Estados Unidos acusam Rússia de roubar pesquisas de vacinas

21 Julho 2020

Publicado originalmente em 18 de julho de 2020

A catástrofe global da COVID-19 está se agravando a cada hora, alimentada pelo impulso homicida do retorno ao trabalho de todos os maiores países capitalistas. O número de infectados está crescendo e chegando rapidamente aos 14 milhões. O número de mortes logo atingirá 600 mil. Nos Estados Unidos, o epicentro da pandemia, o número de infecções alcança novos recordes quase diariamente, as mortes estão aumentando, os testes foram interrompidos e os hospitais em muitas regiões estão em sua capacidade ou acima dela.

Entretanto, na sexta-feira, o New York Times escolheu publicar em sua primeira página um artigo acusando a inteligência russa de "conspirar para roubar" as pesquisas estadunidenses, britânicas e canadenses para obter uma vacina contra o coronavírus. O artigo descreve sem qualquer crítica as alegações conjuntas de agências de inteligência dos três países na quinta-feira, de que uma entidade sombria chamada APT29 procurou invadir os sistemas de computadores de empresas, organizações de pesquisa e agências governamentais ocidentais envolvidas no desenvolvimento de uma vacina para COVID-19.

O Wall Street Journal publicou sua edição de sexta-feira com uma promoção similarmente ausente de críticas das alegações dos EUA, Reino Unido e Canadá, apontando que os “esforços para desenvolver uma vacina se tornaram uma corrida armistícia internacional”.

Dmitry Peskov, o porta-voz do presidente russo, Vladimir Putin, disse a repórteres: “A Rússia não possui qualquer relação com essas tentativas”.

Assim como em campanhas anteriores contra a Rússia, incluindo a suposta manipulação das eleições dos EUA de 2016 por Moscou e a fabricação mais recente do New York Times de recompensas russas ao Talibã para matar tropas dos EUA, nem as agências de inteligência, nem o Times nem a mídia em geral apresentam qualquer evidência que sustente as suas declarações absurdas. Porém, os comunicados de inteligência são, mais uma vez, apresentados imediatamente pela mídia corporativa como fatos inquestionáveis.

A cobertura de primeira página do Times sobre supostos hackers russos contrasta a com sua resposta ao ataque desta semana no Twitter. O jornal adotou um resoluto silêncio ao noticiar que contas do Twitter de algumas das figuras e empresas mais importantes do mundo, incluindo Barack Obama, Joe Biden e Apple, foram comprometidas.

O ataque no Twitter levanta perguntas desconfortáveis sobre a capacidade das empresas de tecnologia de manipularem as contas dos usuários. Por essa e outras razões, o Times dá pouco espaço para essa enorme invasão, concentrando-se em uma outra que se alega ter ocorrido, sem um alvo ou momento específicos. O artigo sobre a suposta invasão russa nem sequer menciona as contas hackeadas no Twitter, dado que isso suscitaria a conclusão óbvia de que não é preciso um Estado-nação para realizar um ataque cibernético bem sucedido.

Como de costume, o Times cita em maior parte "autoridades" não identificadas ao descrever as supostas atividades do APT29, também chamado de "Cozy Bear". Ele observa que os funcionários do governo "não forneceriam as identidades das vítimas das invasões". Nenhuma data ou incidente específico de invasão é fornecido. Porém, o jornal cita Robert Hannigan, o antigo chefe da agência de inteligência britânica, GCHQ, dizendo que o "aparente" alvo principal era a Universidade de Oxford e a empresa britânico-sueca, AstraZeneca, que estão trabalhando em conjunto por uma vacina.

As notícias da mídia estadunidense reconhecem que não há evidências de que quaisquer dados tenham sido realmente roubados pelos supostos hackers e que nenhuma informação foi comprometida. O Times cita Hannigan, dizendo que os hackers não estavam procurando interromper a produção da vacina.

A Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA emitiu um anúncio ("APT29 visa o desenvolvimento de vacina para COVID-19") ainda mais frágil na quinta-feira. Em apenas três páginas e meia de texto, o documento declara, sem oferecer qualquer evidência, que o APT29 é "quase certamente" parte da inteligência russa. Em seguida, a agência declara que o grupo tem tido como alvo organizações envolvidas no desenvolvimento de vacinas nos EUA, Reino Unido e Canadá "ao longo de 2020", buscando "garantir uma entrada" nos sistemas de computadores através do uso de “malware”. Entretanto, a NSA não diz se o grupo foi bem sucedido.

As acusações infundadas de invasões em pesquisas sobre vacinas não se limitam à Rússia. Na semana passada, o diretor do FBI, Christopher Wray, disse que a China estava "trabalhando para prejudicar as organizações de saúde dos EUA" que estão conduzindo pesquisas sobre a COVID-19, uma acusação que foi repetida pelo Procurador-Geral, William Barr, em um discurso em Michigan na quinta-feira.

O que está por trás dessas acusações fabricadas contra a Rússia e a China?

Há uma feroz luta global entre corporações e nações concorrentes pela primeira patente de uma vacina contra o coronavírus. Em jogo estão bilhões de dólares para os CEOs de empresas, investidores e banqueiros, e uma imensa vantagem geopolítica para o país que ganhar a corrida da vacina.

