A expansão de dez anos do mercado de ações

21 Março 2019

Publicado originalmente em 9 de Março de 2019

No dia de hoje faz dez anos do início da expansão recorde do mercado de ações nos Estados Unidos, que aconteceu depois da crise financeira global de 2008. Essa expansão enriqueceu a oligarquia financeira em centenas de bilhões de dólares e aumentou a desigualdade social nos EUA e em todo o mundo a níveis historicamente sem precedentes.

Na última década, como resultado das políticas conduzidas pelo governo dos EUA, autoridades financeiras e, acima de tudo, o Federal Reserve dos EUA (Fed), trilhões de dólares foram injetados nos mercados financeiros, elevando os índices Dow e S&P 500 em mais de 300% e a Nasdaq em 500%.

As investigações sobre a crise revelaram, nas palavras do presidente de um relatório do Senado publicado em 2011, que o sistema financeiro era um “grande serpentário com ganância, conflitos de interesse e irregularidades”. Mas ninguém foi processado por essa atividade criminosa, uma vez que o procurador-geral do governo Obama, Eric Holder, invocou o que equivale a um novo princípio jurídico burguês: “too big to jail”, ou “grande demais para prender”.

Em março de 2013, Holder disse ao Senado dos EUA que as instituições financeiras, envolvidas no que foi considerada uma atividade essencialmente criminosa, eram tão grandes que não poderiam ser processadas. Se as acusações fossem trazidas à tona, “isso teria um impacto negativo na economia nacional, talvez até na economia mundial”.

Não só ninguém foi punido como a oligarquia financeira foi extensivamente recompensada. Isso começou com o programa imediato de resgate de bancos de US$ 750 bilhões, mas depois foi ampliado rápida e maciçamente através do programa de “flexibilização quantitativa” realizado pelo Fed, que foi depois copiado por outros grandes bancos centrais em todo o mundo. Estima-se que, levando em conta todas as medidas financeiras adotadas, incluindo a compra de títulos e a provisão de linhas de liquidez em dólares, o montante total injetado no sistema tenha sido de aproximadamente US$ 25 trilhões.

Esse processo levou as taxas de juros a níveis historicamente baixos, permitindo a continuação e extensão da mesma atividade especulativa e parasitária que levou à crise financeira. Como resultado, de acordo com o último relatório da Oxfam divulgado em janeiro, 26 bilionários possuem e controlam tanta riqueza quanto as 3,8 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da população mundial, e a riqueza da oligarquia financeira está aumentando US$ 2,5 bilhões por dia.

Nos EUA, apenas três bilionários possuem mais riqueza do que 160 milhões de pessoas, ou metade da população.

O massivo pacote de estímulo financeiro do Fed e de outros bancos centrais foi realizado alegando-se que era o necessário e o único meio disponível para impedir que a economia dos EUA e do mundo mergulhasse em outra Grande Depressão.

No entanto, dez anos depois da emergência imediata, ficou claro que muito mais estava envolvido. O que de fato ocorreu foi o estabelecimento de um mecanismo institucionalizado para desviar a riqueza produzida pelo trabalho de bilhões de trabalhadores em todo o mundo para a elite dominante. A oligarquia financeira foi enriquecida além de seus sonhos mais selvagens, enquanto a massa da população trabalhadora teve seus salários e benefícios sociais reduzidos sob o pretexto de que “não há dinheiro”.

Uma das descobertas essenciais do fundador do socialismo científico, Karl Marx, foi confirmada não apenas nas páginas d’O Capital, mas na viva realidade social: a lógica objetiva inerente do modo de produção capitalista é o acúmulo de riqueza em um polo e a pobreza e degradação no outro.

A promoção da desigualdade social não foi um subproduto infeliz da operação de resgate financeiro. Como o economista e autor David McWilliams observou em um artigo publicado no Financial Times no início deste mês, o presidente do Fed, Ben Bernanke, concluiu que uma “recessão do balanço” teve de ser combatida estimulando os ativos.

