Governo Bolsonaro tenta censurar número de casos e mortes por coronavírus no Brasil

Por Bryan Dyne
10 Junho 2020

Publicado originalmente em 8 de junho de 2020

O governo do presidente fascista brasileiro Jair Bolsonaro retirou no sábado os dados acumulados dos últimos meses sobre a pandemia do coronavírus no país. O site oficial da COVID-19 do Ministério da Saúde havia passado a mostrar apenas o número de mortes, casos e recuperações da doença nas últimas 24 horas, até que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, determinou que o governo voltasse a divulgar os dados acumulados.

Bolsonaro justificou no Twitter sua decisão inicial dizendo que os dados acumulados “não retratam o momento do país. Outras ações estão em curso para melhorar a notificação dos casos e confirmação diagnóstica”. O presidente brasileiro também zombou da imprensa do país, que utilizou os dados para informar sobre o grande aumento de casos e mortes, comentando: “Acabou matéria no Jornal Nacional”.

Depois de os dados acumulados terem sido retirados do site do Ministério da Saúde, havia pouco menos de 675.000 casos de coronavírus confirmados e quase 36.000 mortes no Brasil. O país é agora o segundo com mais casos no mundo, atrás apenas dos EUA, e o terceiro com mais mortes, atrás também dos EUA e do Reino Unido. Não está claro se as tendências que apontam uma piora da situação brasileira, baseadas na propagação objetiva da pandemia, irão se confirmar após a interferência de Bolsonaro no site.

Coveiros abriram no mês passado valas comuns no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus, para dar conta do aumento do número de mortes por coronavírus. (AP Photo/Felipe Dana)

O Brasil também é o líder mundial de novos casos e mortes por dia, que são consequências da aceleração da pandemia no país. Se o aumento exponencial da pandemia continuar, haverá um milhão de casos no Brasil em duas semanas. E como vários estudos têm mostrado, o número de casos reais no país, que ocupa o 130º lugar no mundo em número de testes per capita, é provavelmente 10 vezes maior do que o atualmente registrado.

O crescimento do número de pessoas infectadas no Brasil acontece em meio ao aumento de casos em outras partes do mundo. Em todo o mundo, há hoje mais de 7 milhões pessoas infectadas, um aumento de um milhão de casos em nove dias, e mais de 400 mil mortes. Focos de contágio da COVID-19 surgiram no México, Rússia, Chile, Peru e Paquistão, que se somaram aos epicentros já conhecidos da doença – Brasil, Europa Ocidental e Estados Unidos.

A censura aos dados do coronavírus no Brasil é uma continuação lógica da política de Bolsonaro em relação à pandemia desde os primeiros casos no país. Ele inicialmente minimizou os efeitos da COVID-19, que foi considerada pelo presidente brasileiro uma “gripezinha”, e substituiu especialistas médicos que discordavam dele por militares. Uma vez que o coronavírus começou a se espalhar pelo país, ele se colocou contra medidas de isolamento social para conter a disseminação do vírus e se lançou em tiradas contra governadores e prefeitos que não estão reabrindo suas economias tão rápido quanto ele exige.

O Brasil não é o único país a tomar tais medidas. Nos Estados Unidos, o responsável pelos dados do coronavírus na Flórida foi demitido por se recusar a manipular informações que sustentavam o plano de reabertura da economia do governador. Da mesma maneira, no Arizona, os pesquisadores envolvidos em modelos de projeção de casos de coronavírus no estado foram ordenados a “interromper” seu trabalho por autoridades estaduais depois que seus dados sugeriram que o lockdown deveria ser prorrogado por três semanas.

Na Geórgia, que foi um dos primeiros estados a reabrir a economia nos EUA, o Departamento de Saúde Pública publicou vários gráficos que mostraram uma tendência decrescente nos casos rearranjando as datas de seus dados. Na verdade, o número de novos casos confirmados diariamente no estado permaneceu relativamente constante desde a reabertura da economia, enquanto o número de novos casos no Arizona e na Flórida estão aumentando. O país como um todo tem agora mais de dois milhões de casos, incluindo mais de 1,1 milhão de casos ativos da doença, e pelo menos 112 mil mortes.

Apesar de países tentarem suprimir o número de casos de coronavírus, no entanto, até as contagens oficiais indicam que a doença está aumentando significativamente em todo o mundo. A Arábia Saudita juntou-se ontem ao grupo de países que têm mais de 100 mil casos, enquanto o Paquistão chegará a esse número hoje e o Canadá em pouco mais de uma semana.

Bangladesh, África do Sul, Qatar, Egito, Colômbia, Equador e Iraque também são países com altas taxas de novos casos. Depois de inicialmente ter sido duramente atingido pela pandemia e depois conseguir contê-la por várias semanas, o Irã também tem apresentado mais de 2.000 casos nos últimos dias. Peru e Chile também estão entre os países mais atingidos na América do Sul e do mundo, tanto em relação ao número total de casos quanto o de novos casos, enquanto o Peru em particular continua tendo uma alta taxa de mortalidade.

A explosão de casos na América do Sul fez com que o Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, comentasse na quarta-feira que “Estamos especialmente preocupados com a América Central e do Sul, onde muitos países estão testemunhando epidemias em aceleração”. De acordo com análises de cientistas da OMS, a região ainda não atingiu o pico do número de casos, o que pode ainda levar meses.

Os dois países que surgiram nas últimas semanas com altas taxas de casos de coronavírus são o México e a Índia. No México, o vice-secretário de Saúde, Hugo López-Gatell, pediu aos moradores que fiquem em casa para deter o aumento do número de casos no país. Ao mesmo tempo, o presidente Andrés Manuel López Obrador ordenou a abertura de setores significativos da economia, incluindo fabricantes de automóveis e peças.

Essas determinações têm desempenhado um papel significativo na atual crise de saúde pública no México. O país tem 113 mil casos confirmados e mais de 13 mil mortes. As autoridades de saúde observaram que, devido à falta de testes no país, o número real de casos é provavelmente de milhões.

A Índia enfrenta um problema semelhante. O governo do primeiro-ministro Narendra Modi ordenou o retorno dos trabalhadores a fábricas, lavouras e escritórios, mesmo com o aumento exponencial do número de casos no país. O vírus atingiu muitas megacidades da Índia e se espalhou de maneira descontrolada. Os casos conhecidos dobraram em apenas duas semanas, chegando a 257 mil, e provavelmente chegarão a um milhão até o final deste mês. E enquanto o número de mortos ainda está bem abaixo dos picos atingidos no Brasil e nos Estados Unidos, as autoridades de saúde estão preocupadas que o número de mortos dispare nos próximos dias.