Resolução do Congresso do SEP (EUA)

A pandemia global, a luta de classes e as tarefas do Partido Socialista pela Igualdade

18 Agosto 2020

Publicado originalmente em 1˚ de agosto de 2020

Esta resolução foi aprovada por unanimidade pelos membros do Partido Socialista pela Igualdade nos Estados Unidos em seu Sexto Congresso Nacional, que foi realizado online de 19 a 24 de julho de 2020.

1. A pandemia de COVID-19 é um evento desencadeador na história mundial que está acelerando a já muito avançada crise econômica, social e política do sistema capitalista mundial. Ela está criando condições para uma imensa intensificação da luta de classes em escala internacional. A classe trabalhadora está diante de uma crise para a qual não há solução progressista fora de uma luta revolucionária contra o capitalismo, que leve à conquista do poder do Estado, ao estabelecimento do controle democrático pela classe trabalhadora sobre a economia, à substituição da anarquia do mercado pelo planejamento científico, ao fim do sistema de Estado-nação e à construção de uma sociedade socialista global dedicada à igualdade, à eliminação da pobreza e de todas as formas de opressão e discriminação, ao aumento massivo do padrão de vida e do nível de cultura social e à proteção do meio ambiente.

2. Ao definir a pandemia como um “evento desencadeador”, o World Socialist Web Site a comparou com o assassinato do arquiduque austríaco Franz Ferdinand em 28 de junho de 1914, que iniciou uma cadeia de eventos que culminou com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. “Se o assassinato não tivesse ocorrido”, escreveu o WSWS, “talvez a guerra não tivesse começado em agosto. Mas, mais cedo ou mais tarde, talvez no inverno de 1914 ou no ano seguinte, as contradições econômicas e geopolíticas do capitalismo europeu e global e do imperialismo levariam a uma conflagração militar. O assassinato acelerou o processo histórico, mas agiu sobre condições socioeconômicas e políticas preexistentes altamente inflamáveis.” [1]

3. Embora as condições específicas que geraram o novo coronavírus tenham um caráter acidental e contingente, a resposta à pandemia tem sido determinada pelas condições preexistentes da crise capitalista e pelos interesses da classe dominante. A classe capitalista manteve e intensificou as mesmas políticas sociais e relações econômicas parasitárias adotadas no período anterior.

4. Quando a Primeira Guerra Mundial começou, todos os países em guerra consideravam que ela terminaria relativamente rápido. Entretanto, o conflito se arrastou ano após ano, porque as elites capitalistas dominantes, que determinavam a política governamental, consideravam o sacrifício da vida de milhões de trabalhadores um custo aceitável para alcançar seus interesses geoestratégicos no conflito. Foi necessária a intervenção da classe trabalhadora – através da Revolução Russa de 1917 e de uma onda de lutas revolucionárias por toda a Europa – para forçar o fim da carnificina. Na situação atual, os maiores obstáculos para implementar uma resposta efetiva contra a pandemia são os interesses econômicos e geoestratégicos da classe capitalista, que se beneficiou com a crise. Os mercados acionários dos EUA e do mundo continuam a subir – e agora mais uma vez estão se aproximando de níveis recordes – juntamente com o número de casos e mortes. O retorno imprudente ao trabalho no final de maio – antes que o controle efetivo sobre a propagação do vírus que fosse alcançado – foi ditado inteiramente pela necessidade da elite empresarial-financeira de retomar a exploração desenfreada da classe trabalhadora para gerar lucros.

5. A situação é crítica. A pandemia está saindo de controle. Em meados de julho, mais de 13 milhões de pessoas foram infectadas em todo o mundo. O número de mortos é de quase 700.000. Os novos casos estão em níveis recorde, e o vírus está se propagando rapidamente por toda a América Latina, Oriente Médio e sul da Ásia.

6. O epicentro da pandemia está nos Estados Unidos. Mais de 4,5 milhões de pessoas foram infectadas, ou mais de uma em cada 100 pessoas no país. Há mais de 70.000 casos novos por dia. Os hospitais na Flórida, Texas e Arizona estão com a lotação completa ou superlotados, e os enfermeiros estão ficando sem equipamentos de proteção. No final do verão, o número oficial de mortos será de 250.000 a 350.000 – mais do que o dobro dos estadunidenses mortos em combate na Primeira Guerra Mundial, na Guerra do Vietnã e na Guerra da Coréia juntas.

7. Junto com a propagação da pandemia, há uma crise social cada vez maior. Em todo o mundo, as Nações Unidas estimam que mais 265 milhões de pessoas correm o risco de morrer de fome em consequência da pandemia. A Organização Internacional do Trabalho prevê uma perda de renda para os trabalhadores de até 3,4 trilhões de dólares. Nos Estados Unidos, dezenas de milhões permanecem desempregados, apesar do fim das medidas de isolamento social, e 100.000 pequenas empresas fecharam permanentemente.

8. A resposta catastrófica, desorganizada e desumana dos EUA à pandemia expôs não apenas a incompetência e o caráter criminoso da administração Trump, mas também a falência política e moral do capitalismo estadunidense e de sua elite dominante, cuja fisionomia social foi moldada pelo crescimento mais extremo e verdadeiramente criminoso de “todo um sistema de fraude e trapaça por meio da promoção corporativa, emissão de ações e especulação de ações”. [2] A partir disso, e em uma escala que até Marx dificilmente poderia ter imaginado possível, a classe dominante tem realizado, nos últimos 40 anos, uma política de transferência da riqueza da classe trabalhadora para os ricos.

9. A inflação maciça do mercado acionário através da especulação e da financeirização produziu níveis sem precedentes de desigualdade social, em que três indivíduos detêm mais riqueza do a metade mais pobre da população.

10. “Quanto tempo vai demorar até que a pandemia seja controlada?” Essa é uma pergunta que está sendo feita por bilhões de pessoas. A resposta comum é que a pandemia vai continuar até que uma vacina eficaz seja desenvolvida. Esta resposta fatalista baseia-se na premissa de que a crise da COVID-19 é quase exclusivamente um problema médico. O que fica de fora são as dimensões sociais e políticas da luta contra a pandemia. Assim como a revolta da classe trabalhadora foi necessária para acabar com a Primeira Guerra Mundial, a intervenção consciente da classe trabalhadora, em uma luta contra o capitalismo, é necessária para criar as condições para uma resposta social eficaz à doença. Mesmo que uma vacinação seja desenvolvida num futuro próximo, e mesmo que ela proporcione imunidade de longo prazo, o que ainda não está confirmado, sua distribuição estará sujeita aos interesses de lucro das corporações e aos conflitos geoestratégicos entre as grandes potências capitalistas. Além disso, a prevenção da pandemia não levará ao fim da crise social e econômica. Como aconteceu após a Primeira Guerra Mundial, a pandemia deixará cicatrizes profundas e terá consequências duradouras. Não se conseguirá voltar às condições existentes antes da pandemia, mesmo que já fossem tão difíceis quanto de fato eram. A crise econômica, social e política se desenvolverá a partir das condições criadas pela pandemia. O alcance e a intensidade da luta de classes não diminuirão, mas aumentarão.

11. Ao justificar a imprudente reabertura da economia, a imprensa capitalista proclamou: “A cura [o fechamento] não deve ser pior do que a doença”. Na realidade, a pandemia é um sintoma. A doença é o capitalismo. O tratamento necessário é a luta de classes internacional. A cura é o socialismo.

12. Para entender a situação atual e traçar um rumo para o futuro, é necessário rever como a crise se desenvolveu no país que se tornou o centro global da pandemia, os Estados Unidos.

Dezembro de 2019 – 27 de março de 2020: o início da pandemia, a omissão de informações e o resgate da elite empresarial-financeira

13. A primeira etapa começou com o surto inicial do vírus na China, em dezembro de 2019, e sua transmissão internacional através da Europa e para a América do Norte, e durou até 27 de março de 2020, quando o presidente Donald Trump assinou a chamada Lei CARES. Foi durante esses meses críticos que a administração Trump e os líderes do Congresso de ambos os partidos capitalistas – atuando sob as ordens da elite corporativa-financeira – tomaram as decisões socialmente catastróficas, que priorizaram o resgate dos bancos, das grandes corporações e dos poderosos investidores de Wall Street, em detrimento de impedir a propagação da pandemia e salvar vidas.

