Sindicato prepara acordão para encerrar greve na Renault do Brasil

Por Tomas Castanheira
8 Agosto 2020

A greve de 18 dias na Renault de São José dos Pinhais, Paraná, contra a demissão de 747 trabalhadores, está sob ameaça de ser encerrado em um acordão entre o sindicato e a empresa.

O movimento que envolveu milhares de trabalhadores e seus familiares em assembleias, piquetes e protestos de rua pode acabar em negociações que legitimam o corte dos postos de trabalho.

Na quarta-feira, uma decisão da Justiça do Trabalho do Paraná declarou as demissões na Renault ilegais por terem sido feitas fora de negociação com o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC) e determinou a reintegração imediata dos demitidos.

As centrais sindicais e partidos da pseudoesquerda celebraram essa decisão como uma vitória aos trabalhadores da Renault. Enquanto isso, o SMC se apressava em marcar uma nova rodada de negociações com a empresa para chegar a um "acordo entre as partes, independente do que seja o acordo", nas palavras do presidente do sindicato Sérgio Butka.

"Temos uma reunião marcada [na sexta-feira] para … discutir um meio termo, que seja importante para a empresa, importante para os trabalhadores, importante para o Paraná", afirmou Butka. "Vamos voltar para a mesa de negociação, vamos discutir PDV (Plano de Demissão Voluntária), vamos discutir PLR (Participação nos Lucros e Resultados), vamos discutir competitividade".

As condições que o sindicato diz estar negociando não são um "meio termo", mas os termos da empresa apresentados de forma adoçada para serem vendidos aos trabalhadores como uma "conquista". Seu objetivo é quebrar a resistência que cresceu ao longo dos últimos 18 dias.

Em um vídeo gravado durante um piquete, na sexta-feira da semana passada, os operários demonstraram sua disposição de enfrentar até a violenta repressão policial para defender a greve.

"A polícia está aí. Estão somente esperando para descer o sarrafo nos trabalhadores, todo mundo lesionado, machucado", narra o trabalhador filmando. "Vamos ficar gravando para ver que horas eles vão partir para cima do trabalhador… Não é o sindicato que está travando o portão, são os trabalhadores".

Um dos principais combustíveis para a revolta dos trabalhadores foi as condições em que ocorreram as demissões, mirando funcionários afastados por doença ou lesões adquiridas no trabalho.

A esposa de um dos demitidos, que é parte de um grupo de mulheres que apoia ativamente a greve, contou ao World Socialist Web Site que os trabalhadores sentem ter sido usados e depois descartados pela Renault.

"[Meu marido] tem lesões nos dois joelhos, nos dois ombros, no tornozelo direito, cotovelo direito e duas lesões na coluna. Ele sempre foi saudável, adquiriu todas as lesões trabalhando lá. Agora até para conseguir dormir tem que tomar medicamentos.

"O sentimento é que a empresa aproveitou o momento frágil dessa pandemia para fazer essa crueldade. Mas a população no geral entendeu isso como errado e a votação dos trabalhadores foi 100 por cento favorável à greve."

Muitos dos demitidos estavam afastados com suspeitas de COVID-19. "É muito triste porque vários estavam em casa aguardando resultados, então os positivos à COVID podem ser maiores do que sabemos", ela disse.

Ela acrescentou que, apesar das contaminações entre os trabalhadores, a fábrica continuou operando normalmente até o início da greve. "Pelo fato do número de pessoas ser grande, o contágio é inevitável. Vários setores [na fábrica] estão com casos suspeitos. Os trabalhadores ficam com medo pelas famílias que estão em casa, porém têm que ir trabalhar e acabam se expondo."

Incapaz de contornar a imensa oposição que se ergueu, não apenas pelos demitidos, mas por seus mais de 7.000 companheiros de trabalho, o sindicato tenta desviá-la para atender aos interesses da empresa.

"Vocês estão em greve em função da forma como os 747 saíram da fábrica, sem nenhum respeito, sem nenhum cuidado com os direitos humanos", declarou a porta-voz do sindicato em sua live da última quarta-feira. "É claro, há uma prerrogativa da empresa que nos contrata de nos demitir, desde que seja feito de forma humana. Existe uma forma de ser feito".