“Ao trocar antigos empréstimos ruins nos balanços dos bancos com um bom dinheiro novo, sustentado por taxas de juros negativas, o Fed elevou substancialmente os preços dos ativos. Avaliações mais altas fixaram os balanços e acabaram levando a mais gastos e investimentos. No entanto, essa ‘economia de gotejamento’ também significou que a desigualdade de riqueza não foi uma consequência não intencional, mas o objetivo da política.”

A economia política marxista sempre insistiu – contra a insistência dos premiados mercenários do capital, os economistas burgueses, de que o chamado “mercado livre” baseado na propriedade privada dos meios de produção e finanças é o único sistema econômico viável – que as recorrentes crises do sistema capitalista não são o resultado de fatores acidentais ou temporários, mas de suas próprias contradições objetivas.

Essa descoberta também está sendo confirmado na viva realidade econômica. A ficção da economia burguesa é que os lucros geram investimentos, levando à expansão da produção, mais empregos e salários crescentes, e que, quaisquer que sejam as flutuações, tudo é para o melhor no melhor de todos os mundos possíveis.

Essa ficção foi explodida pela recente história econômica. Não obstante a oferta de grandes quantidades de crédito, o investimento na atividade econômica real em todas as principais economias capitalistas permanece abaixo de antes de 2008. E agora há sinais crescentes de uma desaceleração econômica global, se não uma recessão, sendo a última indicação disso o fato de nos Estados Unidos a contratação ter praticamente parado em fevereiro, com a criação de apenas 20 mil novos empregos.

A dependência de todo o sistema financeiro mundial do fornecimento de dinheiro barato tem sido demonstrada pela oposição frenética da oligarquia financeira a qualquer movimento para retornar ao que já foi considerado uma política monetária “normal”.

Em 2013, quando o Fed indicou que pretendia encerrar seu programa de compra de ativos, os mercados financeiros reagiram com o chamado “taper tantrum” (“chilique pela redução”).

Quando o Fed finalmente começou a elevar as taxas em 2015, por incrementos muito pequenos, fez isso com a garantia de que estava pronto para intervir caso fosse necessário. Não havia simplesmente uma “opção de venda de Greenspan, Bernanke ou Yellen”, mas uma opção de venda do Fed – uma garantia do banco central de que ele sustentaria o mercado de ações.

Em 2018, o Fed realizou quatro aumentos de juros, com a perspectiva de outros para 2019, a fim de “normalizar” a política e ter algum espaço de manobra para enfrentar a próxima crise ou recessão. Também indicou que a redução de seus ativos, que haviam se expandido de US$ 800 bilhões em 2008 para mais de US$ 4,5 trilhões, continuaria a uma taxa de US$ 50 bilhões por mês – uma política que estaria em “piloto automático”.

Isso produziu uma reação furiosa, já que os mercados nos EUA registraram em dezembro do ano passado seu pior resultado naquele mês desde 1931, em meio a Grande Depressão.

A reviravolta foi rápida. A reunião de janeiro do Comitê de Mercado Aberto do Fed decidiu manter as taxas de juros, e a redução de ativos, que tendia a elevar as taxas de juros do mercado de títulos, estava chegando ao fim, bem abaixo de qualquer retorno para um nível anterior ao de 2008.

Isso foi seguido pela decisão do Banco Central Europeu desta semana de reverter a anterior redução de sua política de flexibilização quantitativa e de oferecer empréstimos mais baratos para os bancos e reinvestir seus títulos à medida que se aproximam do vencimento.

Essa é uma demonstração notável da veracidade da economia política marxista – acima de tudo, sua insistência no fato das crises capitalistas surgirem de processos objetivos interiores ao próprio sistema. Um exame da última década revela que as medidas adotadas para tentar impedir um colapso do sistema financeiro em 2008 e conseguir sustentá-lo por uma década criaram as condições para um novo desastre.

Avisos significativos, provenientes dos círculos burgueses, apontam para isso. O FMI informou que a dívida global atingiu o recorde de US$ 184 trilhões em 2017, equivalente a 225% do PIB global.

O regime de taxas de juros baixíssimas levou a um enorme aumento das dívidas, com um aumento significativo na emissão de títulos corporativos de baixo grau financiados por investidores em busca de maior rendimento.