14. No início de janeiro de 2020, os epidemiologistas qualificados da Organização Mundial da Saúde e dos Centros de Controle de Doenças perceberam que o coronavírus tinha o potencial de se transformar em um grande desastre de saúde global. As experiências anteriores com os surtos de gripe suína e ebola haviam oferecido à comunidade médica dados que deixaram poucas dúvidas sobre as consequências de uma pandemia. Já em 2005, a especialista em pandemia Laurie Garrett alertou, em um artigo publicado na revista Foreign Affairs, sobre os perigos apresentados pela gripe aviária H5N1:

Se o vírus em constante evolução se tornar transmissível de humano para humano, se desenvolver um poder de contágio típico das gripes humanas e mantiver sua extraordinária virulência, a humanidade poderá enfrentar uma pandemia diferente de qualquer outra jamais vista. [3]

Garrett forneceu uma descrição assustadora das consequências, nos EUA e no mundo, de uma pandemia viral transmissível de humano para humano. Os Estados Unidos, escreveu, “poderiam estar olhando para 16 milhões de mortes e custos econômicos inimagináveis”. [4] Ela continuou:

O mundo inteiro experimentaria níveis similares de carnificina viral, e aquelas áreas devastadas pelo HIV e lares de milhões de indivíduos imunocomprometidos poderiam testemunhar um número ainda maior de mortes. Em resposta, alguns países poderiam impor quarentenas inúteis, mas altamente perturbadoras, ou fechar fronteiras e aeroportos, talvez por meses. Tais fechamentos interromperiam o comércio, as viagens e a produtividade. Sem dúvida, as bolsas de valores do mundo iriam balançar e talvez cair rapidamente. [5]

15. Claramente, o governo dos Estados Unidos e suas agências de coleta de informações compreenderam nos primeiros dias de 2020 – e, muito provavelmente, na segunda quinzena de dezembro – que o mundo estava à beira de um desastre no setor da saúde. Qualquer que fosse o calendário preciso da coleta de informações dos Estados Unidos, os relatos do perigo começaram a vazar para a imprensa global em janeiro. O World Socialist Web Site fez um relato detalhado sobre o coronavírus pela primeira vez em 24 de janeiro de 2020. Apenas quatro dias depois, o WSWS explicou:

Enquanto os governos do mundo, particularmente os Estados Unidos, fizeram planos meticulosos para uma guerra em larga escala durante os últimos 25 anos, nenhum desses recursos ou previsão foram dedicados a combater epidemias que assolaram o planeta durante o mesmo período. [6]

16. Apesar do extremo perigo à saúde representado pela propagação da pandemia, a classe dominante estava concentrada quase exclusivamente no impacto econômico de uma pandemia, ou seja, em como a doença afetaria o mercado de ações e a riqueza pessoal daquela camada entre o 1% e os 5% mais ricos da sociedade. A oligarquia capitalista temia, acima de tudo, que o reconhecimento público incontestável do perigo pudesse levar a um pânico financeiro, fazendo com que os mercados “fossem perturbados e talvez caíssem rapidamente”.

17. Suas preocupações não foram infundadas. O Federal Reserve Bank (Banco Central) dos EUA havia respondido ao histórico colapso financeiro de 2008-2009 inundando bancos e empresas de investimento de Wall Street com centenas de bilhões de dólares. A crise de 2008-2009 foi em si mesma o resultado de uma prolongada decadência do capitalismo, que encontrou sua expressão mais nociva no processo conhecido como financeirização, ou seja, a separação cada vez maior entre a acumulação de riqueza da elite corporativa-financeira e o processo de produção. Esse resgate financeiro sem precedentes, conhecido como “flexibilização quantitativa”, havia proporcionado à elite financeira corporativa empréstimos com juros ultrabaixos – “dinheiro grátis” – que foram usados para operações de “recompra” de ações que inflacionavam o valor das ações e outros ativos especulativos.

18. Mesmo antes da pandemia, estava ficando cada vez mais claro que os EUA e a economia mundial estavam mergulhados em uma montanha de dívidas (capital fictício), cujo volume excedia muito a capacidade produtiva e geradora de lucro da economia real. A propagação da pandemia ameaçava o fechamento da economia que cortaria o fluxo de receitas necessárias para o pagamento de enormes níveis de dívida. Como explicou o Bank of International Settlements (Banco de Compensações Internacionais), em um relatório publicado em abril de 2020:

O impacto da COVID-19 está colocando enormes pressões sobre os amortecedores de caixa corporativos. As declarações financeiras corporativas de 2019 sugerem que 50% das empresas não têm caixa suficiente para cobrir os custos totais do serviço durante o próximo ano. [7]

19. O relatório continuou:

Nenhuma outra recessão nos tempos modernos atingiu tanto o setor empresarial quanto o impacto da COVID-19. As empresas estão agora enfrentando quedas sem precedentes nas receitas à medida que são impostos lockdowns em todo o país para garantir a saúde pública. A capacidade das empresas de resistir a essas circunstâncias excepcionais determinará se a recessão causada pela COVID-19 deixará uma cicatriz duradoura na atividade econômica através da falência generalizada de empresas. [8]

20. Nesta situação, os interesses financeiros da elite empresarial-financeira eram incompatíveis e contrários a todas as medidas de saúde pública que restringiam o fluxo de receitas. Enquanto um socorro corporativo-financeiro maciço estava sendo preparado nos bastidores, entre janeiro e março, a administração Trump afirmou repetidamente que a pandemia desapareceria milagrosamente, com pouco impacto sobre vidas. Os governos estaduais e federal, controlados tanto pelos democratas quanto pelos republicanos, recusaram-se a tomar qualquer medida para fechar a produção não essencial.

21. Em 28 de fevereiro, o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) publicou uma declaração fazendo um chamado para uma “resposta de emergência coordenada globalmente” contra a pandemia. Com o número de casos chegando aos 100.000 (em comparação com os mais de 12 milhões hoje), o CIQI alertou que “o perigo não pode ser subestimado”. A declaração exigia uma mobilização internacional de cientistas para desenvolver contramedidas para conter, curar e finalmente erradicar o vírus; uma alocação maciça de recursos para o cuidado e tratamento da saúde; e a redistribuição da riqueza para apoiar todos aqueles afetados pelo vírus. [9]

22. O WSWS definiu a paralisia deliberada dos governos como “negligência maligna”. [10] A atitude de indiferença dos governos em relação ao vírus foi condicionada pela preocupação com seu impacto sobre os mercados. A classe dominante estava bem ciente de que as consequências econômicas para as empresas exigiriam um socorro muito superior ao que foi proporcionado após a crise de 2008.

23. Ao invés de tomar medidas para deter o vírus e salvar vidas, a classe dominante usou os meses de fevereiro e março para preparar e implementar um resgate multitrilionário de Wall Street. A escala da intervenção atestou o desespero da situação econômica. Entre 19 de fevereiro e 23 de março, quando já era impossível esconder do público o perigo representado pela pandemia, o índice S&P 500 perdeu um terço de seu valor. Em oposição à política da classe dominante de “negligência maligna”, a classe trabalhadora começou a tomar medidas para se proteger contra a pandemia. Foram realizados protestos e paralisações de trabalhadores da Instacart, Amazon e Whole Foods. Os trabalhadores da indústria automotiva nos Estados Unidos e no Canadá realizaram uma série de paralisações selvagens, que coincidiram com uma onda de greves e protestos na Europa. Artigos publicados no WSWS e declarações do Partido Socialista pela Igualdade (SEP, na sigla em inglês), incluindo a declaração de 14 de março, “Fechar a indústria automotiva para deter a propagação do coronavírus!”, foram lidos e compartilhados por dezenas de milhares de trabalhadores. Em função da crescente pressão da classe trabalhadora e com o projeto de lei de resgate ainda sendo elaborado, os governos federal, estaduais e municipais foram obrigados a adotar um lockdown da economia.

25. No final de março, o Congresso aprovou, com uma votação quase unânime, a Lei CARES, que deu centenas de bilhões de dólares às corporações e sancionou o resgate multitrilionário de Wall Street pelo Federal Reserve dos EUA. Em questão de semanas, o balanço do Fed cresceu de 4 trilhões de dólares para mais de 7 trilhões de dólares à medida que comprava ativos e dívidas de bancos e grandes corporações.

26. A aprovação da Lei CARES encerrou a primeira etapa da crise. Em carta de 28 de março a Nick Beams, membro do Partido Socialista pela Igualdade da Austrália, o presidente nacional do SEP (EUA), David North, avaliou os eventos dos primeiros três meses de 2020 no contexto da crise histórica do sistema capitalista.

Não é de surpreender que a imprensa burguesa tenha atribuído a queda espantosa nos mercados globais inteiramente à pandemia. Mas isto não é suficiente. Antes que o coronavírus começasse a se espalhar, era evidente que o aumento selvagem dos valores das ações havia assumido um caráter maligno, alimentado pela disponibilidade ilimitada de financiamento de QE [flexibilização quantitativa] e pelo rebaixamento das taxas de juros, sem precedentes na história, feito pelo Fed e pelos bancos centrais na Europa. Surgiu até mesmo o fenômeno das taxas de juros negativas. A montanha de capital fictício tornou possível os inúmeros artifícios empregados pela classe dominante para impulsionar ações cada vez mais altas (como a recompra de ações) e enriquecer-se a si mesma.

