Capitalismo contra ciência: Agitação de 36 horas em torno de vacina da Moderna e suas lições

23 Maio 2020

Publicado originalmente em 20 de maio de 2020

O anúncio de segunda-feira da empresa de biotecnologia sediada na cidade de Boston, Moderna, de que possuía resultados positivos do primeiro teste da vacina para a COVID-19 conduzido em humanos, foi recebido com uma onda de histeria e ostentação midiáticas.

As notícias do fim do dia começaram com o tratamento “revolucionário”, que foi chamado de “grande avanço”. A NBC News declarou que a descoberta estava “gerando uma onda de otimismo”. Em todos os lugares, da Fox News até a CNN e a PBS, as posições adotadas foram as mesmas.

Uma cura milagrosa havia sido supostamente encontrada e Wall Street entrou em euforia. Os mercados dispararam com a notícia, com um aumento de mais de 900 pontos na Dow Jones Industrial Average. As ações da Moderna subiram mais de 20 dólares.

Porém, em apenas 36 horas, essa campanha começou a desabar sob o seu próprio peso.

Ninguém havia prestado atenção ao fato de que as informações fornecidas pela Moderna eram muito limitadas, e que a fabricante havia bloqueado ou não possuía dados sobre os resultados da maioria dos participantes do minúsculo estudo.

Quando a publicação médica, STAT, publicou um relatório levantando as questões científicas mais elementares sobre a suposta vacina inovadora, as ações da Moderna caíram 10%, arrastando a Dow Jones Industrial Average para baixo.

Porém, isso não importou para Moncef Slaoui, o membro do conselho administrativo da Moderna escolhido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para chefiar o esforço de desenvolvimento de uma vacina em ritmo acelerado. Slaoui anunciou na sexta-feira que venderia suas ações da Moderna na segunda-feira, o que significa que ele ganhou US$ 2,4 milhões como resultado da campanha publicitária, mas não sofreu nenhuma perda quando surgiram perguntas sobre o estudo.

Em seu relatório, a STAT apontou que “vários especialistas em vacinas questionados pela STAT concluíram que, com base nas informações disponibilizadas pela empresa sediada em Cambridge, Massachussets, não há como saber o quão capaz - ou não - a vacina pode ser”.

A STAT notou que, apesar do envolvimento do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla em inglês) nos testes, a “NIAID não emitiu uma nota à imprensa na segunda-feira e se recusou a comentar sobre o anúncio da Moderna”.

Apesar de 45 pessoas terem recebido a vacina, a Moderna forneceu os resultados de apenas oito.

Além disso, a STAT escreveu:

O relatório de anticorpos neutralizantes em pacientes que foram vacinados é de exames de sangue feitos duas semanas depois que eles receberam sua segunda dose da vacina. Duas semanas. “Isso é muito cedo. Nós não sabemos se esses anticorpos são duráveis”, disse Anna Durbin, uma pesquisadora em vacinas da Universidade Johns Hopkins.

Na sua nota para a imprensa, a Moderna constatou que os níveis de anticorpos vistos naqueles que receberam a vacina “estavam em níveis iguais ou superiores aos vistos geralmente em soros convalescentes [amostras de sangue de pacientes que se recuperaram da COVID-19]”. Porém, a STAT apontou que “dos 175 pacientes estudados que se recuperaram da COVID-19, dez não possuíam anticorpos neutralizantes detectáveis”.

Durbin disse: “Eu pensei: Geralmente? O que isso significa?”

A STAT concluiu: “Sua pergunta, nesse momento, não pode ser respondida”.

Em condições de mortes em larga escala, desemprego em massa e ampla crise social causados pela pandemia de COVID-19, a promoção flagrantemente irresponsável da vacina da Moderna é mais uma demonstração do nível ilimitado de corrupção que permeia todos os aspectos do establishment político e da mídia

Para Wall Street e as empresas farmacêuticas, a pandemia é uma dádiva. Eles não receberam somente um resgate de US$ 6 trilhões, mas também vão ganhar bilhões de dólares vendendo tratamentos e vacinas potencialmente decisivos por preços altos para uma população assustada e doente. Para a classe dominante, o desenvolvimento de uma vacina não se trata de preservar vidas, mas de determinar quem ganhará a sua aposta no coronavírus.

Assim como a promoção da mídia da hidroxicloroquina e então do Remdesivir da empresa farmacêutica, Gilead, a promoção da vacina da Moderna segue um padrão conhecido.

A atenção da mídia em torno dos resultados da Moderna serve para criar a impressão de que uma cura milagrosa está muito próxima. O objetivo é de promover a campanha da classe dominante pelo retorno ao trabalho. Ela tem como objetivo promover um sentimento de que o coronavírus não é perigoso, e de que tudo está sob controle e que a vida pode “voltar ao normal”.

Entretanto, a experiência com testes de vacinas tem provado que os primeiros estudos promissores sofrem frequentemente vários retrocessos em estudos populacionais mais amplos. Apenas 10% dos medicamentos que atravessam a primeira fase das pesquisas serão eventualmente comercializados.

