Maracanã vira hospital de campanha enquanto elite brasileira cerra fileiras em torno de pacote para grandes empresas

Por Miguel Andrade
2 Abril 2020

Publicado originalmente em 1˚ de abril de 2020

Imagens chocantes de espaços públicos no Brasil sendo transformados em hospitais de campanha para pacientes com COVID-19 começaram a circular na semana passada, enquanto a classe dominante do país se volta cada vez mais aos militares, principalmente na pessoa do vice-presidente do país, general Hamilton Mourão, para neutralizar os crescentes conflitos entre os governos estaduais e o presidente Jair Bolsonaro em torno da crise da COVID-19.

Ontem, em meio à crescente demanda pelo fim do “caos” provocado pelo presidente fascista Bolsonaro ter negado a ameaça representada pelo novo coronavírus, o general Mourão publicou um tuíte ameaçador comemorando o golpe apoiado pelos EUA em 1964, que inaugurou um período de 21 anos de uma ditadura militar sanguinária. Segundo o vice-presidente, “Há 56 anos, as FA [Forças Armadas] intervieram na política nacional para enfrentar a desordem, subversão e corrupção que abalavam as instituições e assustavam a população”, afirmando também que no regime militar “iniciaram-se reformas que desenvolveram o Brasil”.

O crescente movimento para legitimar os odiados militares brasileiros como os “adultos na sala” durante a crise do coronavírus tem sido promovido com mais entusiasmo pelo suposto Partido dos Trabalhadores (PT). As visões desses setores foram resumidas por Afonso Benites, do El País, que escreveu em 26 de março que, “Isolado, Bolsonaro vê Exército, vice Mourão e 27 governadores marcarem distância na crise do coronavírus”, para escrever no dia seguinte que “Preocupada com reação de Bolsonaro ao coronavírus, cúpula militar acende alerta e sinaliza apoio a Mourão”.

Estádio do Maracanã

A declaração pró-golpe do vice-presidente aconteceu depois do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) anunciar, na última quinta-feira, que o estádio do Maracanã seria transformado em um hospital de campanha com 200 leitos de UTI. Em São Paulo, o Complexo do Anhembi, onde está localizado o Sambódromo, também receberá 300 leitos de UTI e outros 200 serão instalados no estádio do Pacaembu. A transformação desses espaços em hospitais de campanha acontece no momento em que a pandemia se espalha rapidamente pelo país.

O número oficial de mortos no Brasil chegou a 201 na terça-feira, um número seis vezes maior do que no início da pandemia em Wuhan, na China. O número oficial de casos chegou a 5.717. No entanto, muitas evidências sugerem que os números oficiais são uma subestimação grosseira da realidade. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), órgão federal independente que lidera a pesquisa epidemiológica no país, relatou um aumento de dez vezes na hospitalização de pacientes com sintomas respiratórios compatíveis com a COVID-19.

Os serviços funerários estão relatando diariamente dezenas de velórios de 10 minutos com o caixão fechado de pessoas suspeitas de terem morrido de COVID-19, mas que não foram testadas. Somente em São Paulo, onde há 1.500 casos e mais de 100 mortes confirmadas pela COVID-19, 12 mil testes aguardam o resultado. Apenas os pacientes doentes estão sendo testados.

A morte confirmada por COVID-19 do prefeito do PT da pequena cidade de São José do Divino, no Piauí, onde apenas duas dezenas de casos foram registrados, também levanta a possibilidade de um grande número de casos subestimados nas regiões mais pobres do Brasil. Um estudo recente da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres descobriu que 90% dos casos de COVID-19 no Brasil não são detectados, elevando o provável número total de casos a pelo menos 50.000.