A característica mais marcante da liquidação financeira nas últimas três semanas (não obstante o “pulo do gato morto” de três dias) foi sua velocidade surpreendente. As ações sofreram uma desvalorização de trilhões de dólares em questão de dias – mais rápido do que qualquer outra desvalorização na história moderna. A velocidade do colapso foi determinada pelo caráter irreal da milagrosa elevação dos valores das ações, realizada anteriormente. Isso foi o que levou imediatamente a exigências histéricas de um resgate multitrilionário. A aprovação do resgate – com algumas migalhas para conter uma explosão social por alguns meses – é a continuação, em uma nova e ainda mais gigantesca escala, da criação de capital fictício, ou seja, da criação de valor independente da produção. A burguesia sabe muito bem que este gigantesco esquema econômico de Ponzi não pode durar. E, por essa razão, a pandemia se torna um problema real. Uma coisa é expandir os níveis de endividamento quando a produção está caminhando. Outra bem diferente é fazê-lo quando a produção está estagnando em todo o globo. A disparidade entre a expansão da dívida e o declínio maciço da produção de valor através do processo de trabalho (em todas as formas em que ele se manifesta) não pode ser ocultada. E isso dá origem às exigências de Trump e dos oligarcas capitalistas para uma rápida volta ao trabalho. “A cura para a pandemia não pode ser pior do que a doença.”

Estamos nos aproximando de uma fase crítica da crise histórica do capitalismo. Diante da falência em função do colapso provocado pela pandemia, a classe dominante está exigindo que seu Estado coloque à sua disposição trilhões de dólares para evitar a falência. Ao mesmo tempo, ela se prepara para empregar o mesmo Estado para lançar, assim que tiver concluído os preparativos políticos e logísticos necessários, um ataque implacável à classe trabalhadora.

28 de março – 31 de maio de 2020: a campanha de retorno ao trabalho e os protestos contra a violência policial

27. Essa análise foi rapidamente confirmada pelos acontecimentos. Tendo implementado o resgate, o foco da classe dominante voltou-se para a ordem de retomar a plena produção econômica com o objetivo de forçar a classe trabalhadora a pagar pelo resgate e financiar os níveis impressionantes de capital fictício gerados pelo Federal Reserve.

28. A campanha pelo fim do lockdown e um rápido retorno ao trabalho foi iniciada e legitimada politicamente pelo New York Times, o principal porta-voz na imprensa dos poderosos interesses corporativos-financeiros ligados ao Partido Democrata. Em 22 de março, com o projeto de Lei CARES para ser votado pelo Congresso, Thomas Friedman escreveu uma coluna intitulada “A Plan to Get America Back to Work” (“Um plano para fazer os EUA voltarem ao trabalho”). Friedman afirmou que os Estados Unidos haviam “tropeçado” em um lockdown. Dando o sinal para uma campanha maciça de propaganda contra o lockdown, Friedman escreveu:

Mas, como tantas de nossas empresas fecham e milhões começam a ser demitidos, alguns especialistas começam a perguntar: “Espere um minuto! Que diabos estamos fazendo a nós mesmos? À nossa economia? Para a próxima geração? A cura – mesmo que por pouco tempo – é pior do que a doença?”

29. Referindo-se sarcasticamente ao “conselho de epidemiologistas sérios” como “pensamento de grupo”, Friedman começou a falar de um programa de imunidade de rebanho, apenas “isolando aqueles com maior probabilidade de morrer ou sofrer a longo prazo com a exposição à infecção pelo coronavírus... enquanto tratamos o resto da sociedade basicamente da forma como sempre lidamos com ameaças parecidas, como com a gripe”. Falando tolices anticientíficas de forma irresponsável, Friedman minimizou o perigo da pandemia, declarando que “como com a gripe, a grande maioria superará em dias, um pequeno número será hospitalizado e uma porcentagem muito pequena dos mais vulneráveis morrerá tragicamente”. Desde que Friedman escreveu essas palavras, a “porcentagem muito pequena” de infectados que morreram chegou a mais de 130.000 nos Estados Unidos.

30. A linha do “liberal” New York Times foi repetida por toda a imprensa. O Wall Street Journal declarou: “A multidão que exige que a economia deve permanecer fechada até que haja uma vacina, terapia milagrosa ou testes diários em todos no país parece pensar que o governo pode substituir a economia privada... O vírus ficará conosco por muito tempo, a menos que haja uma vacina, então temos que aprender a viver com ele e ter uma economia em funcionamento”. [11]

31. A reabertura forçada da economia coincidiu e foi justificada pelo ataque da administração Trump à Organização Mundial da Saúde (OMS), ao Centro de Controle de Doenças (CDC) e à própria ciência da pandemia. A promoção frenética e ignorante de Trump de medicamentos não testados, como a hidroxicloriquina e o Remdesivir, foi levada a níveis assustadores quando ele sugeriu, em 24 de abril, que as pessoas injetassem desinfetante e expusessem seus corpos à luz ultravioleta. Sua declaração de que, se não fossem realizados testes, os casos não seriam descobertos, vai ao encontro da política de imunidade de rebanho e da atitude de “deixar [a pandemia] se espalhar”. Alertas de epidemiologistas, virologistas e médicos sobre as consequências terríveis do fim das medidas de isolamento social foram desconsiderados e ridicularizados. Nada poderia impedir que os trabalhadores voltassem para fábricas, escolas e locais de trabalho.

32. A pressão implacável para a reabertura da economia, a ausência assombrosa de equipamentos essenciais ou de uma estratégia médica coerente, a pura incompetência das ações governamentais e a indiferença brutal das grandes corporações pela saúde e segurança de seus trabalhadores rapidamente se transformaram em uma explosão de infecções e mortes. Quanto às medidas econômicas implementadas pelo governo, o desemprego aumentou para níveis não vistos desde a Grande Depressão dos anos 1930. Milhões de trabalhadores passaram a enfrentar enormes filas atrás de comida. Centenas de milhares de pequenas empresas não receberam a assistência financeira que lhes havia sido prometida.

33. Mas, para os ricos, a pandemia tem sido uma bênção financeira. A aprovação da Lei CARES iniciou a mais dramática e rápida recuperação dos valores das ações na história. Entre março e maio, os principais índices de mercado aumentaram 30%. Discutindo o abismo entre Wall Street e Main Street, a revista Economist explicou de maneira clara:

Grande parte da melhora no humor é devido ao Fed, que agiu mais dramaticamente do que outros bancos centrais, comprando ativos em uma escala inimaginável. Ele está empenhado em comprar ainda mais dívida corporativa, incluindo títulos “podres” de alto rendimento. O mercado para novas emissões de títulos corporativos, que congelaram em fevereiro, reabriu em grande estilo. As empresas emitiram US$ 560 bilhões de títulos nas últimas seis semanas, o dobro do nível normal. Até mesmo as empresas de cruzeiros conseguiram levantar dinheiro, embora a um preço elevado. Uma cascata de falências de grandes empresas foi evitada. O banco central, de fato, retomou o fluxo de caixa da America Inc. O mercado acionário percebeu o movimento e subiu. [12]

34. Ao longo de março e abril, em dezenas de artigos e declarações, o World Socialist Web Site e o Partido Socialista pela Igualdade alertaram repetidamente sobre o resultado catastrófico da campanha de volta ao trabalho feita pela classe dominante. Em 24 de março, em resposta à coluna de Friedman, o WSWS chamou a política da elite dominante de uma forma de “eutanásia socialmente autorizada... Diante da maior crise que o capitalismo dos EUA enfrenta, a classe dominante está se revelando não apenas parasitária, mas homicida”. [13] Em 11 de abril, o SEP publicou uma declaração afirmando que “o objetivo da administração Trump e da classe dominante estadunidense como um todo é ‘normalizar’ a pandemia, ou seja, aclimatar a população ao fato de que um grande número de pessoas morrerá ainda por algum tempo...”. A morte de trabalhadores deve ser considerada “um custo dos negócios, com aqueles que sucumbem à doença sendo substituídos por outros”. [14]

35. Em 18 de abril, o WSWS chamou a atenção para comentários no New York Times e na imprensa internacional contra a preocupação excessiva com a proteção da vida humana. Um comentário no jornal suíço Neue Zurcher Zeitung declarou que medidas para deter a pandemia significavam o “suicídio econômico para evitar que idosos falecessem alguns anos antes”, enquanto o jornal alemão Der Spiegel argumentou que deter a pandemia violava o princípio de que “a vida não é concebível sem a morte”. “Esses são argumentos”, o WSWS escreveu, “com os quais o líder nazista Adolf Hitler, que neste mês, há 75 anos, cometia suicídio em seu bunker em Berlim, teria prontamente concordado”. [15]

36. A resposta da classe dominante à pandemia produziu um crescimento significativo das tensões sociais e da luta de classes. A faísca para a erupção das manifestações de massas foi uma sequência de casos de violência policial. Em 13 de março, a polícia matou Breonna Taylor em Louisville, Kentucky, depois de invadir sua casa enquanto dormia. No início de maio, foram divulgadas imagens da morte de Ahmaud Arbery em Brunswick, Geórgia, assassinado por um ex-policial e investigador público e seu filho. Então, em 25 de maio, Dia da Memória, quatro policiais participaram do brutal assassinato de George Floyd em Minneapolis, Minnesota, cuja cena terrível foi filmada por celulares e vista por milhões de pessoas.

