O atentado terrorista na Nova Zelândia e o perigo internacional do fascismo

23 Março 2019

Publicado originalmente em 18 de Março de 2019

O número de mortos do atentado terrorista fascista de sexta-feira passada em duas mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia, subiu para 50 no fim de semana. A pessoa mais jovem morta era um menino de três anos de idade. Trinta e quatro pessoas seguiam hospitalizadas até ontem, domingo, com 12 delas em estado crítico, incluindo uma menina de quatro anos gravemente ferida.

As pessoas em todo o mundo estão horrorizadas pelo massacre racista e a sangue frio, que teve como alvo homens, mulheres e crianças muçulmanos indefesos enquanto oravam. Dezenas de milhares de pessoas participaram de vigílias no fim de semana na Nova Zelândia e ao redor do mundo em solidariedade às vítimas e suas famílias e para defender muçulmanos, imigrantes e refugiados.

Segundo a polícia da Nova Zelândia, Brenton Tarrant, de 28 anos, nascido na Austrália, foi o único atirador e não teve assistência de outras pessoas. Ele foi levado ao tribunal acusado de homicídio. Autoridades na Nova Zelândia e na Austrália afirmam que ele nunca chamou a atenção das agências de inteligência ou da polícia e, portanto, não estava sendo monitorado.

Essa tentativa de retratar Tarrant como um “lobo solitário” perturbado e, especialmente, a afirmação de que ele estava “fora do radar”, simplesmente não é verossímil. O manifesto de 74 páginas publicado por Tarrant deixa claro que ele preparou e executou a atrocidade terrorista em nome de uma rede internacional de fascistas e supremacistas brancos, com quem colaborou abertamente por vários anos.

O manifesto de Tarrant é um Mein Kampf moderno. Combina chamados para realizar uma violência genocida e uma guerra civil para expulsar “invasores” não europeus da Europa, EUA, Austrália e Nova Zelândia – incluindo todos os povos de origem muçulmana, judaica, africana, asiática e cigana – com um ódio patológico ao socialismo. Essa combinação foi empregada no racismo branco e ultranacionalista do lema “sangue e terra” que animou o nazismo e outros movimentos fascistas nas décadas de 1920 e 1930.

O atirador escreveu que ele “doou a muitos grupos nacionalistas e ... interagiu com muitos outros”. Desde 2012, ele visitou a Bulgária, Hungria, Sérvia, Croácia, Bósnia, França, Reino Unido, Espanha, Turquia, Paquistão e até mesmo a Coréia do Norte, tendo depois retornado à Austrália e viajado para a Nova Zelândia.

Ele alega que decidiu se voltar para o terrorismo durante uma viagem de dois meses pela Europa em 2017 e após a derrota do partido de extrema direita Frente Nacional nas eleições francesas. Tarrant contatou os chamados Cavaleiros Templários, uma organização supostamente ligada ao fascista assassino em massa norueguês Anders Breivik, e afirma que ele recebeu sua “bênção” pelo atentado de Christchurch. Ele era ativo em blogs e redes sociais de ultradireita e se juntou a um clube de armas pouco depois de chegar à Nova Zelândia. Tarrant declarou que escolheu a Nova Zelândia como o país para realizar seu atentado com o objetivo de mostrar que “nenhum lugar do mundo é seguro” para “não-brancos”.

Se tudo isso significa que ele estava “fora do radar” das agências de segurança ao redor do mundo, o manifesto de Tarrant fornece uma explicação de como isso aconteceu. Ele se gabou de que grupos fascistas estão profundamente integrados ao aparato estatal, aos militares e à polícia. Ele escreveu: “São milhões de pessoas nessas organizações ... mas desproporcionalmente empregadas em serviços entre os militares e policiais. Não é novidade que os etno-nacionalistas e nacionalistas procuram emprego em áreas que servem as suas nações e comunidade.” Tarrant estimou que “centenas de milhares” de soldados e policiais europeus pertencem a “grupos nacionalistas”.

O atentado de Christchurch e as concepções que o inspiraram devem ser tomados como um aviso mortal pela classe trabalhadora internacional e setores progressistas da classe média. É o produto do cultivo deliberado, nos mais altos níveis do estado capitalista, em todos os países, do nacionalismo de extrema direita. À medida que a classe trabalhadora se coloca à frente da cena política em todo o mundo, fazendo ressurgir a luta de classes contra níveis sem precedentes de desigualdade social e o perigo de uma guerra mundial nuclear, a classe dominante está novamente, como fez nas décadas de 1920 e 1930, procurando usar forças fascistas para dividir, intimidar e suprimir a oposição ao fracasso do capitalismo e do sistema de Estado-nação.

Partidos políticos e indivíduos que defendem pontos de vista não muito distantes dos de Brenton Tarrant podem ser encontrados nos governos e parlamentos de todos os países europeus, no Brasil, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia, e no Congresso dos EUA e na Casa Branca.

