Trotsky da Netflix: Uma combinação tóxica de falsificação histórica e antissemitismo

20 Março 2019

Publicado originalmente em 8 de Março de 2019

A Netflix está atualmente exibindo mundialmente a virulenta série antissemita Trotsky, que foi originalmente produzida pelo Estado russo em 2017.

Esteban Volkov, neto de Trotsky de 93 anos, recentemente denunciou a série como “um ataque político mascarado de drama histórico” e “uma justificativa do assassinato do ‘monstro’ chamado Trotsky”. A edição latino-americana do jornal espanhol El País descreveu a série como o “segundo assassinato de Leon Trotsky” e rejeitou o retrato do revolucionário “como um sádico, um completo traidor e um fantoche”.

O que está sendo apresentado pela Netflix não é história. Não é nem mesmo uma ficção artística da história, na qual certas liberdades foram tomadas para fins dramáticos legítimos. A série da Netflix é um exercício monstruosamente reacionário de falsificação histórica. Não existe uma única cena que procura descrever eventos históricos com qualquer grau discernível de precisão. A maioria das cenas são grotescas invenções. Nem um único personagem, muito menos Leon Trotsky, tem qualquer semelhança com a figura histórica que a série pretende representar.

Para colocar a questão apresentada por esta série da maneira mais clara e precisa possível: Trotsky, da Netflix, é a série mais explicitamente e inflexivelmente antissemita que já foi exibida nos EUA e ao redor do mundo. É um incitamento frenético ao ódio aos judeus. A inspiração para esta produção são os Protocolos dos Sábios de Sião, a notória falsificação antissemita russa, produzida na Rússia anterior a 1917, que alegava documentar uma conspiração judaica internacional para dominar o mundo.

O retrato de todos os personagens judeus no filme, começando por Trotsky, é baseado em estereótipos antissemitas maliciosos. Eles são autoproclamados fanáticos sedentos de sangue, desprovidos de piedade humana, desprezam as massas oprimidas e são insaciáveis em seu desejo de poder. Eles também são obcecados por sexo. O principal personagem judeu masculino, Trotsky, é denegrido em cenas semipornográficas, um dispositivo de difamação antissemita bem conhecido da propaganda da extrema direita russa e dos nazistas.

As revoluções russas de 1905 e 1917 são retratadas como o resultado de uma conspiração judaica financiada do exterior. A origem da Revolução de 1905 é um pacto criminoso entre Trotsky e Alexander Parvus, que obtém financiamento do governo alemão. A Revolução de Outubro de 1917, a revolta social mais monumental da história, é descrita como um “golpe”, que foi orquestrado por Trotsky com a ajuda de apenas dois outros líderes bolcheviques bem conhecidos que também eram judeus: Lev Kamenev e Grigory Zinoviev.

Trotsky é uma figura demoníaca que se diverte com a morte e a destruição. Parvus, um importante teórico marxista, é motivado apenas por uma ganância insaciável e parece uma caricatura sedenta por dinheiro muito parecida dos filmes de propaganda antissemita da era nazista.

Lenin é retratado como pouco mais que um bandido que acaba sendo vítima da conspiração de Trotsky.

Trotsky da Netflix

Trotsky cede o poder a Lenin, a série sugere, apenas para garantir o sucesso de sua tentativa de conquistar o poder mundial através da revolução socialista mundial. Em uma conversa totalmente inventada com Frank Jacson – seu futuro assassino – Trotsky argumenta que entregou o poder a Lenin porque “um governante judeu nunca ficaria no poder na Rússia por um mês sequer” e para perseguir “meu verdadeiro objetivo genuíno”. Jacson responde: “Sim, sim, eu sei. Para atiçar as chamas da revolução mundial.” Trotsky continua: “E, como ditador da Rússia, eu teria apenas sujado as mãos. O caminho para o poder nem sempre é para frente. Você precisa ser capaz de parar e esperar.”