Em um artigo de 27 de maio sobre o que foi chamado de "nacionalismo de vacina", o Wall Street Journal escreveu:

As empresas farmacêuticas estão se preparando para proibições de exportação de futuras vacinas contra o coronavírus, e espalhando a sua produção por diferentes continentes, dados os primeiros sinais de uma luta geopolítica de alto risco para garantir recursos a um avanço científico que pode entregar enorme poder econômico e político...

Uma vacina contra o coronavírus seria um prêmio colossal para o primeiro país capaz de fabricá-la em larga escala, um triunfo civilizacional comparável ao pouso na Lua. Ela permitiria ao vencedor ressuscitar a sua economia meses antes dos outras e selecionar quais aliados receberiam carregamentos em seguida, centrando a recuperação global em sua produção médica.

Os Estados Unidos estão seguindo abertamente um curso nacionalista, com o objetivo enriquecer os oligarcas estadunidenses e empregar a vacina não como um meio de salvar vidas, mas como uma arma contra os países alvos do imperialismo dos EUA. Esses incluem, em primeira instância, a China e a Rússia, mas também Irã, Venezuela, Coréia do Norte, Cuba e outros. A elite dominante estadunidense pretende, além disso, utilizar uma vacina para adquirir uma vantagem contra seus "aliados" europeus, particularmente a Alemanha.

Washington impedirá o acesso à vacina por países considerados obstáculos à sua campanha pela hegemonia global e recompensará aqueles que se alinharem aos seus planos de guerra e conquista com o acesso ao medicamento decisivo.

Como a revista Science escreveu em maio, o programa de desenvolvimento de vacinas "Warp Speed" da administração Trump se baseia em "evitar a cooperação internacional - e quaisquer potenciais vacinas da China", e visa desenvolver vacinas "reservadas para estadunidenses".

A classe dominante dos EUA está cada vez mais preocupada com a possibilidade de estar perdendo a corrida pela vacina. A Organização Mundial da Saúde informa que mais de 160 vacinas estão sendo desenvolvidas e 23 já começaram os testes clínicos em humanos. A Rússia está desenvolvendo 26 vacinas, duas das quais estão passando por testes clínicos. Oito das potenciais vacinas em vários estágios de testes em humanos estão sendo desenvolvidas na China, o maior número de todos os países. A empresa estatal chinesa, Sinopharm, e outra empresa chinesa já anunciaram que estão entrando nos testes finais.

O Washington Post publicou um artigo na quinta-feira, no mesmo dia da declaração conjunta contra a Rússia dos EUA, Reino Unido e Canadá, noticiando o progresso no programa de vacinas da China. Anteriormente, o Times publicou um artigo sobre a China que dizia: "Por algumas medidas, [a China] está ganhando a corrida, com quatro empresas já testando seus medicamentos candidatos a vacinas em humanos".

Na quinta-feira, a Reuters também publicou um artigo noticiando que a Rússia planeja produzir 30 milhões de doses de uma vacina contra COVID-19 experimental domesticamente este ano, com potencial para fabricar outras 170 milhões no exterior. O jornal citou Kirill Dmitriev, o diretor do fundo soberano russo, dizendo: "Acreditamos que, com base nos resultados atuais, ela será aprovada na Rússia em agosto e em alguns outros países em setembro... tornando-a possivelmente a primeira vacina a ser aprovada no mundo".

O imperialismo estadunidense não está preparado em quaisquer circunstâncias para permitir que a Rússia ou a China dominem o mercado global de uma vacina para COVID-19. Ele está procurando antecipadamente criminalizar os seus esforços, muito possivelmente como um prelúdio para proibir a importação de tal vacina para os EUA e potências menores dependentes dela, tais como o Reino Unido e o Canadá.

Em relação ao desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus, o Diretor Geral da OMS Tedros Adhanom Ghebreyesus disse a repórteres no mês passado: "Não deveria haver uma divisão entre aqueles que têm e aqueles que não têm". Porém, a situação real, determinada pelos interesses de classe dos oligarcas capitalistas que dominam o mundo, é precisamente a oposta. Os EUA, em particular, estão procurando utilizar o controle de uma vacina para COVID-19 como uma arma.

As vidas das pessoas não são levadas em consideração pela oligarquia financeira dos Estados Unidos. Suas únicas preocupações são os lucros das corporações dos EUA e o domínio do imperialismo estadunidense.

Em uma sociedade racional e humana, a questão do sigilo no desenvolvimento de uma vacina decisiva, ainda mais em meio a uma pandemia mortal, nem sequer surgiria. Todas as questões de ganho pessoal ou vantagem nacional estariam completamente subordinadas a um esforço coordenado globalmente, utilizando os ganhos revolucionários na ciência e tecnologia e o conhecimento de especialistas em cada país, para conter e, em última instância, erradicar o vírus e fornecer os cuidados médicos e o apoio social necessários para todos aqueles afetados física e economicamente.

Porém, isso é impossível dentro da estrutura do capitalismo. A obscena perversão do esforço pelo desenvolvimento e fornecimento de uma vacina por conta de sua subordinação à ganância empresarial e à campanha pela dominação geopolítica expõe a falência do capitalismo. O progresso humano e a própria vida são incompatíveis com um sistema baseado na acumulação de riqueza pessoal por uma elite empresarial-financeira e a divisão do mundo em Estados-nação rivais.

A luta contra a pandemia é a luta, liderada pela classe trabalhadora internacional, para expropriar e derrubar os parasitas capitalistas e estabelecer o socialismo mundial.

Barry Grey