A luta de classes e o socialismo são a única resposta à crise do Brexit

5 Abril 2019

Publicado originalmente em 1˚ de Abril de 2019

As expectativas sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) provocou a mais profunda crise de governo na história do pós-guerra do imperialismo britânico. Mas o grande perigo é que a classe trabalhadora não apenas esteja sendo impedida de intervir segundo seus próprios interesses, como também esteja sendo dividida contra si própria e subordinada politicamente a uma ou outra das facções pró-capitalistas de direita.

Depois de três tentativas fracassadas da Primeira-Ministra Theresa May de garantir a aprovação no Parlamento do acordo com a UE sobre as relações comerciais pós-Brexit, conversas em torno da disputa pela liderança do Partido Conservador estão agora sendo substituídas pela possibilidade de ser convocada uma nova eleição geral antecipada depois daquela realizada em 2017.

Se uma nova eleição for convocada, é esperado que os Conservadores percam o poder para o Partido Trabalhista, que tem cinco pontos percentuais de vantagem nas pesquisas de opinião e poderia formar um governo de minoria. Parlamentares favoráveis e contrários ao Brexit estão unidos contra essa possibilidade, temendo que ela faça a classe trabalhadora exigir o fim da austeridade, apesar do declarado objetivo de Jeremy Corbyn, líder dos Trabalhistas, de defender o “interesse nacional”.

Corbyn indicou que uma moção de desconfiança será proposta nesta semana se o acordo de May for rejeitado novamente. Isso coloca claramente à frente da classe trabalhadora importantes questões de perspectiva e liderança política.

Se a classe dominante conseguir resolver seu intenso conflito interno, isso acontecerá por Corbyn se recusar a honrar o mandato que recebeu em duas eleições para a liderança do partido: Acabar com décadas de austeridade, militarismo e guerras coloniais, começando pela expulsão da ala de direita blairista (uma referência ao ex-primeiro ministro Tony Blair) do Partido Trabalhista.

Os membros da base do partido que o elegeram, ao invés disso, foram submetidos a três anos de recuos políticos – incluindo sobre a permanência na OTAN, a continuidade do uso de armas nucleares e a insistência de Corbyn em impor os cortes exigidos pelos Conservadores sobre autoridades locais Trabalhistas –, além de seu consentimento à caça às bruxas contra a “esquerda” por acusações forjadas de antissemitismo.

Enquanto isso, o vice-líder do Partido Trabalhista, Tom Watson, deixou claro que os blairistas farão o que for necessário para impedir que o capital britânico seja politicamente desafiado. Ele disse ao “think tank” Prospect que estava pronto para juntar-se aos Conservadores pró-UE em um governo de “união nacional” dos dois partidos. Watson lidera um grupo de 80 parlamentares Trabalhistas chamado de “Future Britain” (Reino Unido do Futuro), que possui mais de um terço do Partido Trabalhista no Parlamento.

Os sindicatos também não oferecem qualquer alternativa para os trabalhadores, com o Secretário Geral do Congresso de Sindicatos, Frances O’Grady, e a Diretora Geral da Confederação da Indústria Britânica, Carolyn Fairbairn, publicando uma carta conjunta para May declarando que “Nosso país está enfrentando uma emergência nacional”, e exigindo um “Plano B”.

Existem razões genuínas e válidas que fazem os trabalhadores apoiarem o Brexit e que não refletem o racismo e nacionalismo incitados pela facção pró-Brexit da burguesia, como a hostilidade contra as políticas de austeridade da UE e esperança de que deixar a UE pode acabar com a devastação social realizada por sucessivos governos Trabalhistas e Conservadores. O mesmo vale para muitos que são contra o Brexit, que apoiam criticamente a UE, temem o impacto econômico do Brexit, repudiam o nacionalismo e as exigências para acabar com a imigração e o livre movimento de trabalhadores do qual muitos jovens dependem.

