O cancelamento do discurso do professor Adolph Reed Jr. e a promoção da política racial pelos DSA

Por Niles Niemuth
22 Agosto 2020

Publicado originalmente em 18 de agosto de 2020

O New York Times publicou um longo artigo na semana passada destacando um acontecimento instrutivo que ocorreu no início deste ano envolvendo os Socialistas Democráticos dos EUA (DSA, na sigla em inglês). Um discurso do professor emérito de ciência política Adolph Reed Jr. foi cancelado devido a objeções do grupo AFROSOCialist and Socialists of Color sobre sua “forma reacionária e reducionista de política de classe”.

Adolph Reed Jr. em sala de aula (Foto: Publicbooks.org)

O grupo racial afirmou que, ao convidar a Reed para falar em uma atividade de formação política sobre a crise da COVID-19, as seções da Filadélfia e da Baixa Manhattan da cidade de Nova York haviam lançado um ataque “reacionário, reducionista de classe e, na melhor das hipóteses, “surdo” aos membros dos DSA que fazem parte de grupos de minorias raciais ou étnicas. Reed é um professor negro que tem uma história de décadas de crítica à política de identidade racial a partir de uma perspectiva de esquerda.

De acordo com o Times, Reed tinha a intenção de falar por que o foco obsessivo da “esquerda” sobre o impacto desproporcional da pandemia do coronavírus em negros minou os esforços de organização de todas as raças e da promoção da saúde e da justiça econômica para todos os estadunidenses. Reed apoiou o senador democrata Bernie Sanders para presidente em 2016 e 2020 e foi membro fundador do Partido Trabalhista liderado pelo líder sindical Tony Mazzocchi.

Reed havia criticado o reducionismo racial do Projeto 1619 do Times em uma entrevista ao World Socialist Web Site em dezembro, despertando sem dúvida a ira dos racialistas dos DSA e da pseudoesquerda em geral que defenderam com firmeza a falsificação racialista reacionária da história dos EUA.

Na manhã em que o evento estava para acontecer, o grupo AFROSOCialist exigiu que a palestra de Reed fosse cancelada e que, ao invés disso, houvesse um debate sobre sua “análise reducionista de classe em contraposição à nossa análise socialista interseccional”. A liderança da seção dos DSA em Nova York responderam rapidamente à carta cancelando o evento.

O grupo AFROSOCialist se orgulha de ter recebido generoso financiamento para sua primeira atividade de formação em 2017 da Fundação Rosa Luxemburgo, que está ligada ao partido A Esquerda na Alemanha e funciona graças à injeção de dezenas de milhões de dólares anuais do estado alemão.

A furiosa reação da liderança dos DSA ao convite para Reed revela quão profundamente a organização está impregnada de políticas reacionárias e de direita de divisão racial. A extrema hostilidade a qualquer análise baseada no primado de classe expressa os interesses de setores abastados da pequena burguesia, que utilizam políticas raciais e de identidade para conquistar posições de poder e privilégios dentro do aparato do estado, dos sindicatos, da academia e das corporações.

É significativo que uma voz de destaque na campanha contra Reed seja a professora de estudos afro-americanos na Universidade de Princeton, Keeanga-Yamahtta Taylor, que é citada pelo Times como representante daqueles que consideram raça como “a ferida primordial dos EUA”, que tem prioridade sobre a “efêmera solidariedade de classe”.

“Adolph Reed e aqueles parecidos com ele acreditam que se falarmos muito sobre raça alienaremos muitos, e isso nos impedirá de construir um movimento”, afirmou Taylor. “Não queremos isso – queremos conquistar os brancos para um entendimento de como seu racismo tem distorcido fundamentalmente a vida dos negros.”

Ou seja, todos os brancos – e particularmente os trabalhadores brancos – são racistas e são responsáveis pelas condições enfrentadas pelos trabalhadores negros. Taylor criticou os planos de Reed de se concentrar nas questões de classe por trás da desigualdade racial em seu discurso como “uma provocação. Foi bastante incendiário.”

