Escândalo de corrupção do UAW atinge o vice-presidente Norwood Jewell

Por Jerry White
26 Março 2019


Publicado originalmente em 19 de Março de 2019

Norwood Jewell, que liderou em 2015 as negociações de contrato do Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (UAW, na sigla em inglês) com a Fiat Chrysler (FCA), foi acusado por procuradores federais na segunda-feira de receber dezenas de milhares de dólares em subornos de executivos da FCA.

Jewell é o dirigente mais importante do UAW acusado até agora na atual investigação federal do esquema de corrupção do sindicato, que envolveu pagamentos de milhões de dólares para dirigentes do UAW para que assinassem e impusessem contratos a favor das empresas automotivas, que cortaram empregos, salários e benefícios dos trabalhadores. Quatro outros dirigentes do UAW se declararam culpados das acusações da investigação de corrupção.

A acusação expõe completamente as alegações anteriores do ex-presidente do UAW, Dennis Williams, de que o escândalo de corrupção não estava relacionado aos “acordos de negociação coletiva” impostos pelo sindicato em 2015, que sofreram oposição em massa dos trabalhadores.

A acusação contra Jewell prova que os contratos de 2015 são ilegítimos e precisam ser considerados nulos e sem efeito. Sobre que base legal um contrato negociado por indivíduos recebendo subornos das empresas pode ser considerado válido e obrigatório?

O escândalo de corrupção é uma exposição não apenas de Jewell, mas do próprio UAW e de todos os sindicatos oficiais, que servem como instrumentos da administração das empresas e do estado. Ele reforça a necessidade urgente de que os trabalhadores automotivos e todos os trabalhadores formem organizações de luta independentes dos sindicatos, os comitês de base, para preparar e planejar uma reação.

O escândalo de corrupção não se resume a um contrato. O antecessor de Jewell no Departamento para a Chrysler do UAW, General Holiefield, e a esposa de Holiefield foram os primeiros a serem acusados de terem recebido subornos entre 2007 e 2011. Os subornos tinham o objetivo, segundo um executivo da FCA, de manter os dirigentes sindicais “gordos, burros e felizes”. Os acordos que Holiefield negociou, incluindo durante a reestruturação da Chrysler e da GM realizada pelo governo Obama em 2009, criaram um piso salarial menor para novos contratados, aboliram o dia de oito horas de trabalho, tiraram dos aposentados benefícios de saúde e destruíram outros direitos.

Jewell, segundo a acusação, “se juntou, tendo ciência, à conspiração em que dirigentes e funcionários do UAW requisitariam, receberiam e aceitariam coisas de mais de 40 mil dólares de pessoas agindo segundo os interesses da FCA”, incluindo “viagens, hospedagens e refeições”.

Segundo os procuradores, esses pagamentos eram realizados através do Centro Nacional de Capacitação do UAW-Chrysler (NTC, na sigla em inglês), que recebeu entre 13 e 31 milhões de dólares da empresa todos os anos entre 2009 e 2015.

De acordo com a acusação, Jewell usou cartões de crédito do centro de capacitação para pagar uma refeição de 7.569 dólares em uma churrascaria em Palm Springs, na Califórnia, além de ter gasto mais de 8 mil dólares em um hotel com campo de golpe também em Palm Springs. Ele também autorizou outros dirigentes do UAW a gastar mais de 43.370 dólares em restaurantes de Palm Springs e Detroit. Jewell cobrou “dezenas de milhares” mais por festas em 2014 e 2015 no centro de capacitação de Warren, uma cidade próxima de Detroit.

Em processos anteriores, Jewell, que se aposentou de repente logo depois de ter sido realizada uma busca em sua casa por investigadores federais no final de 2017, foi identificado como “UAW-3”. Apesar de os nomes de “UAW-2” e “UAW-1” não terem sido divulgados na acusação, o cerco está se fechando ao redor do topo da organização. Alvos potenciais incluem o ex-presidente, Dennis Williams, os dirigentes do UAW-GM, Joe Ashton e Cindy Estrada, e o atual presidente do UAW, Gary Jones.

O que é revelado no escândalo não é apenas a corrupção pessoal de dirigentes sindicais altamente remunerados, mas a natureza do próprio UAW, que está envolvido em uma conspiração sistemática contra a classe trabalhadora. Relações corruptas entre a empresa e dirigentes do UAW são tão naturais, pois as duas organizações estão do mesmo lado. O UAW não é uma organização de trabalhadores, mas uma ferramenta corrupta da administração das empresas, que rebaixa os salários e funciona como uma força policial industrial.

