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Mais de 1 bilhão de pessoas passam fome em 2009

Por Joe Kishore
23 de junho de 2009

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Em 2009 a humanidade alcançará um recorde lamentável: pela primeira vez em sua história, mais de 1 bilhão de pessoas passarão fome.

Estima-se que o número de subnutridos aumente em 100 milhões somente neste ano, chegando a 1,02 bilhões de pessoas, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

O aumento de 11% no índice este ano é produto direto da crise econômica mundial, combinado com o persistente aumento no preço dos alimentos. É esperado que a economia mundial decline mais de 3% neste ano - a primeira grande contração desde a Segunda Guerra Mundial. A crise econômia, relata a FAO, "reduziu os salários e as oportunidades de emprego aos pobres, diminuindo significativamente seu acesso à comida".

A fome mundial está concentrada em países da Ásia e do Pacífico (642 milhões de pessoas), na África Sub-Saariana (265 milhões), América Latina e Caribe (53 milhões), no Leste Europeu e no norte da África (42 milhões). A África Sub-Saariana tem a maior concentração de famintos, enquanto o Oriente Médio e o norte da África assistem o mais rápido crescimento da fome(13,5%).

A definição da situação de "faminto" pela FAO se baseia no número de calorias consumidas pela pessoa. Dependendo da idade e do gênero em um país dado, a quantidade varia de 1.600 a 2.000 calorias diárias.

Na verdade, é como se o organismo da ONU simplesmente subestimasse o número de pessoas que passam fome. Um estudo publicado no começo deste ano revela que somente nos EUA 12 milhões de crianças estãos em situação de sub-alimentação (veja: US: 12 million children face hunger and food insecurity). A FAO, no entanto, estima o número de pessoas que passam fome nos "países desenvolvidos", como um todo, em 15 milhões.

De acordo com a FAO, o crescimento da fome não é resultado de uma queda na produção. A produção de cereal, por exemplo, teve apenas um pequena queda neste ano em relação a 2008. No entanto, "os pobres são menos capazes de conseguir comida, principalmente onde os preços no mercado interno estão muito altos... Ao final de 2008, o preço da comida ainda custava cerca de 24% a mais do que custara dois anos antes".

Em outras palavras, o grande crescimento da fome não está vinculado à incapacidade de produção, mas à incapaciade de massas cada vez maiores atenderem sua necessidade mais báasicas.

A FAO destaca três aspectos da crise atual que a tornam particularmente severa. Primeiro, ela acompanha o rápido crescimento do preço dos alimentos entre os anos de 2006-2008. Este crescimento foi guiado em parte pelas atividades especulativas dos investidores vinculados ao mercado de commodities.

Segundo, a crise econômica mundial. A FAO comenta: "Quando a crise econômica está confinada a um único país, ou a alguns de uma determinada região, os governos conseguem adotar recursos para contornar o problema, como a desvalorização da moeda, empréstimos ou aumento da assistência social".

Terceiro, os países mais pobres estão "mais integrados financeira e comercialmente à economia mundial" e, por isso, "estão mais expostos às oscilações do mercado". Estão, portanto, muito suscetíveis às rápidas mudanças na demanda e oferta globais.

Outro fator relacionado, mas não mencionado pela FAO, é o modo como o governo dos EUA têm monopolizado os créditos do mercado para preparar seus multi-trilhionários resgates bancários, explorando a posição privilegiada do dolar americano para isso. Os países mais pobres não possuem esse privilégio e estão assumindo grandes dívidas de empréstimo como consequência.

Muitos países pobres têm testemunhado um grande declínio nas remessas recebidas pelos estrangeiros, cerca de 5% a 8%. Como relata a FAO: "Além disso, as remessas de dinheiro geralmente continuam sendo enviadas mesmo em períodos de crise, às vezes tendo até aumentado. A queda nesses envios acontece neste caso devido à dimensão da atual recessão econômica mundial".

A FAO também calcula que a ajuda internacional dada aos 71 países mais pobres cairá em 25%. O total da ajuda oficial dada a estes paíse tem sido de cerca de US$ 100 bilhões por ano - insignificante, se comparada aos trilhões injetados rapidamente no sistema financeiro mundial ou mesmo se comparada aos gastos militares dos EUA, calculados em US$ 500 bilhões por ano.

Países que dependem da exportação têm sido particularmente afetados pela crise econômica. O mercado mundial estima que suas quedas serão de 5 a 9% neste ano.

As implicações da rápida deterioração da economia global e do consequente declínio nos níveis de vida de milhões de pessoas são rapidamente percebidos pelos oficiais da ONU. O Dr. Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, comentou: "A silenciosa crise de fome... traz um sério risco à paz mundial e à segurança". Josette Sheeran, do Programa Alimentício Mundial (PAM), comentou: "Um mundo faminto é um mundo perigoso".

Muitos comentaristas apontam a possibilidade de repertir-se a inflação galopante que surgiu em 2008. No começo deste ano, os países do G8 se reuniram para discutir a "emergência da fome" global. Alguns comentários, inclusive, evidenciaram uma preocupação a respeito do perigo de um levante social e de um processo revolucionário.

[traduzido por movimentonn.org]

 



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