Os 25 anos da morte de Ed Winn

Por Fred Mazelis
1 Julho 2020

Publicado originalmente em 26 de junho de 2020

Esta semana completam-se 25 anos da morte de Ed Winn, membro de longa data da Liga dos Trabalhadores, antecessora do Partido Socialista pela Igualdade nos EUA, e duas vezes candidato a presidente pela Liga dos Trabalhadores. Este obituário, homenageando a vida e o trabalho de Ed Winn, foi publicado no International Workers Bulletin, que antecedeu o World Socialist Web Site. Ele foi ligeiramente modificado para ser republicado.

Ed Winn, líder da Liga dos Trabalhadores (Workers League) e candidato do partido à presidência dos EUA em 1984 e 1988, morreu em Wilmington, Carolina do Norte, em 20 de junho de 1995. Ele tinha 58 anos de idade.

O camarada Winn sofria há alguns anos de doença renal e estava na fila de espera para um transplante de rim. Entretanto, sua morte aparentemente por um ataque cardíaco foi repentina e inesperada. É uma grande perda para a classe trabalhadora e para o movimento revolucionário.

Ed Winn

Por quase vinte anos, Ed Winn foi membro da Liga dos Trabalhadores e apoiador político da Quarta Internacional. Sua história de luta, como trabalhador dos transportes em Nova York e, sobretudo, como líder do movimento trotskista, está ligada às grandes questões políticas de nosso tempo.

Ed nasceu em 12 de fevereiro de 1937 em Wilmington, Carolina do Norte. Seu pai, Richard, era pedreiro, e sua mãe, Anna, dona de casa. Sua família, como milhões de outras, lutou para se manter durante um período de desemprego em massa e pobreza.

As leis de Jim Crow de apartheid racial foram amplamente implementadas na Carolina do Norte durante sua infância. A consciência política de Ed, ao crescer nos anos 1950, foi formada pela crescente luta pelos direitos civis. Ele lembrava das ameaças da polícia e dos racistas brancos e de todo o sistema de segregação: “os bebedouros separados criados para os brancos, as instalações públicas separadas que foram criadas pelas leis racistas dos estados do Sul, de Maryland, onde eu tinha parentes, até o Mississippi, onde visitei e fiquei por um tempo”.

Ed tinha 18 anos quando Emmett Till, um jovem negro de 14 anos, foi espancado e linchado pela Ku Klux Klan em Sumner, Mississippi, no outono de 1955. Till, um jovem de Chicago que estava visitando parentes, foi morto pelo “crime” de supostamente assobiar para uma mulher branca. Seus assassinos foram absolvidos.

Quando Ed Winn chegou a Nova York em 1958, ele já sabia muito sobre a luta pela igualdade de direitos. Ele logo descobriu sobre as lutas dos trabalhadores no local de trabalho. No final de 1965, ele foi contratado pelo Departamento de Transportes de Nova York, onde trabalhou durante os 22 anos seguintes.

Apenas alguns meses depois de começar a trabalhar nos transportes, Ed juntou-se a milhares de outros trabalhadores em uma greve militante que fechou o sistema de metrô e ônibus de Nova York. A greve dos transportes de 1966 fez parte das amargas lutas, entre elas a dos trabalhadores da indústria automotiva, a dos mineiros e a de trabalhadores de outros setores da indústria básica, que estourou quando o boom após a Segunda Guerra Mundial estava chegando ao fim. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes, Mike Quill, fundador do sindicato, foi forçado a chamar a greve e desafiar os políticos capitalistas e os tribunais. Quill, que sofria de uma grave doença cardíaca, teve um ataque cardíaco fatal depois de ser preso.

Ed Winn durante campanha eleitoral em 1984

A greve terminou com uma vitória para os trabalhadores dos transportes, embora os ganhos obtidos em salários e benefícios tenham sido em grande parte destruídos desde então por anos de contratos com empresas terceirizadas. Ed foi eleito representante sindical dos trabalhadores do pátio de manutenção do sistema de transportes de Nova York durante seu primeiro ano de trabalho.

Vários anos depois, Ed juntou-se a um grupo de oposição na Área 100 do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes, o Comitê de Base, que era dominado por uma perspectiva nacionalista negra. A oposição desafiou a liderança sindical de direita por motivos raciais, alegando que os ataques aos trabalhadores eram resultado de discriminação e defendendo que o crescente número de trabalhadores negros no sistema de transportes tornava possível uma “liderança negra” na Área 100.