37. O assassinato de Floyd provocou manifestações multirraciais e multiétnicas em todas as grandes cidades dos EUA, inclusive no extremo Sul tradicionalmente conservador, e em países de todos os continentes. Após décadas de repressão ao protesto social e à luta de classes, com a cumplicidade ativa dos sindicatos, a raiva e o ressentimento explodiram. Ainda que os protestos tenham sido provocados pela violência policial, suas causas fundamentais foram a raiva pelo longo e severo declínio no padrão de vida, os níveis de dívida esmagadores impostos à juventude e a desolação de suas perspectivas de futuro, a desigualdade social generalizada e suas consequências, a restrição dos direitos democráticos e a impossibilidade de efetuar mudanças significativas e melhorias nas condições sociais no âmbito das estruturas políticas existentes do sistema político dividido entre os partidos Republicano e Democrata.

38. O Partido Socialista pela Igualdade saudou e apoiou esses protestos. Em 30 de maio, o SEP explicou: “Estas manifestações – que estão ocorrendo em meio à pandemia, apesar dos sérios riscos envolvidos – são uma manifestação poderosa e inspiradora de um compromisso fundamental com a defesa dos direitos democráticos, o ódio à polícia fascistoide e à administração Trump, e um profundo compromisso com a unidade de todos os setores da classe trabalhadora”. [16] Essas manifestações confirmaram a análise do SEP de que uma alternativa genuinamente progressista à administração Trump poderia surgir apenas a partir de um movimento de massas vindo de baixo, e não em um golpe palaciano, instigado de cima pelo Partido Democrata, em aliança com seções das agências militares e de inteligência que estão descontentes com a forma como Trump lida com as relações com a Rússia e a China. Em uma declaração publicada em 2017, o WSWS previu:

As lutas de massas estão na ordem do dia nos Estados Unidos. Comícios de protesto, manifestações e greves tenderão a adquirir um caráter geral de âmbito nacional. A conclusão política que decorre desta análise é que a luta da classe trabalhadora contra Trump e tudo o que ele representa levantará cada vez mais urgentemente a necessidade de um movimento político de massas, independente e em oposição tanto aos republicanos quanto aos democratas, contra o sistema capitalista e seu Estado. [17]

39. A administração Trump é diretamente responsável tanto pelo assassinato de Floyd quanto pela repressão policial contra os manifestantes. Em outubro passado, Trump fez uma declaração contra os socialistas e a “esquerda radical” em Minneapolis, apoiada por policiais com cartazes dizendo “Law & Order vote Trump” (“Lei & Ordem vota Trump”). Trump tem repetidamente encorajado a violência policial como parte de seus esforços para desenvolver uma base fascista e de direita de apoio às políticas da oligarquia financeira. Nas semanas que antecederam o assassinato de Floyd, Trump promoveu manifestações de extrema-direita para “libertar” Minnesota, Michigan, Virgínia e outros estados de quaisquer medidas para conter a propagação da pandemia do novo coronavírus.

40. Fundamentalmente, porém, a violência policial – que tira a vida de mais de 1.000 trabalhadores e jovens de todas as raças a cada ano – é o produto da dominação de classe. A epidemia de assassinato policial continuou sob Obama e tem lugar em estados e cidades de todo o país, sejam eles controlados por republicanos ou, inclusive no caso de Minneapolis, por democratas. Diante de condições de crescente agitação social, a polícia, cada vez mais integrada aos militares, será utilizada como uma força de violenta repressão.

41. Portanto, concluiu o SEP, a violência policial só pode ser combatida através da mobilização da classe trabalhadora contra a classe dominante e seu Estado. “A luta contra a brutalidade policial deve se unificar ao crescente movimento da classe trabalhadora contra as condições de trabalho inseguras, o desemprego em massa, a desigualdade social e a pobreza em massa. É uma luta contra o sistema capitalista e pelo socialismo.” [18]

42. Ao explicar o significado histórico dos protestos contra a violência policial, o SEP chamou especial atenção para o caráter internacional das manifestações como reflexo do impacto da globalização econômica e das transformações revolucionárias nas formas de comunicação, cujas consequências revolucionárias o CIQI apontou já em 1988. Em uma declaração publicada em 15 de junho, o SEP escreveu:

Esses processos inter-relacionados intensificaram as contradições essenciais entre o sistema ossificado de estados-nação e a realidade de uma economia global. Além disso, o processo de globalização criou a base para um movimento unificado e internacional da classe trabalhadora contra o capitalismo. A possibilidade da unidade global da classe trabalhadora não é uma utopia. Sua realização concreta surge das condições existentes da produção capitalista global... [19]

1˚ de junho – julho de 2020: o golpe de Trump e a política racialista do Partido Democrata

43. A resposta da administração Trump foi tentar dar um golpe presidencial, revogando a Constituição e enviando os militares para todo o país. Em 1º de junho, Trump realizou uma coletiva de imprensa no Jardim das Rosas da Casa Branca, na qual declarou sua intenção de invocar a Lei de Insurreição de 1807 para passar a considerar a oposição à violência policial como “terrorismo doméstico”. Quando a polícia federal lançou um ataque violento contra cidadãos envolvidos em protestos pacíficos fora da Casa Branca, Trump declarou que ele era o presidente da “lei e ordem”. Caso cidades ou estados não tomassem medidas que a Casa Branca considerasse suficientemente agressivas, Trump disse que ia “mobilizar os militares dos EUA e resolver rapidamente o problema para eles”.

44. Os movimentos de Trump para derrubar a Constituição aconteceram enquanto a Casa Branca impulsionava agressivamente a campanha de volta ao trabalho. Floyd foi morto no Dia da Memória, que foi promovido como um importante marco da reabertura da economia. Trump declarou, em um chamado aos governadores antes do discurso do Jardim das Rosas: “É um movimento. Se você não acabar com ele, vai ficar cada vez pior”. Isto é, o que começou como protestos contra a violência policial poderia rapidamente se desenvolver em um movimento mais amplo da classe trabalhadora contra o capitalismo.

45. Os democratas entregaram toda a oposição contra a conspiração de Trump a altas figuras militares e generais aposentados, que estavam preocupados que tal ação colocasse o país muito rapidamente na direção de uma guerra civil. Nenhuma autoridade democrata emitiu uma declaração significativa denunciando as consequências de longo alcance para os direitos democráticos.

46. Joe Biden, o candidato a presidente dos democratas, respondeu elogiando os “quatro chefes de gabinete [por] saírem e arrancarem a pele de Trump”. Caso Trump seja derrotado nas eleições de 2020 e se recuse a deixar o cargo, disse Biden: “Eu prometo a vocês, estou absolutamente convencido de que eles [os militares] o escoltarão para fora da Casa Branca com grande rapidez”. Como escreveu o WSWS:

Como os comentários de Biden deixam claro, os democratas consideram os militares o árbitro máximo da política nos Estados Unidos. Nem o Congresso nem o Partido Democrata levantaram um dedo contra esta declaração presidencial de governo autoritário. Foi somente por causa da oposição do Pentágono, que sentiu que tal ação militar estava mal preparada e ainda não era necessária, que Trump recuou. [20]

47. O Partido Socialista pela Igualdade foi o único a alertar a classe trabalhadora sobre os perigos das ações de Trump. No artigo “Um chamado à classe trabalhadora! Deter o golpe de Estado de Trump!”, publicado em 4 de junho, o SEP escreveu:

O alvo da conspiração na Casa Branca é a classe trabalhadora. A oligarquia corporativo-financeira teme que a erupção de manifestações de massas contra a violência policial se cruze com a imensa raiva social entre os trabalhadores por causa da desigualdade social, que foi enormemente intensificada por causa da resposta da classe dominante à pandemia do coronavírus e da sua campanha homicida de volta ao trabalho.

Nada poderia ser mais perigoso do que pensar que a crise passou. Ela, ao contrário, apenas começou. A classe trabalhadora deve intervir nesta crise inédita como uma força social e política independente. Deve se opor à conspiração na Casa Branca através dos métodos da luta de classes e da revolução socialista. [21]

48. Esses alertas foram confirmados em julho, quando a administração Trump enviou forças paramilitares federais para Portland, ameaçando enviar também para outras cidades, em flagrante violação da Constituição e de sua Declaração de Direitos. Agentes não identificados utilizando uniformes militares, operando sob o Departamento de Segurança Nacional, apreenderam manifestantes desarmados e os jogaram em carros sem identificação para serem transferidos para locais desconhecidos.

