Grupo fascista comete atentado terrorista no Brasil

Por Tomas Castanheira
10 Janeiro 2020

Publicado originalmente em 8 de janeiro de 2020

No dia 24 de dezembro, a sede do Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, foi alvo de um ataque com coquetéis molotov após a produtora ter lançado um Especial de Natal no Netflix que retratava Jesus Cristo como gay. A ação terrorista foi reivindicada nas redes sociais por um grupo fascista que se intitula Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Família Integralista Brasileira.

A identidade de um dos autores do atentado foi divulgada pela polícia em 31 de dezembro, dois dias após ele ter embarcado para a Rússia. Eduardo Fauzi é membro da Frente Integralista Brasileira e do Partido Social Liberal (PSL), o mesmo partido de direita com o qual o fascista ex-capitão do exército Jair Bolsonaro se elegeu presidente. O governo Bolsonaro, que usa uma forte retórica denunciando qualquer forma de protesto social como “terrorismo”, deliberadamente se calou sobre o caso, sinalizando que as vias estão abertas às ações fascistas. O filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, foi um dos políticos que se manifestou contra o Porta dos Fundos, dizendo: “até onde vale a pena atacar a fé alheia?”.

Trecho do vídeo no qual os integralistas assumiram a responsabilidade pelo ataque ao Porta dos Fundos

O integralismo, reivindicado pelos autores do ataque, foi uma versão brasileira do fascismo, fundado em 1932 como Ação Integralista Brasileira (AIB) e que teve curta duração. Enquanto o presidente Getúlio Vargas inicialmente adotou o movimento fascista como base de apoio de seu Estado Novo, ao assumir poderes cada vez mais ditatoriais, ele se voltou contra a AIB. Ex-integralistas viriam a ocupar posições de poder na ditadura militar apoiada pelos EUA que governou o Brasil de 1964 a 1985.

Notavelmente, alguns dias antes do ataque no Rio de Janeiro, os dois principais jornais do país, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, noticiaram de forma acrítica o retorno do movimento integralista. O Estado cobriu uma manifestação realizada pela Frente Integralista Brasileira (FIB) no centro de São Paulo, com cerca de 15 pessoas vestindo o uniforme de camisas verdes, que era usado pelos integralistas na década de 30, e fazendo a saudação fascista. O jornal também noticiou que pretendem se lançar como força política nas próximas eleições.

Após a divulgação do vídeo assumindo o atentado, a FIB afirmou que “o grupo em questão é desconhecido” e se mostrou surpresa com a revelação de que o atentado fora realizado por Eduardo Fauzi, o presidente da organização no Rio de Janeiro. Os mesmos autores do vídeo já haviam assumido outro ataque, há um ano, quando arrancaram e queimaram bandeiras antifascistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nessa ocasião, Fauzi já reivindicara no Facebook que o ataque fora realizado por um “círculo integralista” interno à universidade.

Eduardo Fauzi é uma expressão da base social que dá origem às organizações fascistas. Filho de uma família de proprietários de imóveis e postos de gasolina, é formado em economia pela UFRJ e, segundo a revista Veja,vivia num apartamento de R$ 1,5 milhão no Rio de Janeiro. Fauzi é, ao mesmo tempo, presidente da Associação de Guardadores de Carros Autônomos de São Miguel, que supostamente representa os trabalhadores de um dos ofícios mais miseráveis exercidos nas cidades brasileiras. Por meio dessa Associação ele controlaria, na verdade, uma máfia de estacionamentos irregulares no centro do Rio de Janeiro ligada a milicianos e policiais, como apontou um relatório da Polícia Civil.

Fauzi escapou pela porta da frente do Aeroporto Internacional Tom Jobim. Isso não aconteceria não fosse seu contato direto com a polícia, que o informou do mandado de prisão com antecedência, como ele deixou claro em uma entrevista concedida na última sexta feira ao Projeto Colabora. Ele diz estar na Rússia, onde acredita que receberá asilo. Em uma foto, supostamente tirada em 2014, ele aparece ao lado do ideólogo fascista russo, Alexandr Dugin.

Eduardo Fauzi com Alexandr Dugin, em foto supostamente tirada em 2014

Os demais autores do atentado que, diferente de Fauzi, usavam máscaras, dificilmente serão identificados. É bastante provável que também possuam ligação com a polícia, ou que sejam eles mesmos policiais. Assim como o suspeito confesso é membro do PSL, é totalmente possível que os demais estejam envolvidos com o partido fascista de Bolsonaro que está em construção, o Aliança Pelo Brasil.