Os empregos que a Renault quer destruir são empregos que não voltarão mais. Independente do bônus que seja oferecido a cada demitido, eles serão somados ao exército de desempregados, no qual metade dos brasileiros já está alistada, e que cresce rapidamente em todo do mundo.

Expondo claramente os fundamentos da política do SMC, um dos diretores do sindicato declarou à assembleia na porta de fábrica na quinta-feira: "Nós precisamos da Renault. A Renault é uma grande montadora, uma grande marca e nós queremos a Renault no Brasil… Não somos contra o capital, não somos contra o empresário".

A obsessão declarada do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba é garantir a "produtividade" e "competitividade" das empresas em que atua. Tais interesses não só não correspondem aos dos trabalhadores, como são destrutivos em relação a eles.

Ao longo dos últimos dez anos, a Renault bateu recordes de vendas no Brasil, saltando de uma participação no mercado nacional de 4,8%, em 2010, a mais de 10%, em 2019. Tais conquistas, que o SMC chama de suas, foram obtidas, de um lado, através da superexploração dos trabalhadores nas linhas de produção, expressa no grande número de lesionados. De outro, se devem aos substanciais incentivos estatais concedidos à Renault através do programa "Paraná Competitivo", que desvia dinheiro público de serviços necessários à classe trabalhadora para os cofres de acionistas bilionários.

Para a Renault continuar, diz o SMC aos trabalhadores, ela precisa de mais: novos incentivos governamentais e novas concessões da parte deles, o corte dos empregos, ou "alternativas que a empresa pode utilizar antes de demitir simplesmente".

A crise enfrentada pelos trabalhadores da Renault hoje reflete a transformação da natureza dos sindicatos nas últimas décadas, associada à globalização do processo de produção capitalista.

O desenvolvimento revolucionário das tecnologias de informação e transporte permitiu a empresas como a Renault-Nissan se estabelecerem como corporações transnacionais, operando através de cadeias globais interconectadas, explorando a força de trabalho através das fronteiras nacionais.

Sob essas condições, os sindicatos deixaram de ser organizações que defendem minimamente os interesses da classe trabalhadora. Na economia globalizada, os sindicatos nacionalistas lutam para atrair as corporações transnacionais a seus países ou regiões, oferecendo para isso condições mais competitivas, isto é, mão de obra mais barata.

Os trabalhadores precisam tirar as conclusões necessárias e adotar um programa adequado às condições objetivas.

Os ataques aos trabalhadores no Paraná são apenas uma parte de um plano global da Renault-Nissan de destruição de empregos em todos os países em que atua. Após receber um resgate de 5 bilhões de euros do governo francês, a Renault anunciou planos de acabar com 15.000 empregos mundialmente, 4.600 deles na França. E a Nissan declarou intenções de cortar 20.000 empregos.

Diferente dos sindicatos, a classe trabalhadora não se divide por interesses nacionais. Contra os planos de reestruturação mundial das corporações transnacionais, os trabalhadores precisam avançar uma estratégia de combate internacional. Devem se unir a seus companheiros nos demais países para lutar pela manutenção de todos os empregos, salários dignos e condições seguras de trabalho durante a pandemia.

Os trabalhadores da Renault do Brasil foram assediados por supostos "sindicatos internacionais", como o Industriall e o United Auto Workers (UAW), fingindo representar um apoio internacional a sua luta. Essas organizações, fugindo de revoltas explosivas da classe operária a milhares de quilômetros de distância, possuem ligações diretas a Estados imperialistas da Europa e dos Estados Unidos.

A unificação global da classe trabalhadora não ocorrerá através dessas organizações; ao contrário. Elas vieram ao Brasil enquanto agentes policiais do capitalismo transnacional, tentando conter a explosão da luta de classes internacional.

Os trabalhadores precisam criar novas organizações com independência política, comitês de fábrica eleitos pela base. Através deles, poderão apelar diretamente a seus companheiros internacionais, fazendo ampla utilização das redes sociais e da internet.

O Comitê Internacional da Quarta Internacional, que publica o World Socialist Web Site, é a única força comprometida com o desenvolvimento de uma estratégia para essa luta internacional, com a perspectiva de transferir o poder político para as mãos da classe trabalhadora.

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