49. Em resposta a essa agressão inédita, os prefeitos de Chicago, Washington, D.C, Atlanta e Kansas City assinaram uma carta redigida pelo prefeito de Portland, na qual declararam: “O envio unilateral dessas forças paramilitares para nossas cidades é totalmente inconsistente com nosso sistema de democracia e nossos valores mais básicos”. Em uma entrevista ao comentarista fascistoide da Fox News, Sean Hannity, em 23 de julho, Trump advertiu: “Iremos a todas as cidades, a qualquer uma das cidades. Estamos prontos. Vamos colocar 50.000, 60.000 pessoas que realmente sabem o que estão fazendo. E elas são fortes. Elas são duras. E nós poderíamos resolver estes problemas muito rapidamente.”

50. As implicações ditatoriais da utilização das forças armadas por Trump contra a oposição política são reforçadas por suas ameaças públicas de permanecer no cargo, independentemente dos resultados das próximas eleições.

51. Não foi apenas Trump que ficou assustado com os protestos de massas. Os setores da classe capitalista e da classe média abastada alinhados com o Partido Democrata, sempre extremamente sensíveis a qualquer sinal de militância da classe trabalhadora e influência socialista, intervieram para sequestrar as manifestações e direcioná-las erroneamente em direção a linhas explicitamente racialistas. Em oposição a essa tendência reacionária, o SEP advertiu:

O objetivo dos sectários raciais é desviar a atenção da polícia como instrumento do Estado capitalista e dos guardiões da linha de frente da dominação de classe. Além disso, os esforços para impor uma narrativa racial às manifestações são contrariados por seu caráter claramente multirracial, multiétnico e multinacional. [22]

52. Determinado a desorientar o movimento de protesto e suprimir o crescimento da luta de classes, o New York Times intensificou sua campanha – que havia iniciado em agosto de 2019 com o lançamento do Projeto 1619 – para desacreditar a Revolução Americana, a Guerra Civil e seus principais líderes. O que começou como uma demanda legítima para a remoção das estátuas de líderes da Confederação tornou-se um movimento para derrubar e remover estátuas que lembram as vidas de Washington, Jefferson, Lincoln, Grant e até mesmo de um importante abolicionista.

53. Ao se opor à campanha para derrubar as estátuas dos líderes da Revolução Americana e da Guerra Civil, o WSWS explicou que, enquanto Trump lança seu apelo aos elementos mais desorientados politicamente na sociedade estadunidense para incitar os antagonismos raciais, o Partido Democrata

emprega outra variante da política comunalista, avaliando e explicando todos os problemas e conflitos sociais em termos raciais. Qualquer que seja a questão específica – pobreza, brutalidade policial, desemprego, baixos salários, mortes causadas pela pandemia – ela é definida quase que exclusivamente em termos raciais. Neste mundo de fantasia racializada, os “brancos” são dotados de um “privilégio” inato que os isenta de todas as dificuldades.

Essa grotesca distorção da realidade atual exige uma não menos grotesca distorção do passado. Para que os EUA contemporâneos sejam retratados como uma terra de guerra racial implacável, é necessário criar uma narrativa histórica nos mesmos termos. No lugar da luta de classes, toda a história dos Estados Unidos é apresentada como a história do conflito racial perpétuo. [23]

54. O racismo existe e é particularmente promovido entre as camadas reacionárias atraídas para os departamentos policiais. Ele é, como todas as formas de intolerância e discriminação, fomentado como uma ferramenta da classe dominante. Entretanto, os Estados Unidos não estão divididos em um país “branco” e um outro “negro” que têm interesses diferentes, assim como nem todos os “brancos” se beneficiam da violência e opressão policial, como afirmam os promotores da política racialista.

55. Apesar dos esforços para fazer da raça o eixo central da política dos Estados Unidos – um esforço que está intimamente ligado à demanda reacionária de setores da burguesia negra e da classe média alta por “reparações” – a esmagadora realidade social dos Estados Unidos é a desigualdade econômica, que está enraizada na divisão da sociedade baseada na classe. Um exame recente da distribuição de riqueza e renda realizado pelos economistas Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman encontrou

uma grande defasagem na posição dos 50% mais pobres em relação ao total da economia. A renda média bruta dos 50% mais pobres está estagnada (considerando a variação inflacionária até 2014) desde 1980 em US$ 16.000 por adulto, enquanto a renda média [geral] por adulto cresceu 60%, atingindo US$ 64.500 em 2014. Isso significa que a renda dos 50% mais pobres, que em 1980 representava 20% do total da economia, caiu para 12% em 2014. Enquanto isso, a renda média bruta do 1% mais rico aumentou de US$ 420.000 para cerca de US$ 1,3 milhão, e sua participação na renda total aumentou de cerca de 12% no início dos anos 1980 para 20% em 2014. Os dois grupos basicamente trocaram uma porção de renda, com 8 pontos percentuais da renda nacional transferidos dos 50% mais pobres para o 1% mais rico. A porção total da renda do 1% mais rico é agora quase duas vezes maior do que a dos 50% mais pobres, um grupo que possui 50 vezes mais pessoas. Em 1980, os adultos entre o 1% mais rico ganhavam em média 27 vezes mais do que os adultos entre os 50% mais pobres, enquanto hoje eles ganham 81 vezes mais.

Seis meses de pandemia: resultados e perspectivas

56. Seis meses depois que o vírus da COVID-19 foi detectado pela primeira vez, ele está se espalhando pelos Estados Unidos. O que se falava antes sobre os perigos potenciais de uma segunda onda da pandemia no outono deu lugar à constatação de que a primeira onda não foi controlada e ainda está causando estragos em todo o país. Até os meios de comunicação se tornaram muito mais cautelosos e moderados no uso de frases de efeito, ouvidas com tanta frequência em abril e maio, tais como “sinais de esperança”, “virar a esquina” e “luz no fim do túnel”. A estimativa oficial mais recente de fatalidades é que 225.000 estadunidenses morrerão por causa da doença até novembro – um número que com certeza se mostrará bem abaixo do real.

57. Apesar do fato de a oligarquia dominante ter subordinado todas as considerações de saúde pública à proteção dos investidores de Wall Street, a situação econômica está se tornando cada vez mais desesperada. A espetacular ascensão no mercado de ações, desde a aprovação da Lei CARES em março, tem sido um fenômeno especulativo sem qualquer contrapartida de recuperação da economia real. Mas nos círculos financeiros está sendo manifestada a preocupação de que a impressão digital de dinheiro do Federal Reserve não pode continuar para sempre e que suas ações são cada vez mais ineficazes. O Financial Times alertou recentemente sobre “os limites do poder do Fed”:

As ações notáveis desta primavera sem dúvida deram um abalo positivo para a economia. Mas será extremamente difícil para o Fed voltar a dar um choque semelhante ao sentimento a qualquer momento; estamos agora no território da ação incremental. E o Fed não pode tapar os buracos sempre crescentes nos balanços das empresas insolventes, substituir a demanda perdida dos consumidores ou reverter todos os cortes de empregos. Mesmo o apoio fiscal provavelmente só pode adiar, e não eliminar, a dor.

Para entender isto, considere as companhias aéreas. Nesta primavera, as transportadoras aéreas dos EUA receberam apoio fiscal e se comprometeram, em troca, a não cortar pessoal até 1º de outubro. Mas, nas últimas duas semanas, a Delta anunciou 17.000 aposentadorias antecipadas e a United enviou avisos de dispensa a 45% de seus funcionários nos EUA. [24]

58. A primeira metade do ano foi dominada pela resposta da classe dominante à pandemia. A resposta da classe trabalhadora virá à tona no segundo semestre. As consequências desastrosas das políticas da classe dominante deram um golpe espantoso na legitimidade do sistema capitalista. A resposta corporativa ao colapso econômico – demissões em massa, cortes salariais, demandas por cortes adicionais nos gastos com Medicare, Medicaid, Previdência Social e outros programas sociais vitais e já subfinanciados – encontrará uma resistência crescente na classe trabalhadora. Crescerá a oposição às condições inseguras de trabalho e à reabertura de escolas, que facilitam a propagação do vírus da COVID-19. Haverá oposição a despejos e execuções de hipotecas. Portanto, o Partido Socialista pela Igualdade prevê um imenso crescimento da luta da classe trabalhadora, que, através da intervenção do partido, assumirá um caráter politicamente classista e anticapitalista.

O imperialismo e o perigo de guerra

59. A classe dominante dos Estados Unidos reconhece a ameaça mortal representada pelo crescimento da militância social e da consciência política da classe trabalhadora. Como já explicamos, ela está disposta a empregar todos os meios que considerar necessários para neutralizar o perigo à sua dominação: desde o uso da política racial para dividir a classe trabalhadora, a intensificação das medidas estatais policiais para suprimir a oposição progressista e, sobretudo, socialista, e, finalmente, o repúdio às normas constitucionais e o recurso aberto à ditadura.