A reaparição de grupos integralistas na vida política brasileira é um acontecimento promovido diretamente pelo governo Bolsonaro e a classe dominante. Com apelo nacionalista, religioso e anticomunista, que reflete os discursos de Jair Bolsonaro, esses grupos estão começando a realizar ações violentas ilegais, ao mesmo tempo que ganham espaço nas instituições do Estado.

Após o atentado, um integralista subiu aos altos escalões do governo. Paulo Fernando Melo da Costa, deputado eleito pelo partido Patriota e que é nada menos do que o presidente da FIB no Distrito Federal, foi nomeado na segunda feira, 30 de dezembro, assessor especial da ministra Damares Alves, a líder evangélica que preside o ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Diante desses temerosos desenvolvimentos, a suposta oposição ao governo Bolsonaro permaneceu em silêncio. Lula e Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), não fizeram nenhuma menção ao atentado.

O PT soltou uma pequena nota, condenando a violência e reafirmando sua ligação histórica com a religião cristã. Assim como no passado assumiram os compromissos mais reacionários – como a defesa veemente de Dilma Rousseff contra o aborto – para manterem a base eleitoral evangélica, hoje evitam qualquer crítica que os identifique com o programa de humor por medo de ofender a direita cristã.

Em uma longa entrevista dada à rede de televisão TeleSur após o natal, Lula centrou seus ataques nas manifestações de massas ocorridas no Brasil em junho de 2013, durante o governo Dilma. Ele caracterizou os protestos como uma intervenção dos Estados Unidos realizada por meio da mídia. Os protestos foram, para Lula, a origem do sentimento de “ódio” que explica toda a situação política atual no país: o desemprego, rebaixamento salarial e perda de direitos dos trabalhadores. Em outras palavras, os trabalhadores tiveram o que mereceram por ousarem desafiar o governo do PT e suas políticas de austeridade.

Os meios de comunicação representantes do PT e de seus satélites exploraram da forma mais oportunista o atentado contra o Porta dos Fundos para promover sua campanha de difamação dos protestos de 2013. Assim que foi revelada a identidade do autor do atentado, trouxeram à tona um vídeo no qual a ativista Elisa Quadros, conhecida como Sinhinho, pedia a libertação de presos políticos, dentre os quais um certo Eduardo Fauzi. Sites como a Revista Fórum e o Brasil 247 reproduziram amplamente o vídeo, afirmando que, “Se Eduardo Fauzi citado pela Sininho for o mesmo, isso praticamente encerra o assunto sobre a natureza dos protestos de 2013.”

Cena do espacial de natal do Porta dos Fundos

Essa alegação é uma fraude. Fauzi de fato foi preso no ano de 2013, após ter agredido o ex-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro quando este fechou um estacionamento no centro da cidade. Contudo, não existe nenhum indício de ligação direta ou alguma articulação entre Fauzi e Elisa Quadros. A ativista, que adotou o codinome “Sininho” nos meios de comunicação digitais, foi apontada pela polícia militar como líder dos black blocs. Ela e outras 23 pessoas foram condenadas à prisão às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, servindo como bode expiatório para impedir os protestos durante o evento esportivo.

Ao tentar imputar um caráter fascista aos ativistas presos e a todo o movimento de 2013, que levou milhões de jovens às ruas contra o aumento do custo de vida, os petistas estão levando adiante as mesmas políticas que Bolsonaro. Bolsonaro aplaudiria a perseguição aos manifestantes como uma importante medida de combate ao “terrorismo”, assim como todas as medidas repressivas do PT contra os protestos, que utilizou o exército nas ruas e aprovou a Lei Antiterrorismo em 2016.

A guinada generalizada à direita da classe dominante está ligada diretamente ao ressurgimento da luta de classes em escala internacional. À medida que a desigualdade social se torna cada vez mais insustentável e a oposição social entre a juventude e os trabalhadores cresce, a classe dominante está acabando com as formas democráticas de governo. Nessa situação, não apenas os fascistas estão ascendendo às esferas de poder, como os partidos da ordem supostamente de esquerda, como o PT, estão se aproximando do programa da extrema direita.

Essa tendência foi explicitada no anúncio feito no final do ano pelo maoísta Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que já vem aplicando políticas de austeridade onde governa. O PCdoB afirmou que adotará um novo nome e uma nova marca, encobrindo a palavra “comunismo” de seu nome e adotando as cores da bandeira brasileira, ao invés do vermelho, com o objetivo de se confundir com o nacionalismo de Bolsonaro.

A construção de organizações fascistas, a promoção do nacionalismo e do militarismo – as principais tendências de reação política global – só podem ser enfrentadas por uma mobilização internacional da classe trabalhadora. A independência política e organizativa em relação aos partidos burgueses, assim como da pseudo-esquerda, é uma condição essencial para o avanço dos trabalhadores em sua luta contra o capitalismo.