EUA enviam três porta-aviões ao Pacífico contra China

Por Peter Symonds
18 Junho 2020

Publicado originalmente em 13 de junho de 2020

Pela primeira vez em três anos, a Marinha dos EUA enviou grupos de ataque de três porta-aviões para o Oceano Pacífico como parte de uma provocadora escalada militar contra a China. A mobilização dos porta-aviões reforça a mudança estratégica do Pentágono da chamada “guerra ao terror” para a competição entre grandes potências, aumentando o perigo de conflito entre países com armas nucleares.

Na quinta-feira, os porta-aviões movidos a energia nuclear e seus destroiers e cruzadores se lançaram ao mar em uma enorme demonstração de força. Embora não haja detalhes de seus movimentos e exercícios planejados, todos estarão operando no Oceano Pacífico Ocidental em águas estrategicamente sensíveis próximas ao território chinês.

Caças F/A Super Hornet estacionados sobre o porta-aviões USS Ronald Regan no Mar do Sul da China em 2018. (Crédito: AP Photo/Kin Cheung)

O USS Theodore Roosevelt, que foi estacionado em Guam após um grande surto de COVID-19, agora está operando em águas fora de Guam. O grupo de ataque do USS Nimitz deixou a costa oeste dos EUA no início desta semana, enquanto o USS Ronald Reagan, juntamente com seu grupo de batalha, deixou sua base no Japão e está atualmente operando no Mar das Filipinas.

Falando à Associated Press sobre as mobilizações dos porta-aviões, o Contra-Almirante Stephen Koehler, diretor de operações do Comando Indo-Pacífico dos EUA, referiu-se especificamente à China como o principal alvo. Ele acusou Pequim de construir lenta e metodicamente postos avançados militares no Mar do Sul da China e de colocar mísseis e sistemas de guerra eletrônica em suas ilhotas.

Koehler declarou que “a capacidade [dos EUA] de estar presente de maneira forte faz parte da competição... você tem que estar presente para ganhar quando está competindo”. Ele continuou: “Porta-aviões e grupos de ataque são símbolos fenomenais do poder naval dos EUA. Estou realmente muito entusiasmado por termos três deles no momento.”

O envio de três grupos de batalha de porta-aviões para águas próximas à China acontece em um momento em que a administração Trump inflamou deliberadamente as tensões com Pequim ao culpá-la pela pandemia de COVID-19. Sem nenhuma evidência, Trump acusou a China de encobrir o surto e deu crédito às teorias conspiratórias de extrema direita de que o vírus teve origem em um laboratório chinês.

Enquanto Trump está tentando desviar a atenção de sua própria negligência criminosa em relação à maneira que está lidando com a pandemia, utilizar a China de bode expiatório faz parte dos esforços agressivos de Washington que começaram com o “pivô para a Ásia” do presidente Obama para debilitar e combater Pequim. Os estrategistas dos EUA consideram a China como o principal obstáculo aos esforços do imperialismo estadunidense para interromper o seu declínio histórico e reafirmar a sua hegemonia global.

Sob o comando do presidente Obama, o Pentágono buscou “reequilibrar” sua posição no Indo-Pacífico ao estacionar 60% de seus ativos navais e aviões de guerra na região até 2020. Para efetivar essa estratégia, os EUA vêm reestruturando suas extensas bases no Japão, Coréia do Sul e Guam, estabelecendo acordos para utilizar bases em toda a região, inclusive na Austrália, Cingapura, Índia e Sri Lanka, e fortalecendo alianças militares e parcerias estratégicas.

No atual impasse com a China, a administração Trump tem incentivado o perigoso confronto da Índia com a China ao longo de sua controversa fronteira. Ambos os lados mobilizaram milhares de tropas que estão frente a frente em vários pontos ao longo de suas áreas montanhosas de fronteira. As duas potências regionais, ambas com armas nucleares, travaram uma guerra em 1962 e as disputas de fronteiras nunca foram resolvidas.

A mobilização de grupos de ataque de porta-aviões é apenas uma parte da escalada de forças militares dos EUA no Pacífico Ocidental. A Fox News noticiou esta semana que a Força Aérea dos EUA enviou bombardeiros nucelares B-1B Lancer para Guam no mês passado, que vêm conduzindo operações sobre o Mar do Sul da China. A Força Aérea também enviou drones Global Hawk de longo alcance e alta altitude para o Japão para realizar a vigilância no Pacífico Ocidental.

Sob o governo Trump, a Marinha dos EUA intensificou suas chamadas operações de “liberdade de navegação” que violam deliberadamente as águas territoriais reivindicadas pela China em torno de suas ilhotas no Mar do Sul da China. No final de abril, a Marinha dos EUA realizou duas operações no Mar do Sul da China no mesmo dia, seguidas de outra no dia 7 de maio. Em 28 de maio, o destroier de mísseis guiados USS Mustin passou dentro do limite territorial de 12 milhas náuticas da Ilha Woody, no Arquipélago Paracel, ocupado pela China há décadas.

A alegação de Washington de que se trata simplesmente de operações de “liberdade de navegação” é uma fraude. A Marinha dos EUA está determinada a manter uma presença no Mar do Sul da China que é fundamental para os planos de Batalha Ar-Mar do Pentágono para um ataque em massa às bases militares chinesas em caso de guerra. O Mar do Sul da China é próximo às sensíveis bases militares chinesas na Ilha de Hainan, inclusive para seus submarinos nucleares.

A Marinha dos EUA também aumentou sua movimentação no Estreito de Taiwan, que fica entre a costa chinesa e Taiwan, que a China reivindica como parte de seu território. Em 5 de junho, o destroier de mísseis guiados USS Russell passou pelo estreito – o segundo navio de guerra dos EUA a fazê-lo em três semanas e o sétimo este ano. A mídia estatal chinesa reagiu rotulando essa passagem como “outro movimento provocativo”.

Taiwan é outro ponto sensível da região que a administração Trump está deliberadamente inflamando. Apesar de não abdicar oficialmente sua política “de uma só China”, reconhecendo Pequim como o governo legítimo de toda a China, incluindo Taiwan, Trump tem fortalecido de forma constante as relações diplomáticas e estratégicas com Taipé. Ele tem apoiado a presidente taiwanês Tsai Ing-wen, cujo Partido Democrático Progressista defende um papel mais independente de Taiwan em relação à China.

Os envios dos três porta-aviões acontecem depois de uma outra etapa da escalada de tensões entre os EUA e a China. O Ministério da Defesa de Taiwan permitiu que um avião de carga da Marinha dos EUA fizesse um voo inédito através do espaço aéreo taiwanês de Okinawa para a Tailândia. Pequim respondeu condenando o incidente como “provocador”.

A perigosa escalada de tensões militares do governo Trump contra a China acontece em meio a uma crise global do capitalismo, exposta e intensificada pela pandemia de COVID-19. Como outros políticos capitalistas em todo o mundo, Trump não está apenas preparando uma guerra de classes contra a classe trabalhadora, mas está querendo forçar potências rivais a pagar um preço mais alto pela crise econômica.

A imprudente intervenção militar dos EUA em áreas de importância estratégica fundamental para a China ameaça dar início a um confronto entre os dois países, seja por acidente ou propositadamente, que poderia rapidamente levar a uma catastrófica guerra mundial.