60. Mas essas táticas domésticas continuarão junto com uma enorme escalada do militarismo imperialista. Como em todas as outras esferas da política econômica, social e política, a pandemia está acelerando os preparativos do imperialismo estadunidense para a guerra. Logo no início de 2020, antes do início da pandemia nos Estados Unidos, o World Socialist Web Site chamou a atenção urgente para as implicações do assassinato do major general iraniano Qassem Suleimani pela administração Trump, em 2 de janeiro de 2020:

Já no início de 2020, o assassinato do Major General Qassim Suleimani, ordenado pelo presidente Donald Trump, ameaça uma guerra total entre os Estados Unidos e o Irã, com consequências incalculáveis. O envolvimento de um presidente dos EUA em mais um assassinato direcionado, seguido de uma ostentação sanguinária, atesta o desarranjo avançado de toda a elite dominante. [25]

61. Apesar da decisão tática de adiar novos ataques militares contra o Irã, o WSWS alertou: “Nada do que aconteceu nos últimos dois dias mudou os objetivos militares dos Estados Unidos. Os mesmos imperativos geopolíticos que provocaram a crise desta semana provocarão outros.” [26]

62. Durante toda a pandemia, não houve nenhuma mudança nas políticas belicosas dos Estados Unidos. Em maio, a administração Trump apoiou uma tentativa de golpe interrompido na Venezuela por mercenários liderados pelos EUA. O Secretário de Estado dos EUA, Michael Pompeo, manteve um programa de viagens intenso, exigindo apoio às ameaças estadunidenses contra a Rússia e seu principal rival geopolítico, a China. A administração Trump procurou gerar hostilidade referindo-se regularmente ao “vírus de Wuhan”, a ponto de afirmar, sem nenhuma evidência, que a China havia se empenhado a infectar a população estadunidense. Esta afirmação absurda foi apoiada pelo Washington Post e por importantes comentaristas da imprensa, como Fareed Zakharia. Para não ficar para trás no discurso belicista, o New York Times inventou uma reportagem segundo a qual a Rússia havia pago combatentes talibãs para matar soldados dos EUA no Afeganistão.

63. No limite, os preparativos de guerra do imperialismo estadunidense são impulsionados por seus esforços para manter sua posição de poder hegemônico global contra o desafio crescente da China. A prolongada erosão de seu predomínio econômico obriga os Estados Unidos a depender cada vez mais do poder militar. Essa tendência tem sido acentuada pelo impacto econômico e político da pandemia de COVID-19. A decisão no início de julho de enviar dois grupos de ataque de porta-aviões para o Mar do Sul da China atesta a imprudência entre as maiores autoridades do governo dos EUA.

64. O perigo de guerra não deve ser subestimado. Há muitos exemplos no século XX de um regime em crise – o de Hitler é o exemplo mais notório – que recorre à guerra como solução para o que percebe ser uma crise desesperada dentro das fronteiras de seu próprio país. Em particular, os ataques beligerantes da administração Trump contra a China são impulsionados em grande medida pela necessidade de direcionar para fora as enormes as tensões sociais nos Estados Unidos contra um inimigo externo.

65. A crise cada vez maior do capitalismo mundial não está apenas alimentando o impulso de guerra dos EUA contra a China e a Rússia. Está também intensificando os conflitos entre os EUA e as grandes potências imperialistas da Europa, particularmente a Alemanha. Ao mesmo tempo, as intermináveis guerras imperialistas e as operações de mudança de regime no Oriente Médio e na América Latina criaram uma crise sem precedentes de refugiados, com mais de 1% da população – cerca de 80 milhões de pessoas – deslocada à força. A pandemia está tendo um impacto particularmente catastrófico sobre estas populações migrantes.

66. A única resposta a esse perigo é o desenvolvimento de um poderoso movimento antiguerra da classe trabalhadora dos EUA e de todo o mundo.

As tarefas do Partido Socialista pela Igualdade

67. O trabalho do partido é orientado pela convicção inabalável de que a classe trabalhadora é a força revolucionária fundamental e de vanguarda da sociedade, e que a classe trabalhadora dos EUA, não obstante os imensos desafios que enfrenta no mais poderoso bastião do imperialismo mundial, se elevará à altura de suas tarefas históricas.

68. Vinte e cinco anos se passaram desde a fundação do Partido Socialista pela Igualdade, em junho de 1995. Anteriormente, os militantes dos EUA do Comitê Internacional da Quarta Internacional estavam organizados na Liga dos Trabalhadores (que havia sido fundada em 1966). A transformação de uma liga para um partido foi uma resposta à quebra, nos anos 1980 e início dos anos 1990, de todos os antigos partidos de massas e sindicatos nacionalistas burocraticamente controlados. A tática anterior de exigir das antigas organizações – com a expectativa de que o crescimento do partido revolucionário assumisse a forma de uma radicalização dentro da estrutura dessas organizações – foi ultrapassada por processos e eventos objetivos.

69. Tirando as necessárias conclusões políticas da situação que foi alterada, David North incentivou a transformação da Liga dos Trabalhadores para o Partido Socialista pela Igualdade:

Se uma liderança revolucionária deve ser oferecida à classe trabalhadora, isso deverá ser feito pelo nosso partido. Se um novo caminho deve ser aberto para as massas de trabalhadores, ele deve ser aberto pela nossa organização. O problema da liderança não pode ser resolvido a partir de uma tática inteligente. Não podemos resolver a crise da liderança da classe trabalhadora “exigindo” que outros forneçam essa liderança. Para que haja um novo partido, devemos construí-lo. [27]

70. Como resultado desta iniciativa, que foi implementada por todas as seções do Comitê Internacional, a Quarta Internacional foi capaz de expandir amplamente sua influência política na classe trabalhadora. O lançamento do World Socialist Web Site em fevereiro de 1998, que surgiu da transformação das ligas em partidos, tem sido um fator crucial para estabelecer o papel do CIQI como o representante absoluto do socialismo. Durante os últimos 25 anos, o papel reacionário de agências pequeno-burguesas do imperialismo como o Syriza na Grécia, o Podemos na Espanha e o Partido de Esquerda na Alemanha, para citar apenas algumas delas, foi completamente exposto. A campanha presidencial interrompida de Bernie Sanders – à qual a Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês) e inúmeras outras tendências da classe média haviam se dissolvido – só se diferenciou dessas outras organizações por causa do tamanho dos EUA e de sua tolice pragmática e falência programática. O Comitê Internacional pode reafirmar as palavras escritas por Trotsky no programa de fundação da Quarta Internacional: “Fora desses quadros [do CIQI] não existe neste planeta uma única corrente revolucionária que realmente mereça este nome”.

71. O Partido Socialista pela Igualdade deve agir sobre as implicações revolucionárias da crise atual. A oposição às políticas da classe dominante está crescendo. Mesmo com a pandemia fora de controle, a administração Trump, com o apoio do Partido Democrata, exige que as escolas sejam reabertas no outono, arriscando a vida de centenas de milhares de professores e alunos. Os subsídios federais de desemprego serão eliminados ou reduzidos até o final deste mês, já que os oligarcas financeiros procuram usar a crise social que milhões de pessoas enfrentam como uma forma de extorsão econômica.

72. Em novembro de 2019, pouco antes do início da pandemia, o Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), um importante think tank, fez a seguinte avaliação da situação mundial:

Os movimentos de protesto de massas estão perturbando a política em todo o mundo... Os manifestantes estão frustrados com a percepção de corrupção e desigualdade econômica. Geralmente jovens, revoltados e urbanos, os manifestantes não são uma oposição organizada que propõe colocar seu partido ou ideologia no lugar dos que existem, mas sim um movimento sem líderes exigindo que suas vozes sejam ouvidas. Em alguns casos, as reivindicações dos manifestantes são claras; mais frequentemente, são confusas. Em todos os casos, os descontentes querem mudanças nos sistemas que percebem como ultrapassados, falidos ou sem resposta. [28]

73. Em 3 de janeiro, antes de haver qualquer notícia sobre a propagação do coronavírus além da China, o Partido Socialista pela Igualdade publicou uma declaração definindo os anos 2020 como a “década da revolução socialista”. Apontando para as manifestações e greves de massas no México, Porto Rico, Equador, Colômbia, Chile, França, Espanha, Argélia, Grã-Bretanha, Líbano, Hong Kong, Iraque, Irã, Sudão, Quênia, África do Sul, Índia e muitos outros países, o SEP escreveu que “as condições objetivas para a revolução socialista emergem da crise global”. [29]

74. Assim como todos os elementos da crise capitalista, a pandemia está acelerando enormemente o crescimento da oposição social na classe trabalhadora. Por maior que seja a crise, no entanto, ela não leva automaticamente ao socialismo. Escrevendo em 1935, outro período de conflitos sociais explosivos, na véspera da Segunda Guerra Mundial, Trotsky explicou que “o marxismo, a única teoria científica da revolução proletária, não tem nada em comum com a esperança fatalista da crise ‘final’. O marxismo é, em sua própria essência, um conjunto de diretrizes para a ação revolucionária. O marxismo não ignora a vontade e a coragem, mas sim os ajuda a encontrar o caminho certo.” Ele continuou:

Não há crise que possa ser, por si só, fatal para o capitalismo. As oscilações do ciclo comercial apenas criam uma situação em que será mais fácil, ou mais difícil, para o proletariado derrubar o capitalismo. A transição de uma sociedade burguesa para uma sociedade socialista pressupõe a atividade de homens vivos que são os criadores de sua própria história. Eles não fazem história por acidente, ou de acordo com seu capricho, mas sob a influência de causas objetivamente determinadas. Entretanto, suas próprias ações – sua iniciativa, audácia, devoção e também sua estupidez e covardia – são elos necessários na cadeia do desenvolvimento histórico. [30]

75. Criticando o fatalismo burocrático dos stalinistas, Trotsky acrescentou: “uma situação revolucionária não cai do céu. Ela se dá na luta de classes. O partido da classe trabalhadora é o fator político mais importante para o desenvolvimento de uma situação revolucionária.”