Como Ed Winn explicou mais tarde, “Não entendíamos as questões de classe envolvidas, que os problemas que estavam se desenvolvendo nos locais de trabalho eram problemas que afetavam tanto os trabalhadores negros quanto os brancos, que estes eram problemas que afetavam a própria classe trabalhadora. Nossa visão nacionalista estreita nos impediu de unir trabalhadores negros e brancos para levar adiante uma luta comum contra aqueles – os banqueiros e empresários – que queriam colocar o peso da crise dos transportes nas costas dos trabalhadores.”

O Comitê de Base se desintegrou em 1972. Ed, juntamente com a maioria de seus outros apoiadores ativos, se afastou por um tempo da atividade política e sindical.

Em meados da década de 1970, o capitalismo mundial foi abalado por uma série de convulsões econômicas e políticas. Nos EUA, o escândalo do caso Watergate levou à renúncia de Richard Nixon, que foi seguida pela derrota do país na guerra do Vietnã. Em 1975, a cidade de Nova York se viu à beira da falência, e foi criado um Conselho de Controle Financeiro de Emergência para rasgar os contratos fechados com os sindicatos e forçar os trabalhadores da cidade a pagar pela crise.

Juntando-se à Liga dos Trabalhadores

Ed estava trabalhando no pátio de manutenção de ônibus no Leste de Nova York, no Brooklyn, quando entrou em contato com a Liga dos Trabalhadores. Ele soube da campanha do partido para defender Gary Tyler, um jovem que tinha sido acusado e preso na Louisiana por um crime que não havia cometido.

Tom Henehan, um jovem líder da Liga dos Trabalhadores e de seu movimento juvenil, os Jovens Socialistas, desempenhou um papel chave no recrutamento de Ed Winn para a Liga dos Trabalhadores.

Tom discutiu o panfleto da Liga dos Trabalhadores Nacionalismo Negro e Teoria Marxista com Ed, defendendo que a questão fundamental enfrentada por todos os setores dos trabalhadores era a luta de classes e não as lutas baseadas em raças. Tom também enfatizou a importância de se iniciar uma luta dentro do sindicato dos transportes o contra sua liderança pró-capitalista e de lutar para construir um partido dos trabalhadores com o objetivo de estabelecer um governo operário. [1]

Como resultado dessas discussões e de sua leitura do Bulletim, como o jornal da Liga dos Trabalhadores era então chamado, Ed se juntou à Liga dos Trabalhadores no início de 1976.

Mais tarde, ele disse que “o primeiro trabalho de Leon Trotsky que eu li foi Marxismo e os Sindicatos, no qual tratou da decadência econômica do capitalismo e da necessidade de transformar os sindicatos em organizações revolucionárias. Isso, por sua vez, significava substituir a liderança sindical reformista por uma liderança revolucionária. Ao mesmo tempo, Trotsky advertiu que os sindicatos não poderiam substituir o partido revolucionário: que a liderança revolucionária só poderia surgir através da construção de um partido treinado na visão de mundo marxista e em uma perspectiva científica.”

Uma das experiências políticas cruciais pelas quais Ed e outros membros da Liga dos Trabalhadores passaram veio menos de dois anos depois, quando Tom Henehan, então com 26 anos de idade, foi baleado e morto em um baile dos Jovens Socialistas em apoio a Gary Tyler em Bushwick, no Brooklyn.

Ed Winn discursando no evento em memória de Tom Hanehan em 1977

Junto com outros membros e apoiadores da Liga dos Trabalhadores, Ed Winn respondeu com firmeza a esse assassinato político, reunindo o apoio de milhares de trabalhadores dos transportes e de outras categorias em abaixo-assinados exigindo uma investigação do assassinato e medidas para levar os assassinos a julgamento. Após mais de três anos, os dois assassinos foram presos, julgados e condenados a penas máximas de prisão.

Em dezembro de 1977, Ed Winn foi eleito para a diretoria executiva da Área 100 do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes, representando mais de 1.000 trabalhadores da divisão de Manutenção do sindicato. Ele concorreu com um programa que exigia a construção de um partido dos trabalhadores e políticas socialistas. Ele foi reeleito em 1979.

Durante esses anos, Ed se tornou um militante marxista na classe trabalhadora. Quando os trabalhadores dos transportes entraram novamente em greve em 1980, ele fazia parte da diretoria executiva e lutou contra os movimentos da burocracia, então liderada por John Lawe, para isolar e trair a greve.

Ed lutou para que os trabalhadores dos transportes se voltassem para toda a classe trabalhadora contra o prefeito democrata Ed Koch, que atacou duramente o sindicato. No entanto, os outros opositores de Lawe na diretoria executiva da Área 100 se basearam simplesmente na militância sindical e ignoraram as questões políticas na luta contra a burocracia sindical. “Eles mesmos se recusaram a romper com o capitalista Partido Democrata e a desafiar o assim chamado direito de alguns banqueiros bilionários de impor cortes salariais, demissões e cortes nos serviços sociais”, declarou Ed. “Portanto, eles não poderiam oferecer nenhuma alternativa viável para a política capitulatória da liderança de Lawe.”

