor da Revolução Bolivariana e do Socialismo do século 21, o venezuelano Hugo Chávez.

“Eu quero ser seu amigo”, disse Chávez ao presidente americano antes da primeira plenária da cúpula na última sexta-feira. Mais tarde, disse aos jornalistas que seu aperto de mãos com Obama foi “algo muito bom”. Ele acrescentou: “Ele é um homem muito inteligente, jovem... E ele é negro. Ele é um político experiente, apesar de ser jovem”.

Chávez declarou que a cúpula, que não produziu nem um documento muito menos novas políticas, foi “o maior sucesso” a que compareceu. Segundo ele, ela “abriu os portões para uma nova era de convivência entre nossos países”.

Em determinado momento, talvez o mais ridículo, Chávez deu a Obama uma cópia de As Veias Abertas da América Latina, livro escrito em 1971 pelo autor uruguaio Eduardo Galeano, com uma inscrição pessoal, “Para Obama, com afeição”. Será que Chávez realmente acredita que, se Obama ler este relato histórico das relações econômicas de exploração que os EUA desenvolveram com a América Latina através dos séculos, o presidente americano mudará a orientção da política de seu país?

Quaisquer que sejam as ilusões dos líderes da esquerda nacionalista, como Chávez, existem indubitavelmente forças objetivas mais profundas que os levam a abraçar Obama. A crise econômica mundial minou duramente suas economias e ameaça desencadear um novo ascenso da luta de classes que desafiará também seus regimes. Enquanto Chávez tenta assegurar novos mercados para o petróleo venezuelano na China e no Japão, os EUA ainda permanecem seu principal consumidor, contabilizando pelo menos metade de suas exportações.

Chávez tomou a decisão de enviar um novo embaixador à Washington - Roy Chaderton, o representante da Venezuela na OEA - e de aceitar um embaixador dos EUA em Caracas. As relações diplomáticas foram interrompidas em setembro passado, quando a Venezuela expulsou o embaixador dos EUA no país, depois de ter sido feito o mesmo pela Bolívia.

Similarmente, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, depois de fazer um discurso denunciando a história das intervenções dos EUA na região, disse aos repórteres que ele acredita que Obama será diferente. “Eu quero acreditar que ele está inclinado, que tem vontade”, afirmou.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, teve uma visão um pouco mais lúcida sobre a administração de Obama. “100 dias se passaram e nós, na Bolívia, não sentimos nenhuma mudança”, afirmou. “As políticas de conspiração continuam”.

Mesmo não estando na agenda, uma questão que teve um papel central nas discussões da cúpula foi a de Cuba, expulsa da Organização dos Estados Americanos em 1962, após ordens de Washington. Hoje, todos os cabeças de estado presentes no encontro, salvo Obama, estão a favor de sua readmissão e do levantamento do embargo econômico que os EUA mantém contra a ilha por 47 anos.

Obama enfatizou em uma conferência para a imprensa em Trinidad que “a política que tomamos durante 50 anos não funcionou... O povo cubano não está livre”. Tal afirmação significa, na verdade, a injeção de centenas de milhões de dólares do capital dos EUA na ilha, procurando colher super lucros da força de trabalho cubana, que ganha em média menos de US$ 20 por mês. Além disso, o fluxo das mercadorias americanas à Cuba demonstrará uma maneira muito mais eficiente de derrubar o regime Castro do que o embargo econômico e as conspirações da CIA.

[traduzido por movimentonn.org]