Estádio do Pacaembu

Nesse cenário, o Banco Central do Brasil (BC) anunciou em 23 de março que injetaria R$ 1,2 trilhão em liquidez no sistema bancário, assumindo a liderança do Federal Reserve dos EUA. Nada menos que R$ 870 bilhões – 72% do total – destinam-se a garantias diretas de liquidez para os bancos. Alguns dias depois, na quinta-feira, 26 de março, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade um projeto de lei que estabelece o pagamento de R$ 600 por mês durante três meses a 60 milhões de trabalhadores informais e autônomos. Na segunda-feira, o projeto foi aprovado pelo Senado. No entanto, o valor do auxílio é muito aquém do proposto até por economistas ultraliberais, como o ex-presidente do BC, Armínio Fraga, que propôs o pagamento de um salário mínimo para 100 milhões de brasileiros. A proposta de Fraga foi apoiada pelo PT, que acabou votando no projeto de lei aprovado.

A despesa total projetada do que o PT chamou de “renda mínima universal” será de meros R$ 45 bilhões, apenas 6% do pacote total de R$ 780 bilhões. Também representa apenas 3% da operação de injeção de liquidez do BC, sobre a qual o Congresso não terá supervisão. Além disso, deixará de fora nada menos que 11 milhões de trabalhadores atualmente registrados nos programas de alívio da pobreza por meio do “registro unificado” nacional que funciona como base do Bolsa Família, o antigo principal programa de transferência de renda do PT.

O fato de o pacote de “renda mínima” ter sido aprovado por unanimidade, com o governo assumindo a liderança em aumentar o valor oferecido em R$ 100 nas últimas horas da votação e o PT elogiando-o como um marco e uma vitória histórica sobre o “neoliberalismo”, expõe o verdadeiro papel do Partido dos Trabalhadores.

As críticas do PT aos comentários enlouquecidos sobre o coronavírus feitos por Bolsonaro tentaram apresentar as ações do presidente fascista como uma aberração em uma ordem capitalista saudável. O partido chegou agora ao ponto de invocar até Donald Trump e Steve Bannon por “defenderem o isolamento social” e, portanto, serem mais “responsáveis” do que Bolsonaro diante da pandemia.

Representantes do PT atacaram Bolsonaro pela direita e do ponto de vista do nacionalismo por não impedir a venda de respiradores artificiais para a Itália e não bloquear a entrada de cidadãos dos EUA no momento em que o país se tornou o epicentro da pandemia global. A presidente do partido, Gleisi Hoffmann, em 23 de março – o dia do anúncio da operação de crédito de R$ 1,2 trilhão do BC – declarou que o Congresso brasileiro deveria se “espelhar” nas ações dos governos capitalistas na França, Reino Unido, Espanha, Alemanha e os EUA, que aprovaram resgates corporativos e financeiros semelhantes.

Quanto às declarações triunfantes dos ideólogos do PT de que a crise da COVID-19 “desmascarou o neoliberalismo” em todo o mundo, a saudação do enorme pacote de “flexibilização quantitativa” do governo Trump como algo que o Brasil deveria se “espelhar” fala muito sobre o caráter das críticas do PT ao “neoliberalismo”. Nas quatro décadas de existência, o partido nunca teve a intenção de denunciar o capitalismo, mas de defendê-lo.

Existem sinais cada vez mais claros no Brasil, como em todo o mundo, que os trabalhadores não aceitarão passivamente a opção de serem obrigados a voltar ao trabalho em condições inseguras, podendo levar o vírus para suas casas, ou morrerem de fome. Em uma demonstração notável de raiva de classe em todo o Brasil, trabalhadores hostilizaram carros de luxo desfilando no domingo contra as quarentenas nos estados e pedindo que as pessoas “voltassem ao trabalho”. Isso aconteceu depois de terem estourado greves contra condições inseguras de trabalho na indústria automotiva e em call centers em todo o país.

O PT e o pseudoesquerdista Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) veem esse movimento independente de classe com aberta hostilidade. Leonardo Attuch, editor-chefe do site porta-voz do PT, Brasil247, se utilizou de relatos isolados de veículos de direita sobre a insatisfação de caminhoneiros por causa da queda na renda e condições inseguras de trabalho para declarar, sem rodeios e sem nenhuma evidência, que uma greve de caminhoneiros seria parte do plano de Bolsonaro para um golpe. Essa calúnia reacionária é uma tentativa clara de envenenar a opinião pública contra ações em massa de caminhoneiros e outros setores e de justificar a repressão do estado.