Candidato a presidente

A derrota dos trabalhadores dos transportes em 1980 antecipou a traição da luta dos controladores de voo um ano depois e as greves traídas e quebradas na década seguinte. A próxima etapa da atividade de Ed Winn como trabalhador dos transportes e líder da Liga dos Trabalhadores esteve ligada à luta contra essas traições. Em 1984, Ed solicitou e conseguiu uma licença no trabalho para concorrer como candidato à presidência dos EUA pela Liga dos Trabalhadores na primeira campanha eleitoral nacional do partido.

Esse foi um período de grandes cortes salariais, concessões, fechamento de fábricas e destruição de sindicatos. O assalto à classe trabalhadora foi realizado pelos partidos Democrata e Republicano. Jesse Jackson continuou sua própria campanha como democrata a fim de manter os trabalhadores vinculados a esse partido dos grandes negócios. Ed e a candidata a vice-presidente, Helen Halyard, participaram da eleição presidencial em seis estados industriais, recebendo 14.363 votos. Ele falou com milhares de trabalhadores em Nova Jersey, Pensilvânia, Ohio, Michigan, Illinois e Minnesota.

Ed Winn e Helen Halyard em campanha na fábrica da Ford de Rouge, em Dearborn, Michigan

Em 1988, Ed foi novamente o candidato à presidência dos EUA pela Liga dos Trabalhadores, tendo agora como candidato à vice-presidência Barry Porster. A campanha da Liga dos Trabalhadores expôs a deterioração das condições sociais de milhões após oito anos da presidência de Reagan e a enorme transferência de riqueza para os ricos, bem como a crise enfrentada pelo movimento dos trabalhadores.

A ofensiva contra os sindicatos, auxiliada e incentivada pela própria liderança da AFL-CIO, havia se aprofundado durante os anos 1980. A derrota da greve dos trabalhadores dos frigoríficos da Hormel Foods foi seguida por uma armação contra quatro mineiros de carvão envolvidos na greve de 1984-85 contra a A.T. Massey no Kentucky. Durante esse período, a filiação sindical continuou a cair rapidamente.

Um dos pontos altos da campanha de 1988 foi o discurso de Ed Winn diante de mil trabalhadores da indústria de papel e celulose e seus apoiadores em um comício em Lock Haven, Pensilvânia., marcando o primeiro aniversário da luta contra a International Paper. Naquele discurso, ouvido atentamente por trabalhadores enfrentando um lockout da empresa e grevistas de vários estados, Winn analisou as derrotas sofridas nos anos 80 e explicou suas razões.

“Ninguém pode afirmar”, concluiu ele, “que os trabalhadores dos EUA não queriam lutar contra a destruição corporativa dos sindicatos ou que eram fracos demais para derrotá-la. A fraqueza não está nas fileiras dos trabalhadores, mas na covardia e na traição dos burocratas. Com uma liderança revolucionária, uma liderança que luta por políticas socialistas e uma estratégia revolucionária, a classe trabalhadora pode derrotar seus inimigos e abrir um novo caminho para a sociedade, em todos os Estados Unidos e internacionalmente. Isso é o que eu peço que façam.”

Na eleição de 1988, os candidatos da Liga dos Trabalhadores concorreram em oito estados e no Distrito de Columbia. Ed Winn recebeu 18.662 votos.

A luta contra o oportunismo

O período entre as campanhas de 1984 e 1988 também testemunhou uma luta histórica contra o oportunismo dentro da Quarta Internacional. A Liga dos Trabalhadores e seus colaboradores ao redor do mundo derrotaram a liderança oportunista do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (WRP) do Reino Unido, que reagiu à prolongada degeneração do stalinismo, da socialdemocracia e da burocracia sindical abandonando a luta pela liderança revolucionária. A luta entre a maioria do Comitê Internacional e a liderança do WRP, que começou no início dos anos 80, culminou em um racha em 1985-86.

O último comício eleitoral da Liga dos Trabalhadores em 1984

Em 1984, Ed teve a oportunidade de testemunhar a degeneração do WRP, quando visitou o Reino Unido como o candidato presidencial dos trotskistas dos EUA. Em uma reunião pública, seus anfitriões o apresentaram simplesmente como um trabalhador dos transportes, omitindo qualquer menção à campanha eleitoral da Liga dos Trabalhadores. De fato, nesse momento, o WRP estava dando a Jesse Jackson uma cobertura favorável em sua imprensa.