Sem uma alternativa socialista, mesmo se uma eleição geral fosse realizada, nada seria resolvido. Ela seria disputada quase exclusivamente ao redor da questão do apoio ou oposição ao Brexit, dividindo a classe trabalhadora e impedindo qualquer luta unificada contra o atual ataque sobre empregos, salários e condições sociais. Qualquer que fosse o lado vitorioso, as divisões políticas continuariam, e seções da classe dominante utilizariam a insatisfação popular para defender um estado forte e um governo autoritário.

A História oferece uma advertência.

O apoio de Watson pela formação de um governo nacional lembra a decisão tomada em 1931 pelo então líder Trabalhista, Ramsay MacDonald, de se unir aos Conservadores em um Governo Nacional. O preço pago pela classe trabalhadora foram milhões de desempregados e uma política de austeridade selvagem durante a faminta década de 1930, além do surgimento da União Britânica de Fascistas liderada por Oswald Mosley, um eco dos regimes fascistas da Alemanha e Itália.

O mesmo preço será hoje pago pelos trabalhadores pela traição tanto da direita quanto da esquerda do Partido Trabalhista.

Qualquer que seja a forma que a luta pela competitividade global assuma, dentro ou fora da UE, ela exige uma continuação do ataque selvagem contra as condições de vida dos trabalhadores. É por isso que o plano para a mobilização doméstica de 50 mil soldados no Reino Unido no caso de um Brexit “sem acordos” tem paralelo dentro da UE com a declaração do estado de emergência pelo presidente Emmanuel Macron e o destacamento do exército contra os “coletes amarelos” na França.

O Partido Socialista pela Igualdade (PSI) levou adiante uma perspectiva no referendo sobre o Brexit que articulava os interesses dos trabalhadores e da juventude não apenas no Reino Unido, mas em toda a Europa e ao redor do mundo, e que hoje oferece a única saída para a armadilha política “a favor ou contra o Brexit”.

Ao defender um boicote ativo no referendo, o PSI rejeitou tanto a perspectiva reacionária de desenvolvimento econômico nacional que estava no centro da agenda do Brexit quanto qualquer apoio à UE. Nós explicamos que aqueles contra e a favor do Brexit representavam forças capitalistas de direita unidas em sua hostilidade contra a classe trabalhadora, que discordam apenas se devem ou não perseguir os interesses estratégicos do imperialismo britânico dentro de um bloco de comércio europeu.

O PSI escreveu:

Um boicote prepara o desenvolvimento de uma luta política independente da classe trabalhadora contra essas forças. Tal movimento precisa se desenvolver como parte de um contra-ataque continental da classe trabalhadora, que irá expor o referendo como apenas um episódio da crise existencial cada vez mais profunda da burguesia britânica e europeia.

O Brexit é o produto da erupção de antagonismos inter-imperialistas, que encontrou a expressão mais clara na chegada de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos e sua invocação fascista dos “EUA Primeiro”. Essa é a manifestação mais avançada da ruptura da UE, que se confronta com uma guerra comercial, militarismo e o aprofundamento dos antagonismos de classe provocados por níveis sem precedentes de desigualdade social entre uma oligarquia super-rica e a massa de trabalhadores.

Em toda a Europa, a resposta dos governos à crise cada vez mais profunda do capitalismo mundial é mais austeridade, a incitação do nacionalismo e da xenofobia anti-imigrante e o cultivo da direita fascista. Mas a classe trabalhadora está começando a lutar em uma onda crescente de greves e protestos em toda a Europa, Argélia e Sudão, México, Estados Unidos, China e em todo o mundo. É em direção a esse movimento emergente da classe trabalhadora internacional que a classe trabalhadora britânica deve se voltar.

A resposta à crise do Brexit não é a união com a UE, mas a união de classe com os milhões de trabalhadores que estão iniciando sua luta contra os governos da Europa. Os trabalhadores precisam formar organizações de base de luta de classes, independentes dos Trabalhistas e da burocracia sindical, para derrubar os Conservadores e formar um governo dos trabalhadores como parte de uma luta continental pelos Estados Unidos Socialistas da Europa.

Chris Marsden