Na Alemanha, o governo de coalizão de Merkel adotou as políticas do partido fascista Alternativa para a Alemanha (AfD), que faz oposição ao governo alemão no parlamento. O ministro do Interior, Horst Seehofer, apoiou uma manifestação neonazista em Chemnitz em setembro passado, dizendo que estaria ao lado dos fascistas se não fosse ministro. O então presidente do serviço secreto alemão, Hans-Georg Maassen, também defendeu a mobilização em Chemnitz e negou seu caráter anti-imigrante e fascista.

Uma rede terrorista de direita secreta foi exposta nas forças armadas alemãs, composta por centenas de membros. A rede, cujos membros foram protegidos pela justiça, tinha planos detalhados para assassinar figuras proeminentes do governo e atacar organizações judaicas e muçulmanas.

Nos EUA, tanto os democratas quanto os republicanos tentaram fazer dos imigrantes os bodes expiatórios para a crise social do país. Ambos utilizam a política racial em um esforço para dividir a classe trabalhadora.

O presidente Trump, que Tarrant descreveu como “um símbolo da identidade branca renovada”, tem procurado nutrir um eleitorado fascista. Em uma mensagem de solidariedade à sua base fascista, Trump disse aos repórteres após o atentado de Christchurch que ele não considerava o “nacionalismo branco” uma ameaça. Dois dias antes do massacre na Nova Zelândia, ele fez uma clara ameaça ao mobilizar seus partidários entre os militares, policiais e grupos de bandidos, como o “Motoqueiros por Trump” contra seus oponentes, dizendo ao site Breitbart News que eles eram “mais duros” do que os “esquerdistas”.

Isso ocorreu depois da prisão em fevereiro do oficial fascista da Guarda Costeira dos Estados Unidos e partidário de Trump, Christopher Paul Hasson, que planejava matar importantes indivíduos afro-americanos e judeus e membros dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês).

Nas semanas que antecederam o atentado de Christchurch, uma campanha de difamação foi realizada contra os críticos de esquerda que denunciaram o tratamento brutal do governo israelense aos palestinos. A deputada mulçumana do Partido Democrata Ilhan Omar foi considerada “antissemita” por denunciar a influência exercida pelo lobby pró-sionista sobre os republicanos e democratas. Essa campanha ecoa a caça às bruxas contra o líder do Partido Trabalhista do Reino Unido, Jeremy Corbyn, e centenas de membros trabalhistas, que são acusados de “antissemitismo” com o objetivo de deslegitimar e expurgar a oposição de esquerda ao imperialismo britânico.

Na Austrália e na Nova Zelândia, onde os políticos estão dando declarações hipócritas condenando o racismo e a violência, o establishment político tem demonizado desde 2001 os refugiados muçulmanos como uma ameaça e potencial quinta coluna do terrorismo e tem culpado a imigração por todos os problemas sociais.

O partido Nova Zelândia Primeiro, que controla os ministérios da defesa e relações exteriores no governo de coalizão liderado pelo Partido Trabalhista, exigiu repetidamente medidas para impedir a “imigração em massa” de países muçulmanos e asiáticos – usando uma linguagem não muito diferente daquela usada por Tarrant e outros extremistas de direita.

O bárbaro atentado em Christchurch reforça a advertência feita pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) em sua declaração de 3 de janeiro deste ano, A estratégia da luta de classes internacional e a luta política contra a reação capitalista em 2019. Enquanto o fascismo ainda não é um movimento de massa, está recebendo apoio de setores da classe dominante, do estado e da mídia burguesa.

Organizações de extrema direita, afirma a declaração, foram “capazes de explorar demagogicamente a frustração e a raiva sentidas pela ampla massa da população”. Enfatiza ainda que: “Toda experiência histórica – e, em particular, os acontecimentos da década de 1930 – demonstra que a luta contra o fascismo só pode ser realizada a partir da mobilização independente da classe trabalhadora contra o capitalismo.”

O CIQI tem liderado a luta para trazer as lições cruciais da história para a luta contra a promoção das forças fascistas na Alemanha, na Europa e ao redor do mundo.

Essa luta está no centro da campanha eleitoral de suas seções europeias e de uma série de encontros públicos que serão realizados nos Estados Unidos intitulados “A Ameaça do Fascismo e como combatê-lo”. Os encontros contarão com a participação de Christoph Vandreier, um importante membro do Partido Socialista pela Igualdade da Alemanha e autor do livro Why Are They Back? Historical Falsification, Political Conspiracy and the Return of Fascism in Germany (Por que eles estão de volta? Falsificação histórica, conspiração política e o retorno do fascismo na Alemanha).

O CIQI deve ser construído como a liderança de um movimento unificado, internacional e socialista da classe trabalhadora capaz de impedir que o horror do fascismo ameace a sociedade em uma escala ainda maior do que nos anos 1920, 1930 e 1940.

Tom Peters