Ed se aposentou de seu trabalho nos transportes a fim de dedicar-se totalmente à campanha eleitoral de 1988 e a outros trabalhos políticos. Logo após a campanha, no entanto, ele foi diagnosticado com doença renal policística, uma desordem hereditária que leva à perda progressiva da função renal. Ele começou a fazer hemodiálise e se preparou para um eventual transplante, o que lhe permitiria mais uma vez levar uma vida normal e ativa.

Durante esse período, Ed continuou a participar do trabalho político o máximo que pode. Ele se reuniu com seus colegas trabalhadores dos transportes, falou em reuniões públicas da Liga dos Trabalhadores e escreveu artigos e colunas para o Bulletim sobre a luta dos trabalhadores dos transportes, assim como sobre outros assuntos.

Em 1990 e 1991, Nova York foi palco de várias lutas amargas, incluindo as greves no jornal Daily News e na empresa de ônibus Greyhound. Em novembro de 1990, a polícia, com a colaboração de dirigentes do sindicato Newspaper Guild, prendeu Ed em um piquete no Daily News depois de ser acusado falsamente de desordem pública. Uma campanha da Liga dos Trabalhadores forçou o sindicato a sair em defesa de Ed, e as acusações contra ele foram retiradas.

Mesmo três anos após sua aposentadoria, Ed Winn continuava a suscitar medo dentro da burocracia do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes. Isso foi demonstrado em março de 1991, quando o presidente da Área 100, Sonny Hall, escreveu a Winn uma carta histérica e ameaçadora em resposta a uma coluna no Bulletim que expôs o suposto apoio de Hall aos grevistas do Daily News. Hall escreveu: “o que você ... queria era uma greve de massas, não para aumentar os salários, mas para derrubar o governo”. Na resposta de Winn, ele escreveu: “O que há de tão terrível nisso? Se é isso que é preciso fazer para defender os empregos e os padrões de vida dos trabalhadores dos transportes, então que assim seja!”

Ed sempre se orgulhou de sua colaboração com os camaradas internacionais no movimento trotskista na Europa, Ásia e Austrália. Em novembro de 1991, ele participou da delegação dos EUA na Conferência Mundial contra a Guerra Imperialista e o Colonialismo, realizada em Berlim, onde se encontrou com trabalhadores de muitas partes do mundo e participou de seus trabalhos.

O camarada Winn voltou para Wilmington em 1993 após a morte de seu pai e permaneceu na fila de espera para um transplante de rim. Ele continuou a participar da vida política da Liga dos Trabalhadores, encontrando-se com outros membros do partido e discutindo a situação política.

Ed deixou três filhos, Ed Jr., Adrienne e Debbie, e dez netos. Ele foi enterrado em Wilmington no dia 25 de junho. A Liga dos Trabalhadores anunciará em breve a data de um evento em sua memória a ser realizado na cidade de Nova York.

Qualquer pessoa que conheceu Ed Winn estaria disposta a atestar a sua integridade e honestidade. Ele foi amplamente respeitado por seus colegas de trabalho, mesmo aqueles que discordavam de suas opiniões políticas, e por seus vizinhos no Brooklyn. Um homem calmo e digno, ele se agitava quando questões fundamentais de princípio estavam em jogo. Ele teve um impacto intelectual e moral sobre aqueles que o conheceram.

O legado político de Ed deve ser colocado como um contraponto à degeneração e ao colapso das antigas lideranças da classe trabalhadora em todo o mundo.

Ele nunca hesitou em se dedicar às lutas dos trabalhadores, em confiar que um novo período de luta revolucionária se aproximava e de sua convicção científica da necessidade da transformação socialista da sociedade. É por isso que tantos trabalhadores vão aprender e honrar o seu exemplo.

Nota

[1] Durante esse período, a Liga dos Trabalhadores lutou pela construção de um Partido dos Trabalhadores, baseado em um programa socialista, como a forma política através da qual a classe trabalhadora dos EUA poderia estabelecer sua independência da política capitalista. A falência do programa nacionalista dos sindicatos, e sua degeneração em instrumentos diretos da elite financeira corporativa para policiar a classe trabalhadora, levou a Liga dos Trabalhadores a concluir em 1995 que a demanda para a formação de um Partido dos Trabalhadores não era mais viável. Para mais informações, leia: The Historical and International Foundations of the Socialist Equality Party-Part 11.

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Tom Henehan: A revolutionary life

[16 de outubro de 2017]

Por que os sindicatos são hostis ao socialismo?

[15 de junho de 2019]