O Trotsky da série não sente nada além de desprezo pelo povo russo. Em uma cena característica, Trotsky conta a sua companheira, Natalia: “O povo é uma mulher fraca. As pessoas têm uma psicologia feminina.” Natalia responde: “Eu não entendo como você pode falar com tanto desprezo das pessoas cujo destino você está, como eu entendo, lutando.” Ao que Trotsky responde: “Será que um povo que tem sofrido por causa da tirania por décadas merece outra coisa senão desprezo?”

Em outra cena, ambientada durante a Guerra Civil, Trotsky, abrigado no Kremlin, trama o extermínio da população russa. “Estamos criando um futuro no qual, de longe, não aceitaremos todos. Vamos supor que 30%, 50% ou 70% da população morra, mas o resto virá conosco para o comunismo ... A crueldade [que vamos empregar] será de proporções bíblicas ... Este é o nascimento do novo mundo.”

A única figura simpática nessa série é o assassino de Trotsky, o agente stalinista Jacson (Ramon Mercader). Ele é retratado travando uma nobre luta contra Trotsky, que os telespectadores são convencidos que se trata de um verdadeiro demônio. Em uma cena, os olhos de Trotsky ficam pretos. Caso os espectadores não percebam, Mercader diz de Trotsky: “Ele é literalmente o diabo. Ele suga minha alma pouco a pouco, todos os dias.” No final da série, o assassinato de Trotsky é apresentado como um ato legítimo de autodefesa de Mercader.

Poder-se-ia citar inúmeros outros exemplos de escandalosas invenções, para não mencionar as que causam indignação. A série consiste de uma fusão de histérico anticomunismo e dos mais sujos elementos antissemitas das ideologias obscurantistas da Igreja Ortodoxa e do virulento nacionalismo russo.

A série tem o odor fétido do antissemitismo homicida que foi propagado pelos elementos mais reacionários da Rússia antes da Revolução de 1917 e durante a Guerra Civil. No final do século XIX e início do século XX, a Rússia testemunhou os pogroms mais assassinos contra os judeus. O regime czarista via o antissemitismo como uma poderosa arma ideológica que poderia ser usada contra a crescente ameaça da revolução socialista. Os Centenas Negros, liderados por Vladimir Purishkevich, eram apenas as mais proeminentes das forças antissemitas mobilizadas como tropas de choque contra o movimento socialista.

A revolução bolchevique e a consequente vitória da classe trabalhadora na Guerra Civil russa levaram muitos dos principais ideólogos do antissemitismo czarista ao exílio na Alemanha, onde desempenharam um importante papel na promoção de uma forma mortal de ódio aos judeus que exerceu substancial influência sobre o que viria a ser o movimento nazista. Como o historiador Michael Kellogg documentou em seu livro, The Russian Roots of Nazism (As Raízes Russas do Nazismo), os futuros líderes do Terceiro Reich basearam seus pontos de vista nas “concepções conspiratórias-apocalípticas dos emigrados brancos que consideravam o judaísmo internacional uma força malévola que lutava pela dominação do mundo de maneira covarde”.

Hitler foi introduzido em 1919 aos Protocolos dos Sábios de Sião por seu mentor político, Dietrich Eckart. Esse último, conforme documentado por Kellogg, “lamentou que o ‘judeu Trotskii’ tivesse presidido um ‘campo de cadáveres’ que outrora fora a Rússia Imperial. Ele de maneira amarga observou: “Oh, quão sábios são os sábios de Sião.” [The Russian Roots of Nazism: White Émigrés and the making of National Socialism 1917-1945, Cambridge University Press, 2005]

Trotsky da Netflix poderia ter sido produzido, sem qualquer alteração, sob os auspícios do regime nazista. Além disso, o fato de a produção deste lixo antissemita ter sido patrocinada pelo governo de Putin atesta o caráter fundamentalmente reacionário de um regime que governa em nome de oligarcas criminosos e teme desesperadamente o ressurgimento de um movimento socialista revolucionário na Rússia.

