Minutos para o desastre: Lições do confronto com o Irã

26 Junho 2019

Publicado originalmente em 25 de Junho de 2019

Na noite de quinta-feira passada, as forças armadas dos Estados Unidos estiveram a dez minutos de lançar uma série de ataques aéreos e com mísseis contra o Irã, que poderiam ter desencadeado uma nova guerra em massa levando à morte de centenas de milhares de pessoas.

Os ataques foram cancelados no último instante, em meio a profundas divisões nos níveis mais altos da Casa Branca e do Pentágono sobre as consequências – militares, diplomáticas e políticas – do que provavelmente seria a ação mais perigosa e imprudente do governo Trump.

Enquanto a equipe de política externa de Trump – chefiada pelo Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, e pelo Secretário de Estado, Mike Pompeo – apoiava “unanimemente” o ataque, o general Joseph Dunford, chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, “advertiu sobre as possíveis repercussões de um ataque, alertando que isso poderia colocar em risco as forças estadunidenses”, escreveu o New York Times.

De acordo com o Wall Street Journal, Trump “mudou de ideia porque tinha dúvidas sobre as consequências militares e políticas”. Ou, como a Stratfor colocou, “Trump, temendo uma escalada muito maior, ficou com medo”.

Embora grande parte da discussão tenha se centrado na decisão de última hora do presidente dos EUA, o episódio inteiro ressalta a imprudência que permeia todos os aspectos da política externa estadunidense.

Desconsiderando a afirmação de Trump de que sua decisão de suspender o bombardeio foi motivada pela suposta perda de 150 vidas iranianas, é evidente que os Estados Unidos estiveram a poucos minutos de lançar uma guerra cujas consequências militares não foram seriamente examinadas.

A iniciativa planejada baseou-se, novamente, em erros de cálculo desastrosos, segundo os quais o Irã ficaria impotente enquanto as forças armadas dos EUA estivessem lançando outra onda de bombardeios.

Mas a derrubada, na quinta-feira passada, do RQ-4 Global Hawk, um drone espião de alta altitude de US$ 130 milhões, o pretexto nominal para o ataque planejado, claramente pegou as autoridades dos EUA de surpresa.

Como se constatou, a derrubada do drone pelo Irã convenceu, no último minuto, setores militares, e o próprio Trump, de que as consequências de seu ataque planejado ao Irã poderiam ser muito mais graves do que eles estavam esperando. Se eles ficaram surpresos com o que aconteceu, que outras surpresas poderiam ter ocorrido se a guerra tivesse começado?

A razão para a reversão da decisão, na verdade, foi o medo de que navios de guerra estadunidenses fossem afundados e de que aeronaves fossem derrubadas, colocando em dúvida o mito da invencibilidade militar dos EUA.

O drone espião estadunidense foi abatido por um sistema de defesa aérea Raad, um míssil terra-ar iraniano geralmente considerado de menor capacidade em comparação aos sistemas S-300 e S-400 de fabricação russa, também disponíveis para os militares iranianos.

A mensagem clara foi a de que o Teerã também é capaz de derrubar outras aeronaves, incluindo caças estadunidenses F-35, que Trump rotineiramente elogia como “invisíveis”, ou até mesmo o bombardeiro furtivo B-2 Spirit de US$ 2 bilhões.

O Irã recentemente implantou uma nova gama de mísseis anti-navio, que afirma possuírem a capacidade de afundar destroieres e porta-aviões dos EUA no Golfo de Omã e no Golfo Pérsico. “Cometam a menor estupidez, nós enviaremos esses navios para o fundo do mar, juntamente com sua tripulação e aviões”, alertou o general iraniano Morteza Qorbani à RT.

