América Latina, no epicentro da pandemia de COVID-19, à beira da explosão social

Por Tomas Castanheira
12 Setembro 2020

A pandemia de COVID-19 produziu condições devastadoras em toda a América Latina. Na terça-feira, a região atingiu o sinistro marco de 300.000 mortes por COVID-19 e, na quinta-feira, superou os 8 milhões de casos.

O país mais atingido, em números absolutos, é o Brasil, o mais populoso da região. É o terceiro país no mundo em número total de casos, superado apenas pela Índia e Estados Unidos, e o segundo em número de mortes, atrás dos EUA. Já confirmou mais de 4,2 milhões de casos e 130.000 mortes. Na sequência do Brasil, o México registra cerca de 650.000 casos e quase 70.000 mortes, o quarto maior número de óbitos por COVID-19 no mundo.

Coveiros abriram no mês passado valas comuns no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus, para dar conta do aumento do número de mortes por coronavírus. (AP Photo/Felipe Dana)

A taxa de mortalidade do coronavírus na região é aterradora. Apesar de representar 10% da população mundial, a América Latina responde por um terço de todas as mortes de COVID-19. O Peru alcançou o status de país com maior número de mortes de COVID-19 por habitante, com mais de 30.000 mortos em uma população de cerca de 32 milhões. A lista mundial dos dez países com maiores índices de mortes de COVID-19 por habitante também inclui Chile, Brasil, Bolívia e Equador.

Esse terrível resultado é consequência de políticas absolutamente criminosas de combate ao vírus promovidas pelos governos capitalistas, combinadas às péssimas condições estruturais preexistentes.

Os índices de testagem na região estão entre os mais baixos do mundo, impedindo tanto o rastreamento de contatos, como estimativas realistas da disseminação do vírus. O México realizou somente 11.462 testes por milhão de habitantes e a Argentina 32.816, de acordo com o Worldometer. Os Estados Unidos, que estão longe de um nível adequado de testagem, realizaram 271.552 testes por milhão de habitantes.

Os precários sistemas de saúde, com médicos e enfermeiros trabalhando sem equipamentos de segurança, resultaram em níveis gritantes de contaminação entre trabalhadores da saúde. O México é o país que registra o maior número de profissionais da saúde mortos por COVID-19 no mundo, mais de 1.400. O Brasil está em quarto, com mais de 600. O Ministério da Saúde da Bolívia fala em 200 profissionais da saúde mortos, mas há estimativas quatro vezes maiores.

A falta de estrutura nos hospitais, especialmente de respiradores adequados ao tratamento da COVID-19, foi agravada por desvios criminosos de verbas destinadas ao combate à pandemia. Casos de corrupção governamental, ligados a superfaturamento na compra de equipamentos de saúde, vieram à tona no Brasil, México, Bolívia e Equador.

Diante do fechamento de escolas, que afetou 165 milhões de alunos na região, os governos foram incapazes de providenciar estrutura adequada ao ensino a distância. Somente oito dos 33 países da região providenciaram algum dispositivo tecnológico aos alunos. Entre as famílias mais pobres da região, somente 10% a 20% tem acesso a um computador, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da ONU (CEPAL).

O imenso sofrimento provocado pela doença acelerou um rebaixamento brutal das condições de vida de amplas camadas da população trabalhadora latino-americana. Um relatório da CEPAL aponta uma explosão da pobreza na região em 2020. Mais de um terço da população enfrentará desemprego e insegurança alimentar.

O índice oficial de desemprego na América Latina atingirá 13,5% até o final do ano, um crescimento de 5,4% em relação a 2019. O número total de desempregados aumentará de 26,1 milhões a 44 milhões. Este é um impacto substancialmente maior do que o registrado após a crise financeira mundial de 2008, quando o desemprego aumentou 0,6 pontos percentuais, de 6,7% em 2008, a 7,3% em 2009.

É esperado que o total de latino-americanos vivendo em situação de pobreza cresça de 186 milhões a 231 milhões. "Calculamos que oito entre 10 pessoas na região – e estamos falando de 491 milhões de pessoas – viverão com uma renda até três vezes superior à linha de pobreza. Isso significa que 491 milhões de pessoas viverão com menos de US$500 por mês", afirmou a secretária executiva da CEPAL Alicia Bárcena à Foreign Policy.