Dado o caráter virulento antissemita da série Trotsky, pode-se supor que a Netflix teria recebido uma enorme quantidade de protestos ao promovê-la e distribui-la. Mas nada disso aconteceu. Apesar das campanhas diárias denunciando como um antissemita quem se atreve a dizer uma palavra crítica ao tratamento brutal do estado de Israel contra o povo palestino, Trotsky da Netflix foi aprovado. As poucas resenhas na mídia capitalista dos Estados Unidos e da Europa que apareceram não fizeram nenhuma referência ao antissemitismo flagrante do filme, ou chamaram a atenção para suas inúmeras invenções. O New York Times não publicou uma resenha sobre a série.

Em uma resenha publicada em 20 de fevereiro, Luke Johnson, do Washington Post, observa, sem reclamar: “A série o descreve [Trotsky] como ousado, letrado e estrangeiro, lendo Freud em Paris e indo a uma festa depois de ter consumido cocaína, mas em última instância violento e destrutivo.” Johnson relembra com surpresa que, em uma exibição da série em Cannes em 2017, o produtor russo Konstantin Ernst buscou promovê-la para potenciais compradores “comparando de brincadeira as façanhas sexuais de Trotsky com a má conduta de Harvey Weinstein”.

O fracasso em denunciar a série da Netflix, sem falar em exigir que ela seja removida do catálogo da empresa, não se limita à mídia. Organizações judaicas não se manifestaram em protesto. O World Socialist Web Site tentou obter uma declaração da Liga Anti-Difamação, mas não recebeu resposta. Acadêmicos proeminentes têm, com poucas exceções, mantido seu silêncio também.

O que explica essa indiferença à apresentação de um trabalho cruelmente antissemita a uma audiência em massa?

Em primeiro lugar, o clima cultural e político para essa indiferença foi criado por décadas de falsificações históricas. Em particular, a demonização de Trotsky, incluindo o uso de caracterizações antissemitas, tem sido desenvolvida por acadêmicos ocidentais desde 1991. Em seus livros sobre Trotsky, tanto Ian Thatcher (Universidade de Ulster) quanto Robert Service (Universidade de Oxford) repetidamente se referiram a Trotsky como “Bronstein” (nome de família original de Trotsky que ele nunca usou) para destacar suas origens judaicas. Service até mudou o primeiro nome de Trotsky de “Lev” para “Leiba” (uma forma iídiche nunca usada por Trotsky ou seus pais). Ele descreveu a família de Trotsky como “judeus valentes” e acusou falsamente Trotsky de tentar ocultar a extensão da riqueza de seu pai. Ele descreveu Trotsky como “impetuoso em sua astúcia, sincero em suas opiniões ... Trotsky tinha essas características em um grau mais elevado do que a maioria dos outros judeus ... Mas ele estava longe de ser o único judeu que desfrutava visivelmente as oportunidades de autopromoção pública.” Service notou que o “nariz real de Trotsky não era nem longo nem inclinado”.

Em segundo lugar, diante de uma crescente crise política, há um medo cada vez maior do crescimento do interesse pelo socialismo revolucionário. As elites dominantes e seus agentes na mídia e na academia estão respondendo a essa ameaça. A mentira histórica, como escreveu Trotsky, é o cimento ideológico da reação política.

O antissemitismo e todas as formas de racismo, no limite, baseiam-se na falsificação da história. É necessário se opor a ele. Há, sem dúvida, inúmeros historiadores que sabem muito bem que Trotsky da Netflix é uma compilação de mentiras e invenções. É hora deles falarem publicamente e protestarem.

O Comitê Internacional da Quarta Internacional e o World Socialist Web Site condenam esta série como um exercício depravado de falsificação histórica e propaganda antissemita e antissocialista. Exigimos, por último, que a Netflix retire esta série de sua rede internacional.

Os autores também recomendam:

Russian television’s Trotsky serial: A degraded spectacle of historical falsification and anti-Semitism

[25 de Novembro de 2017]

David North e Clara Weiss