O porta-aviões USS Abraham Lincoln (Crédito: Marinha dos EUA)

Os ataques contra o Irã provavelmente seriam realizados pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln e seus navios de escolta, com pelo menos três destroieres e um cruzador. Mas sob essas condições, os militares dos EUA foram forçados a ver esses navios não apenas como ativos militares, mas como passivos. Quais seriam as consequências do Irã afundar um destroier de US$ 2 bilhões e matar uma parte considerável de seus quase 300 tripulantes?

Se o Irã afundasse o porta-aviões da classe Nimitz USS Abraham Lincoln, com 5.000 marinheiros e aviadores a bordo, as consequências seriam incalculáveis.

Como um ex-membro da Guarda Revolucionária do Irã disse ao Times, “o que aconteceu nas últimas 48 horas foi extremamente importante para mostrar a força do Irã e para forçar os EUA a recalcular... Não importa como você veja, o Irã venceu.”

Mas os iranianos seriam imprudentes de se gabar. Os Estados Unidos estiveram a poucos minutos de lançar uma guerra cujas consequências mal foram consideradas. Não há razão para acreditar que o próximo incidente não terá o resultado catastrófico que foi por pouco evitado desta vez – seja contra o Irã ou outro alvo. (Basta recordar que, depois de quase 250 soldados estadunidenses terem sido mortos nos atentados a bomba nos quartéis de Beirute, em 1983, o presidente dos Estados Unidos, Reagan, reagiu dois dias depois invadindo Granada.)

Todo o establishment da política externa dos EUA, mesmo que alguns estejam preparados para admitir que houve uma consideração insuficiente das consequências de um ataque ao Irã, estão profundamente frustrados com o resultado.

“O governo Trump deve responder a esses ataques recentes com ataques contra ativos de defesa aérea iranianos e dos houthis, sistemas de mísseis ofensivos e bases do Corpo da Guarda Revolucionária”, escreveu Michael G. Vickers, subsecretário de Defesa de Inteligência de Obama no Washington Post. Ele ainda acrescentou: “O fracasso em revidar só irá encorajá-los ainda mais.”

Martha Raddatz, apresentadora do programa This Week, da rede ABC, pressionou o deputado falcão de guerra do Texas, Mac Thornberry, ao perguntar a ele se “menos do que um ataque de retaliação militar” seria proporcional “depois da derrubada de um drone de US$ 130 milhões em um ataque não provocado?”

A imprudência das ameaças dos EUA contra o Irã só pode ser explicada pela enorme crise, global e doméstica, que enfrenta o capitalismo estadunidense.

Trump não faz mais do que dar a expressão mais grotesca aos impulsos maníacos do imperialismo estadunidense. Em um momento, ele está a poucos minutos de lançar um ataque com mísseis contra o Irã; em outro, ele fala sobre tornar “o Irã grande novamente”, e então ameaça “destruir” o país.

Esse nível de instabilidade não tem sua origem em um indivíduo. O próprio Trump é atacado por forças que ele nem sequer é intelectualmente capaz de entender.

Trinta anos de guerras intermináveis criaram um verdadeiro culto ao militarismo dentro da elite dominante estadunidense, cuja suposição predominante parece ser a de que guerras podem ser travadas sem consequências globais drásticas, inclusive para os próprios Estados Unidos.

Há paralelos com a imprudência que prevaleceu antes de 1914, para não mencionar o desespero que levou Hitler a lançar a Segunda Guerra Mundial, em 1939, e a invadir, há apenas 78 anos, a União Soviética.

Os Estados Unidos têm respondido todos os desastres da política externa – da invasão do Afeganistão e do Iraque ao bombardeio da Síria e da Líbia – preparando-se para guerras novas e maiores.

Não existe nenhum grupo ou instituição política dentro da elite governante dos EUA que faça oposição à guerra, ainda que catastrófica. O imperialismo estadunidense, como o World Socialist Web Site antecipou em 2003, tem um “encontro com o desastre”. Somente as ações da classe trabalhadora podem impedir que os capitalistas dos Estados Unidos, seus generais e seus espiões levem o resto da humanidade com eles.

Andre Damon