"A pandemia ainda não acabou"

Enfermeira paraense fala contra o fechamento de hospital da COVID e demissão de 300 funcionários

Por Tomas Castanheira
19 Outubro 2020

O governo do Pará anunciou na semana passada o fechamento de dois centros de referência no tratamento da COVID-19. Ambos, o Hospital de Castelo dos Sonhos e o Hospital Regional de Castanhal, haviam acabado de ser inaugurados entre junho e julho e encerraram subitamente suas atividades.

Os cerca de 300 trabalhadores do Hospital Regional de Castanhal realizaram um protesto na última quinta-feira, logo após receberem a notícia de que foram todos demitidos pela empresa contratada para administrar a unidade. Eles exigem seus empregos de volta e reivindicam o pagamento de dois meses de salários atrasados.

O World Socialist Web Site conversou com Gleyce Cristina, uma das enfermeiras que esteve à frente do protesto de quinta-feira, organizado de forma independente pelos trabalhadores. Uma foto de Gleyce erguendo um cartaz que diz "ontem éramos heróis, hoje fomos demitidos" foi compartilhada centenas de vezes nas redes sociais.

Trabalhadores do Hospital Regional de Castanhal protestam por seus empregos, 15 de outubro.

Gleyce contou ao WSWS que ela e seus colegas foram contratados em junho, cerca de um mês após o governo do estado do Pará ter admitido o colapso total de seu sistema de saúde. Castanhal, uma cidade de cerca de 200.000 habitantes no nordeste do estado, foi um dos focos desse colapso.

"O [Hospital Regional de Castanhal] já está sendo construído há mais de dez anos", disse Gleyce. "Só depois de muitas pessoas baterem na tecla, depois de muitos terem morrido, eles inauguraram o quarto andar para a COVID.

"Logo que abriu a situação estava bem tensa. Eles deram um prazo até dezembro para a unidade funcionar como centro de tratamento da COVID. Nós estamos em outubro e já fechou. Mas a pandemia ainda não acabou."

Ela alertou para a situação ainda preocupante da pandemia de COVID-19 no Brasil, que já acumula mais de 5,2 milhões de casos confirmados e mais de 150.000 mortes. Cerca de 500 brasileiros seguem morrendo todos os dias pela doença.

"Quando o hospital estava aberto, não parava de chegar gente", ela disse. "Sempre havia paciente. Tinha uma paciente internada lá que falou que a doença acabou de chegar na sua cidade".

A Secretaria de Saúde de Belém (Sesma) divulgou dados recentes que apontam para um assustador crescimento no número de casos suspeitos de COVID-19 na capital do estado. Hospitais registraram, entre 12 e 16 de outubro, um aumento de 112% nos casos de síndrome respiratória aguda.

Mas a postura de Gleyce diante da pandemia é radicalmente oposta à do governo do Pará, liderado por Helder Barbalho do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Explicando os motivos do fechamento dos hospitais, o secretário de saúde Rômulo Gomes declarou: "Levamos em consideração a zona amarela de bandeiramento em que essas unidades se encontram".

Gleyce Cristina, em foto que repercutiu nas redes sociais.

Essa medida é parte da política irresponsável e homicida do governo paraense e de toda a classe dominante brasileira. Barbalho liberou, desde setembro, a reabertura de escolas e tenta forçar a volta às aulas nas escolas públicas estaduais, enfrentando a resistência dos educadores. Gleyce posicionou-se firmemente contra a reabertura de escolas: "Nem nós da saúde temos vacina para tomar, está muito cedo para acontecer isso".

Há ainda outro fator por trás do fechamento das unidades. O governo de Barbalho está sob investigação federal por desvios de recursos da Saúde, que se intensificaram durante a pandemia de COVID-19. Isso envolve diretamente a contratação das chamadas organizações sociais para a gestão de hospitais públicos, como o de Castanhal.

Ao deflagrar uma operação da Polícia Federal na terça-feira, o Ministério Público Federal declarou: "Helder Barbalho tratava previamente com empresários e com o então chefe da Casa Civil sobre assuntos relacionados aos procedimentos licitatórios que, supostamente, seriam loteados, direcionados, fraudados, superfaturados".

Gleyce contou que ela e seus colegas foram contratados com a garantia de que seus empregos seriam mantidos mesmo após a operação de combate à COVID-19, quando o hospital funcionasse como centro de oncologia e traumatologia. "Muitos amigos entregaram anos de outros empregos. Tem pais de família desesperados.

"Foi só depois da mídia começar a falar que o hospital iria fechar que eles sentaram para conversar com a gente e informaram que estávamos demitidos. Sem ter aviso prévio, sem nada. A folha de pagamento fechou no dia 15, estamos com dois meses de salários atrasados.

"Nós queremos nosso emprego, eles disseram que a gente não iria sair. É um descaso total com a vida. Eu tenho amigos que saíram da empresa e estão doentes em casa. Os últimos foram uma moça da limpeza e um enfermeiro, que no último plantão descobriu que estava com COVID.

"E agora, como eles vão se cuidar, sem dinheiro? E onde eles vão se cuidar, se fechou o hospital? Não era para fechar, a COVID não acabou, nem chegou uma vacina."

Mas os ataques enfrentados pelos profissionais de saúde do Pará, declarou Gleyce, não são um episódio isolado: "O que está acontecendo comigo e com meus amigos é o que acontece com muitos. A gente lutou, demos nosso sangue lá dentro, arriscando nossas vidas. Muitas vezes trazendo o vírus para dentro de casa. Chamavam a gente de linha de frente, heróis, e na hora de demitir não tiveram nem um pingo de pena".

Esses trabalhadores serão lançados às crescentes fileiras de desempregados no Brasil, que alcançaram recordes históricos durante a pandemia de COVID-19. Cerca de 10 milhões de trabalhadores perderam seus empregos no país e, pela primeira vez em décadas, mais da metade da população em idade de trabalhar está desempregada.

Gleyce disse: "Infelizmente, não temos ninguém para lutar por nós. A gente não tem nenhum representante, é só a nossa voz. Queríamos uma resposta do governo, que ele garantisse o nosso emprego, mas ele não responde. Os jornais prometeram ajudar, mas não houve resposta".

Referindo-se ao Conselho Regional de Enfermagem (Coren), que reivindica ser o representante dos interesses dos enfermeiros, Gleyce disse: "Do Coren ainda nem ouvi falar. Certamente eles ficaram sabendo do que aconteceu com a gente, pois teve grande repercussão, mas nem o Coren está por nós. Só sei que todo ano tem que pagar, mas Coren que é bom nada".

Por outro lado, Gleyce relatou que, "em termos de compartilhamento nas redes sociais, tivemos muitas respostas". Segundo ela, a maior parte do apoio vem de trabalhadores que estão passando pela mesma situação.

Ela respondeu com entusiasmo ao saber sobre o número crescente de greves e manifestações de profissionais de saúde ao redor do mundo, como as que varreram o Chile e a Argentina há menos de um mês. E ela concordou com a perspectiva defendida pelo WSWS, de que os trabalhadores formem comitês de base independentes dos sindicatos para representar a si mesmos e coordenar suas lutas internacionalmente.

Gleyce concluiu a entrevista com uma mensagem a todos os trabalhadores: "Estamos discutindo como continuar essa luta. Não vai acabar assim, não; a gente está brigando pelos nossos direitos".

 

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