A eleição de Zelensky na Ucrânia e o caminho a seguir para a classe trabalhadora

Por Clara Weiss
29 Abril 2019

Publicado originalmente em 25 de Abril de 2019

O comediante Volodymyr Zelensky venceu a eleição presidencial ucraniana no domingo com mais de 73% dos votos, em um repúdio maciço ao presidente em exercício, Petro Poroshenko, e ao golpe de 2014 orquestrado pelo imperialismo que o levou ao poder.

Conhecido como o “rei do chocolate”, Poroshenko tornou-se presidente depois da operação de fevereiro de 2014 que derrubou o governo pró-russo de Viktor Yanukovich. Por trás do golpe estavam as principais potências imperialistas, sobretudo os EUA e a Alemanha. Com o apoio de setores da oligarquia ucraniana e da classe média alta, eles mobilizaram forças fascistas para instalar um regime fantoche que seria imediatamente subserviente a seus interesses econômicos e aos preparativos de guerra contra a Rússia.

A mídia burguesa saudou esse golpe liderado pelos fascistas como uma “revolução democrática”. Juntou-se a ela a esquerda de classe média, incluindo organizações como a agora extinta Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês), que sistematicamente trabalhou para minimizar o papel desempenhado pela extrema direita e o Departamento de Estado dos EUA na criação dessa “revolução”.

Os resultados do golpe de 2014 para a classe trabalhadora foram catastróficos. Nos últimos cinco anos, o regime de Poroshenko esteve na linha de frente da escalada militar imperialista contra a Rússia, com os gastos militares ucranianos aumentando para impressionantes 6% do PIB. A escalada sistemática das tensões com a Rússia pelo regime de Kiev, mais recentemente com sua provocação imprudente no Mar de Azov, tem aumentado drasticamente o perigo de uma guerra em larga escala na Europa, que poderia rapidamente se transformar em outra guerra mundial. A guerra civil em curso no leste da Ucrânia custou a vida de mais de 13.000 pessoas.

Ao mesmo tempo, a oligarquia ucraniana realizou os maiores ataques sobre os já baixos padrões de vida da classe trabalhadora ucraniana desde a restauração do capitalismo. Quase um milhão de ucranianos estão agora vivendo à beira da fome e dezenas de milhares congelam todo o inverno.

Para a implementação dessas políticas, o regime de Poroshenko mobilizou forças fascistas, como o notório batalhão Azov. A glorificação dos colaboradores nazistas do Exército Insurgente da Ucrânia (UPA) e da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN-B), que massacraram milhares de judeus, poloneses e ucranianos durante a Segunda Guerra Mundial, tornou-se uma política oficial de Estado. Referências ao comunismo e símbolos do Exército Vermelho Soviético, que derrotou os nazistas na guerra, foram criminalizados. Artistas russos e obras de arte foram proibidos de entrar no país.

Foram essas condições que levaram a grande maioria da população ucraniana a se abster na eleição – apenas 62% dos eleitores votaram – ou a votar em Zelensky. Poroshenko não conseguiu obter apoio significativo fora de uma pequena província no oeste da Ucrânia e no distrito de Kiev, onde residem os super-ricos do país.

No entanto, apesar de seus apelos aos sentimentos anti-guerra e a enorme raiva em relação à austeridade social durante a campanha, Zelensky defenderá os interesses da oligarquia ucraniana contra a classe trabalhadora e trabalhará em aliança com o imperialismo.

Ao longo de toda a campanha eleitoral, Zelensky deliberadamente ocultou sua verdadeira agenda política e econômica. Ao invés disso, ele realizou apelos demagógicos ao ódio generalizado a Poroshenko. Durante a campanha, Zelensky prometeu negociar diretamente com o presidente russo, Vladimir Putin, uma solução pacífica para a guerra no leste da Ucrânia. No entanto, em uma entrevista publicada dias antes da eleição, ele chamou Putin de “inimigo” e afirmou que era “perfeitamente bom e ótimo” que as pessoas considerassem o colaborador nazista Stepan Bandera um “herói”.

Em 12 de abril, Zelensky se reuniu com o presidente francês Emmanuel Macron. Sua equipe contratou uma empresa de relações públicas em Washington para marcar reuniões com funcionários do governo Trump e influentes figuras de “think tanks” dos EUA. Zelensky também mantém conexões estreitas com o oligarca Ihor Kolkomoisky, e agora procura trabalhar em conjunto com Mikheil Saakashvili, o ex-presidente da Geórgia, que chegou ao poder através de uma “revolução colorida” apoiada pelos EUA.