O caráter atual do UAW é produto de um longo processo. Incapaz de reagir de qualquer forma progressiva ao declínio da indústria estadunidense e à globalização da produção, o nacionalista e pró-capitalista UAW abandonou qualquer resistência às empresas automotivas e, em nome de “combater a competição estrangeira”, tornou-se um parceiro das empresas no aumento da exploração dos trabalhadores automotivos.

Os programas de capacitação conjuntos foram primeiro estabelecidos no início dos anos 1980, quando o UAW rejeitou oficialmente a luta de classes e adotou a “coalizão capital-trabalho” como seu princípio orientador.

Já em 1984, a Liga dos Trabalhadores, a antecessora do Partido Socialista pela Igualdade, advertiu que a política de colaboração entre o sindicato e as empresas automotivas no contrato de 1984 “seria um grande passo em direção à transformação do UAW em um sindicato empresarial”. A declaração “Corporativismo e os Sindicatos” ainda dizia: “A política da burocracia é o corporativismo – isto é, uma doutrina que identifica os interesses dos trabalhadores com aqueles da administração, levando a um regime de colaboração ilimitado entre os burocratas e o estado capitalista para defender o sistema de lucro, não importando quão severas sejam as consequências para a classe trabalhadora”.

Na últimas quatro décadas, enquanto o número de membros do UAW caiu de 1,5 milhão para pouco mais de 430 mil desde 1979, e os trabalhadores tiveram seus salários e benefícios reduzidos, os ativos do UAW e seus vários negócios, incluindo o fundo de seguro de saúde para aposentados, cresceram para muitos bilhões de dólares.

Em 2015, os trabalhadores automotivos se rebelaram contra o UAW, com duas vezes mais trabalhadores da Fiat Chrysler inicialmente rejeitando o contrato fechado pelo odiado Jewell do que o aceitando. O Boletim do Trabalhador Automotivo do WSWS surgiu como o centro da oposição em 2015, fazendo representantes do UAW denunciá-lo como sendo um “agitador externo” espalhando “fake news”. O acordo entreguista final na FCA e outras empresas foi imposto através de uma combinação de ameaças e completa fraude.

Os trabalhadores sabem que o UAW está se preparando para realizar mais uma série de concessões nas negociações de contrato de 150 mil trabalhadores da GM, Ford e FCA de setembro. É por isso que os trabalhadores precisam começar agora a construir comitês de fábrica para preparar uma luta contra a conspiração do UAW e das empresas automotivas.

Em oposição ao nacionalismo do UAW contra os trabalhadores mexicanos e chineses, os trabalhadores automotivos precisam lutar pela união dos trabalhadores em toda a América, Europa, Ásia e África. O ataque contra os empregos realizado pela GM e Ford faz parte da reestruturação global da indústria automotiva, que exige uma reação global dos trabalhadores. A revolta dos trabalhadores de autopeças em Matamoros, no México, demonstra que esses trabalhadores não são os inimigos, mas os irmãos de classe dos trabalhadores automotivos estadunidenses e canadenses.

Ao se prepararem para o contra-ataque, os trabalhadores automotivos precisam ser advertidos. O Departamento de Justiça não está levando adiante esse caso para fortalecer os trabalhadores contra as empresas automotivas. Ao contrário, temendo uma revolta contra o UAW, o governo Trump pode estar querendo assumir o controle do UAW ou realizar alguma outra coisa parecida, incluindo tornar-se um árbitro obrigatório nas negociações entre os trabalhadores e as empresas, o que deixará os trabalhadores de mãos atadas. Trump já solicitou a reabertura imediata dos contratos para convencer a GM a reabrir a fábrica em Lordstown, no estado de Ohio, ou vendê-la para um novo proprietário. Essa proposta, que envolveria cortes em massa de salários e benefícios, foi comemorada pelo UAW.

Os trabalhadores automotivos de base devem afirmar sua própria posição. Um contra-ataque industrial com o objetivo de unir os trabalhadores automotivos com todos os trabalhadores de outras categorias precisa se combinar com um contra-ataque político independente dos partidos Democrata e Republicano. Isso significa lutar por um programa socialista, incluindo a transformação das gigantes empresas automotivas e bancos em empresas públicas de propriedade coletiva e democraticamente controlados pelos trabalhadores, administrados segundo a necessidade social, não o lucro privado.

Os trabalhadores automotivos sabem que a única publicação que tem dito a verdade sobre a natureza do UAW e sua conspiração contra a classe trabalhadora é o World Socialist Web Site. O Boletim do Trabalhador Automotivo do WSWS e o Partido Socialista pela Igualdade farão tudo que puderem para promover a auxiliar a criação de organizações independentes dos trabalhadores, os comitês de base.