76. O trabalho do Partido Socialista pela Igualdade durante o segundo semestre de 2020 se desenvolverá diante de uma crise política cada vez maior. A próxima campanha presidencial proporcionará mais provas da falência política dos dois principais partidos capitalistas, que são os servidores da oligarquia financeira-empresarial. Por mais intensas que sejam suas diferenças táticas, os democratas e os republicanos estão igualmente comprometidos com a defesa do sistema capitalista. Independentemente do partido que vencer a eleição – e isso exige a premissa discutível de que a eleição será realizada – as tendências que encontraram tal expressão nociva durante a administração Trump continuarão e se agravarão. É inegável que Trump é um gângster fascistoide. Mas ele não deslizou como uma cobra para dentro do Jardim do Éden estadunidense. Trump nada mais é do que a personificação individual da classe dominante mais parasitária, impiedosa e reacionária do mundo. As políticas de sua administração são mais uma continuação, agora em situação de intensa crise, do que uma ruptura das administrações de Reagan (1981-89), Bush I (1989-1993), Clinton (1993-2001), Bush II (2001-2009) e Obama (2009-2017).

77. O Partido Democrata e seus agentes da pseudoesquerda procuram apresentar a eleição em termos existenciais, alertando para a catástrofe que aguarda o país caso Trump seja reeleito. Mas a catástrofe já ocorreu, e continuará se Joseph Biden se tornar presidente. O assalto à classe trabalhadora continuará. Quanto à política externa, os democratas deixaram claro que pretendem intensificar o confronto com a Rússia e a China.

78. A campanha presidencial do Partido Socialista pela Igualdade não se baseia em cálculos eleitorais, mas na lógica da luta de classes. Os candidatos do SEP, Joseph Kishore e Norissa Santa-Cruz, utilizarão a campanha para encorajar a militância independente da classe trabalhadora, elevar sua consciência política e sua compreensão da perspectiva socialista, e preparar trabalhadores e jovens para as lutas que se aproximam, independentemente do partido capitalista que vencer a eleição. Acima de tudo, o SEP utilizará a campanha para explicar aos trabalhadores dos EUA que eles fazem parte de uma classe internacional, e que a luta contra o capitalismo nos Estados Unidos só pode ser bem sucedida na medida em que for travada a partir de uma estratégia internacional, em oposição a todas as formas de nacionalismo.

79. O tamanho e o alcance geográfico das manifestações de massas de 2019 demonstram o crescimento de uma classe trabalhadora internacional globalmente integrada, hoje composta por 3 bilhões de pessoas. Nos últimos 30 anos, centenas de milhões de camponeses e agricultores migraram para as cidades e se juntaram às fileiras da classe trabalhadora. Em 2007, pela primeira vez na história mundial, a maioria da humanidade passou a viver em áreas urbanas. A classe trabalhadora está cada vez mais interligada pela tecnologia, com mais de 2 bilhões de pessoas passando a acessar a internet pela primeira vez entre 2014 e 2019.

80. No âmbito dessa estratégia internacionalista, o foco central da atividade do partido deve ser intervir sistematicamente na luta de classes e conquistar para o partido os trabalhadores e a juventude mais conscientes politicamente. O partido deve ter em mente as palavras de Trotsky: “Quais são as tarefas? A tarefa estratégica consiste em ajudar as massas, em adaptar sua mentalidade, política e psicologicamente, à situação objetiva, em superar as tradições prejudiciais dos trabalhadores dos EUA e em adaptá-la à situação objetiva da crise social de todo o sistema”. [31]

81. Trotsky escreveu no programa de fundação da Quarta Internacional: “A tarefa estratégica da Quarta Internacional não consiste em reformar o capitalismo, mas em derrubá-lo. Seu objetivo político é a conquista do poder pelo proletariado com o propósito de expropriar a burguesia. Entretanto, a realização desta tarefa estratégica é inconcebível sem a mais atenta atitude em todas as questões de tática, mesmo as pequenas e parciais. Todas as frações do proletariado, todas as suas camadas, profissões e grupos devem ser levadas ao movimento revolucionário. O que distingue a época atual não é o fato de ela liberar o partido revolucionário do trabalho prosaico diário, mas o de permitir conduzir esta luta em união indissociável com as tarefas da revolução.” [32]

82. Ao levar adiante esse trabalho, o SEP avança, como preconizado por Trotsky, reivindicações transitórias – isto é, reivindicações e iniciativas que conectam as questões e necessidades decorrentes de uma situação concreta com a estratégia da revolução socialista. Em relação à pandemia do coronavírus, o SEP faz um chamado e lutará pelo fim da campanha imprudente e criminosa de retorno ao trabalho; pela revogação do plano de resgate corporativo e de Wall Street; por um programa de emergência para proporcionar segurança econômica a todos os desempregados e expandir amplamente a infraestrutura de saúde; pela expropriação da riqueza da elite empresarial e financeira para enfrentar a crise social urgente enfrentada por dezenas de milhões de pessoas; e pelo estabelecimento da propriedade e controle democráticos dos trabalhadores sobre os principais bancos e corporações.

83. Todas essas exigências partem da premissa de que a resposta à pandemia deve ser baseada no que os trabalhadores e a sociedade como um todo precisam, não no que o sistema capitalista e os oligarcas financeiros estão dispostos a dar. Elas levam inexoravelmente à conclusão final: a necessidade de estabelecer o poder dos trabalhadores e abolir o capitalismo.

84. Tarefas específicas surgem a partir dessa perspectiva:

a. O partido deve intensificar sua luta pelo desenvolvimento de uma rede de comitês de base de segurança que ligue cada fábrica, escritório e local de trabalho. Esses comitês, controlados democraticamente pelos próprios trabalhadores, devem formular, implementar e supervisionar medidas necessárias para garantir a saúde e a vida dos trabalhadores, de suas famílias e da comunidade em geral. Isso deve estar ligado à luta para desenvolver uma liderança socialista na classe trabalhadora e recrutar trabalhadores para o partido.

b. O partido deve manter sua defesa do conteúdo progressista das duas Revoluções Americanas, que está indissoluvelmente ligada à luta contra a política racial-comunal do Partido Democrata e de suas agências da pseudoesquerda de classe média. A alegação de que os Estados Unidos estão divididos por antagonismos raciais e que os trabalhadores brancos são os culpados pelas condições dos trabalhadores negros é falsa e politicamente reacionária. O SEP se opõe à exigência de reparações, que é uma política pequeno-burguesa destinada a dividir os trabalhadores e fazer avançar as ambições capitalistas de uma seção privilegiada da burguesia negra e da classe média-alta, que quer maior acesso à riqueza monopolizada pelo 1% mais rico da população.

c. Fazer uma ampla e ativa campanha para construir a Juventude e Estudantes Internacionais pela Igualdade Social (IYSSE, na sigla em inglês) nos campi e nas escolas e entre os jovens da classe trabalhadora. Em particular, o IYSSE deve organizar e liderar a oposição entre a juventude, em aliança com educadores e toda a classe trabalhadora, contra a campanha para reabrir as escolas em condições inseguras.

d. O SEP e a IYSSE devem fazer uma campanha incessante em defesa de todos os trabalhadores imigrantes que continuam sujeitos à perseguição implacável do Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos EUA (ICE, na sigla em inglês). O partido e sua organização juvenil exigem o fim das deportações. Eles fazem um chamado para que os migrantes sejam bem-vindos e que aqueles encarcerados sejam libertados da custódia. Eles exigem o fim da separação das famílias e o fornecimento de moradia decente e apoio financeiro àqueles que pedem asilo e aos refugiados. Os imigrantes devem ter todas as oportunidades de desfrutar vidas seguras e produtivas nos Estados Unidos com plenos direitos de cidadania.

e. O SEP deve intensificar sua campanha contra a guerra e o militarismo, que ameaça desencadear uma Terceira Guerra Mundial. Todas as frações da classe dominante estão comprometidas com os interesses geoestratégicos do imperialismo dos EUA. A luta contra a guerra deve ser baseada na classe trabalhadora; deve ser anticapitalista e socialista; deve ser independente e contrária a todos os partidos e organizações políticas que defendem o sistema capitalista; e, acima de tudo, deve ser internacional, unindo e mobilizando o vasto poder da classe trabalhadora em uma luta global unificada para acabar com o capitalismo e suas divisões em Estados-nação, e estabelecer o socialismo mundial.

f. A luta contra a opressão do Estado e a guerra está indissoluvelmente ligada à luta contra a censura na internet e à defesa do direito dos jornalistas de expor os crimes do estado. O SEP e a IYSSE devem continuar a campanha pela liberdade incondicional de Julian Assange, pelo fim da perseguição de Chelsea Manning e contra a censura, feita por gigantes tecnológicos como Google e Facebook, ao WSWS e a outros sites e indivíduos de esquerda, antiguerra e socialistas.