A enorme oposição da classe trabalhadora ao imperialismo e às políticas de austeridade e guerra da oligarquia encontrou apenas uma expressão inicial, altamente distorcida, na votação de Zelensky. No entanto, diante de um levante internacional da classe trabalhadora, essa oposição, mais cedo ou mais tarde, tomará a forma de uma aberta luta de classes.

Na França, centenas de milhares de “coletes amarelos” têm protestado contra a desigualdade social e o governo Macron há meses. No início deste ano, os trabalhadores de autopeças em Matamoros, no México, realizaram a maior greve da América do Norte em duas décadas. Nos Estados Unidos, o centro do imperialismo mundial, no ano passado 20 vezes mais trabalhadores entraram em greve do que em 2017. Na fronteira noroeste da Ucrânia, mais de 300.000 professores poloneses estão em greve contra o governo de direita do Partido Lei e Justiça (PiS).

O ressurgimento da luta de classes levanta questões fundamentais de perspectiva histórica e liderança. No desenrolar da crise política e militar na Ucrânia, os trabalhadores enfrentam o resultado da dissolução da União Soviética em 1991.

Para combater os perigos que enfrentam, os trabalhadores devem levar adiante um programa socialista. Mas isso só é possível pela assimilação das lições da Revolução de Outubro e da luta do movimento trotskista contra o stalinismo.

A Oposição de Esquerda, formada por Leon Trotsky em 1923, reconheceu no stalinismo e em seu programa de “socialismo em um só país” uma reação nacionalista contra o programa revolucionário internacionalista da revolução permanente que havia fundamentado a Revolução de Outubro. Nas décadas seguintes, as políticas nacionalistas-oportunistas do stalinismo fizeram com que as lutas revolucionárias da classe trabalhadora na Europa e na Ásia sofressem inúmeras traições e derrotas. Os crimes da burocracia stalinista culminaram no Grande Terror – que fisicamente exterminou os líderes da Revolução Russa e gerações inteiras de revolucionários socialistas – e no assassinato do próprio Leon Trotsky em 1940.

A Quarta Internacional, fundada por Trotsky em 1938, alertou que a burocracia stalinista, a menos que fosse derrubada por uma revolução política pela classe trabalhadora, acabaria destruindo a União Soviética, restaurando o capitalismo e se transformando em uma nova classe dominante. Isso foi exatamente o que aconteceu entre 1989 e 1991.

A oposição dentro da classe trabalhadora à burocracia explodiu no final dos anos 1980, quando um poderoso movimento em massa de trabalhadores se desenvolveu na Polônia. As lutas na Polônia ajudaram a encorajar uma grande greve de mineiros de carvão na União Soviética, que se concentrou na Sibéria e no leste da Ucrânia.

No entanto, décadas de stalinismo minaram severamente a consciência política e histórica da classe trabalhadora. A suposta equivalência da ditadura stalinista com o socialismo e o marxismo arrastou o programa da revolução socialista pela lama. Ao mesmo tempo, os pablistas, uma tendência revisionista que surgira na Quarta Internacional, oferecia uma camuflagem de “esquerda” para as políticas contrarrevolucionárias do stalinismo. Os pablistas intervieram nas greves dos trabalhadores, saudando a burocracia como uma força histórica progressista e seu programa de restauração capitalista como um processo de “auto-reforma”.

Isso possibilitou que a burocracia stalinista liquidasse a União Soviética, enriquecendo-se massivamente com a privatização dos recursos sociais através da restauração do capitalismo. O desastre social e político que se seguiu à restauração do capitalismo encontrou uma expressão particularmente aguda na Ucrânia, que desde então tem sido governada por uma oligarquia profundamente corrupta e ultranacionalista, continuamente manobrando entre as diferentes potências imperialistas.

Hoje, quando os trabalhadores estão novamente entrando em luta, devem se fundamentar nas lições dessas importantes experiências históricas. O caminho a seguir é a luta pela construção de um partido trotskista, ou seja, uma seção ucraniana do CIQI, para liderar as próximas batalhas da classe trabalhadora.