A vacina contra a dengue fabricada em 2015 pela empresa farmacêutica francesa, Sanofi, por exemplo, atravessou várias fases de seu estudo. A empresa foi criticada por descartar os sinais iniciais mostrando que aqueles que recebiam a vacina podiam desenvolver uma forma severa da doença. Essa condição é referida como um fortalecimento em função do anticorpo, que pode provocar uma situação onde a replicação da infecção viral é ampliada. Em 2017, o governo das Filipinas suspendeu o uso da vacina em meio a temores e revolta pública generalizadas em relação à sua segurança, após 800 mil crianças de escola terem sido vacinadas.

O desenvolvimento rápido de medicamentos que foram trazidos ao mercado prematuramente teve resultados catastróficos. A Talidomida, colocada pela primeira vez no mercado em 1957 na Alemanha Ocidental, foi promovida como um remédio de venda livre para a prevenção da ansiedade, insônia e enjôo matinal. Em 1961, ela foi reconhecida por causar severas deficiências congênitas. O Dietilestilbestrol (DES), uma pílula de estrogênio comercializada dos anos 1940 até os anos 1970 para impedir abortos e evitar problemas na gravidez, levou a propensão de uma forma rara de câncer vaginal em filhas nascidas de mulheres que usavam DES.

O Dr. Anthony Faucy, que é o chefe da NIAID no NIH, e também o conselheiro médico da Casa Branca, declarou sombriamente perante a Comissão de Saúde, Educação, Trabalho, e Pensões do senado dos EUA que uma vacina confiável e comprovada seria necessária para combater a pandemia. Porém, ele destacou que seriam necessários 12 a 18 meses, apesar da promessa de Trump e de seus assessores de que conseguiriam uma vacina até o final do ano.

A vacina precisa passar por vários testes cuidadosamente controlados antes que a sua eficácia e segurança possam ser garantidas. Milhões, senão bilhões, de pessoas teriam que ser inoculadas para combater a pandemia. Se os efeitos colaterias da vacina produzirem consequências mórbidas ou letais mesmo em uma fração de 1%, esses números chegarão aos centenas de milhares, ou até mesmo milhões de pessoas.

Além dos interesses mercenários e predatórios que ficaram claros na promoção na mídia da vacina da Moderna, toda a base do esforço dos EUA para desenvolver uma vacina para a COVID-19 tem sido dominada por interesses geopolíticos nacionalistas.

Um artigo recente na revista Science aponta que o programa de desenvolvimento da vacina pela administração Trump, chamado “Operação Warp Speed”, é basedo em “evadir a cooperação internacional - e quaisquer candidatos a uma vacina que venham da China”, e tem como objetivo desenvolver vacinas “reservadas para os estadunidenses”.

O artigo observa: “Apesar de a Warp Speed não ter descartado qualquer tipo de vacina, ela não considerará aquelas feitas na China, tal como a vacina inativada que, recentemente, mostrou proteger macacos do coronavírus, a primeira com essa capacidade”. A revista adiciona: “O objetivo principal da Warp Speed é proteger os Estados Unidos”.

Em outras palavras, os EUA estão determinados a dominar o mercado decisivo da vacina contra a COVID-19, impedindo a colaboração internacional que é crítica para qualquer resposta séria contra a doença.

Nessa semana, também foi realizada a 73ª Assembleia Mundial da Saúde anual, na qual os EUA procuraram culpar a China pela pandemia, mesmo enquanto o número de infecções se aproxima de cinco milhões e mais de 325 mil terem sucumbido ao vírus.

De acordo com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, “O acesso ao Acelerador da COVID-19 está unindo os esforços em muitas frentes para garantir que tenhamos terapias e vacinas seguras, efetivas e acessíveis no tempo mais curto possível. Essas ferramentas dão mais esperanças de superar a COVID-19, mas não porão fim à pandemia se não pudermos garantir acesso igualitário a elas. Nessas circunstâncias extraordinárias, nós precisamos usar o poder total da ciência, conseguir inovações que possam ser expandidas, utilizadas, e que beneficiem todos, em todos os lugares, ao mesmo tempo. Os modelos de mercado tradicionais não serão suficientes na escala necessária para cobrir todo o planeta”.

Porém, essas aspirações contrastam fortemente com a resposta dos governos capitalistas em todo o mundo, que abandonaram qualquer esforço de contenção da pandemia, mesmo enquanto procuram posicionar as grandes corporações para lucrar a partir dela.

A lição básica da agitação em torno da vacina da Moderna é que a luta contra a COVID-19 prosseguirá em duas frentes: a frente médica e a luta social e política contra o sistema capitalista.

Não pode haver contribuição maior para a busca de uma solução para a pandemia de COVID-19 do que a luta para pôr fim ao controle privado sobre a indústria farmacêutica, com o objetivo de garantir o bem-estar público e não o lucro.

Benjamin Mateus