85. O impacto político e a eficácia das iniciativas e campanhas do SEP dependem do recrutamento de trabalhadores para o partido. A política revolucionária não se desdobra num reino distante, etéreo e super-humano. Até mesmo nas condições objetivas mais favoráveis é preciso que os trabalhadores politicamente conscientes, educados pelo partido, atuem. A criação de comitês de base de segurança em fábricas automotivas em Detroit, Toledo e outras cidades do país demonstrou o papel vital desempenhado pelo partido no desenvolvimento da classe trabalhadora como uma força política e socialmente consciente.

86. O partido deve explicar pacientemente aos trabalhadores e à juventude a natureza da crise e a estratégia da luta pelo socialismo. Mas a necessidade de uma explicação paciente não deve se tornar uma justificativa para a contemplação passiva. Oportunidades de traduzir o entendimento político em ações práticas não devem ser perdidas. O objetivo do partido é liderar os trabalhadores em luta.

87. Todo o trabalho do SEP será realizado em estreita colaboração com o Comitê Internacional da Quarta Internacional. Não há solução nacional para a pandemia global, assim como não há solução nacional para nenhum dos grandes problemas enfrentados pela classe trabalhadora – desigualdade, exploração, guerra, degradação ambiental. A construção de um movimento socialista de massas na classe trabalhadora dos EUA deve estar ligada à mobilização dos bilhões de trabalhadores em todo o mundo, a enorme força social que pode finalmente colocar um fim à barbárie capitalista e traçar um novo caminho para a humanidade.

88. Um ano atrás, em sua Escola de Verão, o Partido Socialista pela Igualdade, a partir de uma análise do desenvolvimento do movimento trotskista e da situação objetiva, concluiu que o CIQI havia entrado em uma nova etapa histórica. O presidente nacional do SEP, David North, definiu esta etapa como aquela “que testemunhará um vasto crescimento do CIQI como o Partido Mundial da Revolução Socialista”:

Os processos objetivos da globalização econômica, identificados pelo Comitê Internacional há mais de 30 anos, passaram por um desenvolvimento colossal. Combinados com o surgimento de novas tecnologias que revolucionaram as comunicações, estes processos internacionalizaram a luta de classes a um grau que teria sido difícil de imaginar até mesmo há 25 anos. A luta revolucionária da classe trabalhadora se desenvolverá como um movimento mundial interligado e unificado. O Comitê Internacional da Quarta Internacional será construído como a liderança política consciente deste processo socioeconômico objetivo. A política capitalista da guerra imperialista será contraposta por ela pela estratégia de classe da revolução socialista mundial. Esta é a tarefa histórica fundamental da nova etapa da história da Quarta Internacional. [33]

89. Para levar adiante suas imensas responsabilidades políticas, o partido e seus quadros devem estar firmemente enraizados e educados nas experiências históricas do movimento marxista. A imensa história incorporada no CIQI deve ser levada ao movimento da classe trabalhadora que está em curso. A intersecção da radicalização objetiva da classe trabalhadora com a prática do partido criará as condições para a vitória da classe trabalhadora, a abolição do capitalismo e a transformação socialista da economia mundial.

Referências

[1] “A pandemia da COVID-19: Um evento desencadeador na história mundial”, por David North, World Socialist Web Site, 11 de maio de 2020.

[2] Capital, por Karl Marx, Volume III (Londres: 1974), p. 438.

[3] “The Next Pandemic?”, In: Foreign Affairs, Vol. 84, No. 4 (Julho-Agosto 2005), pp. 3–4.

[4] Ibid, p. 4.

[5] Ibid.

[6] “The Wuhan coronavirus outbreak and the global threat of infectious diseases”, por Bryan Dyne, World Socialist Web Site, 28 de janeiro de 2020.

[7] “Covid-19 and corporate sector liquidity”, por Ryan Banerjee, Anamaria Illes, Enisse Kharroubi e José-Maria Serena, BIS Bulletin, No. 10, 28 de abril de 2020, p. 1.

[8] Ibid.

[9] “Por uma resposta de emergência globalmente coordenada à pandemia de coronavírus!”, por Comitê Internacional da Quarta Internacional, World Socialist Web Site, 3 de março de 2020.

[10] “The response of the ruling elite to the coronavirus pandemic: Malign neglect”, por Alex Lantier e Andre Damon, World Socialist Web Site, 14 de março de 2020.

[11] “The Economic Lockdown Catastrophe”, por Conselho Editorial do Wall Street Journal, 8 de maio de 2020.

[12] “The Market v the Real Economy”, Economist, 7 de maio de 2020.

[13] “Message from big business on coronavirus pandemic: Save profits, not lives”, por Andre Damon, World Socialist Web Site, 24 de março de 2020.

[14] “Trump’s campaign to reopen businesses risks hundreds of thousands of lives”, por Partido Socialista pela Igualdade EUA), World Socialist Web Site, 11 de abril de 2020.

[15] “A pandemia, os lucros e a justificativa capitalista para o sofrimento e a morte”, por David North, World Socialist Web Site, 18 de abril de 2020.

[16] “Hundreds of thousands stage multiracial demonstrations against police violence in a powerful show of working-class unity”, por Partido Socialista pela Igualdade (EUA), World Socialist Web Site, 30 de maio de 2020.

[17] “Palace coup or class struggle: The political crisis in Washington and the strategy of the working class”, World Socialist Web Site, 13 de junho de 2017.

[18] “Hundreds of thousands stage multiracial demonstrations against police violence in a powerful show of working-class unity”, por Partido Socialista pela Igualdade (EUA), World Socialist Web Site, 30 de maio de 2020.

[19] “Protestos contra assassinatos policiais: o caminho a seguir”, por Partido Socialista pela Igualdade (EUA), World Socialist Web Site, 16 de junho de 2020.

[20] “Would-be führer Trump steps up coup plotting”, por Patrick Martin, World Socialist Web Site, 12 de junho de 2020.

[21] “Um chamado para a classe trabalhadora! Deter o golpe de estado de Trump!” por

Partido Socialista pela Igualdade (EUA), World Socialist Web Site, 4 de junho de 2020.

[22] “Protestos contra assassinatos policiais: o caminho a seguir”, por

Partido Socialista pela Igualdade (EUA), World Socialist Web Site, 16 de junho de 2020.

[23] “Racial-communalist politics and the second assassination of Abraham Lincoln”, por Niles Niemuth e David North, World Socialist Web Site, 25 de junho de 2020.

[24] “The US is having a bank-shaped recovery”, por Gillian Tett, In: Financial Times Disponível em: https://www.ft.com/content/26173096-7fe8-47e4-abeb-feafa3432901.

[25] “Começa a década da revolução socialista”, por David North e Joseph Kishore, World Socialist Web Site, 7 de janeiro de 2020.

[26] “Trump bides his time, but the preparations for war against Iran will continue”, por Bill Van Auken e David North, World Socialist Web Site, 9 de janeiro de 2020.

[27] The Workers League and the Founding of the Socialist Equality, relatório de David North de 25 de junho de 1995 (Detroit: 1996), p. 30.

[28] “The Age of Leaderless Revolution”, por Samuel Brannen, 1˚ de novembro de 2019. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/age-leaderless-revolution.

[29] “Começa a década da revolução socialista”, por David North e Joseph Kishore, World Socialist Web Site, 7 de janeiro de 2020.

[30] Leon Trotsky, “Once Again Whither France”, (28 de março de 1935), In: Whither France, New Park Publications (1974), p. 42.

[31] Trotsky, “Discussions with Trotsky before the Transitional Program: A summary of transitional demands” (23 de março de 1938), In: The Transitional Program for Socialist Revolution, Pathfinder (2019), p.132.

[32] Trotsky, “The Death Agony of Capitalism and the Tasks of the Fourth International (The Transitional Program)”, setembro de 1938.

[33] “The Political Origins and Consequences of the 1982–1986 Split in the International Committee of the Fourth International”, Escola de Verão do SEP, 21 de julho de 2019.