O choque na economia da América Latina produzirá uma contração de 9,1% do seu PIB em 2020. Somente o setor de turismo já contabiliza US$230 bilhões em perdas com o fechamento das fronteiras. Isso é o equivalente a duas vezes e meia o PIB de um país como a Bolívia.

Se para a população trabalhadora da América Latina o período atual representa terríveis privações, para a oligarquia capitalista é um momento de festa. De março, quando a pandemia atingiu a região, até julho, a fortuna dos 73 bilionários latino-americanos cresceu US$48,2 bilhões, reportou a organização humanitária Oxfam.

No Brasil, enquanto quase dez milhões de trabalhadores perdiam seus empregos e outros milhões sofriam duros cortes salariais, a renda combinada dos 42 bilionários brasileiros crescia de US$123,1 bilhões a US$157,1 bilhões. O que essa oligarquia parasitária faturou num período de cinco meses de pandemia, US$34 bilhões, é US$11 bilhões a mais do que o investido pelo governo brasileiro na saúde em todo o ano de 2019.

Itapevi, São Paulo, Brasil [Crédito: Felipe Barros/ExLibris/PMI]

O Comitê Internacional da Quarta Internacional definiu a pandemia da COVID-19 como um evento desencadeador, que fez saltar as profundas contradições econômicas, sociais e políticas do sistema capitalista mundial. A desigualdade social, uma característica dominante deste sistema, está sendo alavancada mundialmente e, em particular, na América Latina, a região mais desigual do planeta.

Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora internacional está manifestando seu descontentamento com a situação numa crescente onda de radicalização política.Os protestos de massas contra a desigualdade social ocorridos no Chile e Equador entre outubro e novembro de 2019 anunciaram a tendência política que, cada vez mais, dominará a região e o mundo.

Os trabalhadores latino-americanos responderam às condições impostas pelas elites dominantes e seus governos diante da pandemia com uma série de greves selvagens em diferentes setores da classe trabalhadora, de entregadores de aplicativo a enfermeiros, que se espalhou pela região, do México ao Brasil.

Trabalhadores e camponeses saíram às ruas na Bolívia e se enfrentaram com o regime do golpe de Jeanine Áñez, exigindo sua queda e o fim das condições de fome impostas por sua violenta e desastrosa quarentena. Revoltas contra as políticas de fome estouraram também nos bairros empobrecidos da classe trabalhadora no Chile.

Nesta semana, o assassinato de um trabalhador pela polícia na Colômbia provocou o estouro de protestos combativos pelo país. A repressão brutal promovida pelo governo de extrema-direita do presidente Iván Duque, deixando dez mortos e centenas de feridos, fez somente crescer a revolta popular.

A escalada da violência estatal é a resposta desesperada das elites dominantes latino-americanas ao crescimento de conflitos sociais que se apresentam, mais e mais, como um confronto aberto entre duas classes sociais com interesses irreconciliáveis. De um lado, uma elite bilionária e seus Estados corruptos e violentos e, de outro, as massas trabalhadoras cada vez mais empobrecidas e descontentes com a ordem social vigente.

Nesta batalha, políticos burgueses aparentemente antagonistas como o presidente brasileiro fascistóide Jair Bolsonaro e o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, representante dos governos da "Maré Rosa" e ídolo da pseudoesquerda, dão as mãos contra a classe trabalhadora, espalhando mentiras e desorganizando o combate à pandemia, enquanto forçam os trabalhadores a locais de trabalho contaminados para gerar lucros e garantir os privilégios da oligarquia capitalista.

Mas a força da classe trabalhadora articulada como ente político independente é muito superior. A grande questão colocada aos trabalhadores latino-americanos é a construção de uma direção revolucionária que unifique-os entre si e a seus companheiros internacionais, e conduza sua luta à derrubada do sistema capitalista e reorganização da sociedade com base em políticas socialistas.

 

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