Taylor é uma antiga liderança da agora extinta Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês), o grupo pseudoesquerdista que se dissolveu em 2019 em meio a denúncias de agressão sexual e encobrimento instigados por uma fração da organização. Como o WSWS explicou na época, o objetivo dessa dissolução era facilitar a integração de sua liderança na órbita política do Partido Democrata.

Taylor personifica essa integração. Ela agora frequentemente escreve para o New York Times e a New Yorker, além da revista Jacobin, que é ligada aos DSA. Ela também tem estreitas conexões com Nikole Hannah-Jones, a autora principal do Projeto 1619 do New York Times. Como membro da ISO e depois de a organização colapsar, Taylor tem sido uma especialista em política racial, publicando livros sobre o movimento negro Black Lives Matter e a organização feminista lésbica negra Combahee River Collective.

A única discordância sobre o cancelamento do discurso de Reed de dentro dos DSA veio do grupo Class Unity, que se autodenomina um “polo de atração marxista” que trabalha dentro e fora dos DSA para reduzir a confiança da organização no Partido Democrata e criar um “verdadeiro partido dos trabalhadores”.

O comitê editorial do Class Unity divulgou uma declaração criticando os “DSA liberais” de classe média na liderança da organização por cancelar o evento de Reed por estarem preocupados com suas próprias carreiras.

“A estratégia de manter a cabeça baixa e ‘fazer o trabalho’ é insuficiente”, diz a declaração. “Nossa incapacidade de nos organizarmos contra os liberais nos DSA nos deixou fracos e incapazes de defender os princípios básicos da liberdade de expressão, quanto mais o marxismo.”

A declaração fornece um testemunho revelador dos DSA de dentro da organização. Eles escrevem que “longe de serem formações ideológicas com princípios”, AFROSOCialist e outros grupos “são, em grande parte, exercícios de marca para facilitar a competição entre as conflituosas panelas de carreiristas de classe média e escaladores sociais que constituem suas lideranças, com os membros da base desses grupos excluídos em grande parte de um papel significativo na tomada de decisões”.

O conflito dentro dos DSA reflete certas diferenças táticas. Em particular, o grupo Class Unity apoiou com força a campanha de Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata. Sanders está agora fazendo uma intensa campanha a favor de Biden. No ano passado, o grupo AFROSOCialist exigiu que o Comitê Político Nacional dos DSA retirasse o apoio da organização a Sanders por sua recusa em apoiar inequivocamente as reparações pela escravidão. Nesse caso, a liderança dos DSA seguiu a maioria dos membros que haviam votado a favor de Sanders.

Aqueles nos DSA e ao seu redor, incluindo o próprio Reed, que se opõem à fixação obsessiva com a política de identidade, têm que entender as raízes políticas mais fundamentais da organização e sua relação com a estratégia do Partido Democrata.

A proibição da crítica à política de identidade dentro dos DSA e as ferozes denúncias contra o marxismo como “reducionismo de classe” estão de acordo com os objetivos mais amplos dos democratas de promover políticas de identidade para dividir a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, tal política é um mecanismo através do qual os setores privilegiados da classe média alta efetivam seus próprios interesses.

A promoção da política racialista é central para a estratégia do Partido Democrata nas eleições de 2020. Isto foi deixado claro por Biden ter escolhido a senadora Kamala Harris como candidata à vice-presidência. A escolha da ex-procuradora-geral da Califórnia, que ameaçou prender pais de alunos faltosos e questionou as ordens da Suprema Corte para libertar prisioneiros das prisões superlotadas do estado, está sendo saudada como histórica com base unicamente na “interseccionalidade” de suas várias identidades – mulher e com ascendência africana e indígena.

O impedimento de Reed de falar por motivos racialistas de direita deveria deixar absolutamente claro, para aqueles que tinham alguma dúvida, que os DSA não são, em nenhum sentido, uma organização marxista que representa os interesses da classe trabalhadora ou luta por uma política socialista genuinamente revolucionária.

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