No início deste mês, a OCDE produziu um relatório importante no qual alertou sobre a quantidade recorde de dívidas emitidas com classificações historicamente baixas. Em meio a sinais crescentes de uma desaceleração econômica, ela advertiu: “O volume de investimentos em títulos corporativos cuja inadimplência é esperada no caso de uma recessão econômica pode ser consideravelmente maior do que o experimentado na crise financeira.”

Descobriu-se que a dívida global na forma de títulos corporativos emitidos por empresas não financeiras era de quase US$ 13 trilhões no final de 2018, o dobro do valor em termos reais se comparado com o final de 2008.

O Banco de Compensações Internacionais, em sua última revisão trimestral, mostrou preocupação com a expansão dos títulos corporativos com o grau de investimento BBB, ressaltando que a participação dos títulos desses fundos aumentou de 20% em 2010 para 45% em 2018.

Ele alertou que embora os títulos BBB tenham se mostrado atraentes por causa das taxas mais altas que ofereciam, vendas rápidas desses títulos poderiam resultar em uma queda. “Se, na esteira da fraqueza econômica, emissores suficientes fossem abruptamente rebaixados de BBB para o status de título podre, fundos mútuos e, mais amplamente, outros participantes do mercado” obrigados a deter títulos com grau de investimento “poderiam ser forçados a desfazer-se de grandes quantidades de títulos rapidamente.”

Em um artigo no início deste mês, a colunista do Financial Times, Rana Foroohar, observou que “o Fed foi forçado a realizar um retorno pelos mercados agitados em outro sinal de excessiva financeirização”. O artigo continuou: “Dinheiro fácil tornou-se um gotejamento de morfina do qual muitas empresas e investidores não podem prescindir, apesar de estarmos quase 10 anos em recuperação econômica”.

Não se trata, portanto, da possibilidade de uma nova crise financeira ocorrer, mas de quando isso acontecerá. E essa crise ameaça ser muito mais séria do que a de 2008, com consequências políticas de longo alcance.

Diante desse cenário, um balanço político deve ser realizado. Governos em todo o mundo, dos democratas e republicanos nos EUA, ao Partido Trabalhista na Grã-Bretanha e ao regime do partido da pseudo-esquerda Syriza na Grécia, demonstraram que são os defensores da oligarquia financeira global e do sistema de lucros, e que esta realidade determinará sua resposta.

Uma década atrás, eles enfrentaram uma classe trabalhadora que, tendo sido reprimida por quase três décadas, sobretudo pelos aparatos sindicais, ficou bastante atordoada com a crise e foi incapaz de desenvolver uma resposta coerente a ela.

Essa situação, porém, mudou. O período passado caracterizou-se por um ressurgimento da luta de classes em todo o mundo e por um esforço da classe trabalhadora para se libertar da camisa-de-força dos sindicatos. A essa situação se soma uma profunda hostilidade a todos os partidos do establishment político capitalista e um crescente interesse e apoio ao socialismo, especialmente entre a juventude.

As classes dominantes sabem que, na próxima crise econômica, as circunstâncias que as ajudaram em 2008 não serão mais aplicadas e que enfrentarão um levante da luta de classes. Elas não confrontarão esse levante com reformas e concessões, pois são impossíveis de serem realizadas. É por isso que a última década viu o aprimoramento de todos os mecanismos de repressão de estado.

A classe trabalhadora deve se preparar para o que virá. Ela não deve realizar apelos fúteis para o establishment político mudar de rumo, como as campanhas fraudulentas de Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez nos EUA, mas lutar por um programa genuinamente internacionalista e socialista, baseado na expropriação de grandes corporações e das cidadelas do capital financeiro, como o ponto de partida para o desenvolvimento de uma forma superior de organização socioeconômica baseada na necessidade humana, não nos ditames do sistema de lucro.

Como a classe trabalhadora se preparará para isso depende do desenvolvimento de novas organizações de luta, de modo a romper o domínio dos sindicatos, e da construção do Comitê Internacional da Quarta Internacional e de suas seções nacionais, os Partidos Socialistas pela Igualdade.

Nick Beams