Protestos fascistas exigem anulação das eleições presidenciais na Bolívia

Por Tomas Castanheira
4 Novembro 2020

Publicado originalmente em 3 de novembro de 2020

A menos de uma semana da posse de Luis Arce do MAS como presidente da Bolívia, grupos fascistas e de extrema-direita estão promovendo manifestações pelo país exigindo a anulação das últimas eleições e a tomada do poder pelos militares.

Na noite desta segunda-feira, uma assembleia convocada pelo grupo fascista União Juvenil Cruceñista (UJC) reuniu milhares de pessoas no centro de Santa Cruz de la Sierra, a maior cidade da Bolívia e principal polo da oposição de direita do país. A assembleia determinou os seguintes pontos: anulação das eleições e auditoria do processo eleitoral, impedimento da posse do novo presidente, bloqueio das instituições estatais e exigir que os militares "cumpram seu papel constitucional", isto é, que tomem controle do Estado.

Manifestação de direita em Santa Cruz de la Sierra, 2 de novembro (Crédito: Twitter)

A assembleia golpista realizada em Santa Cruz foi saudada pela presidente autoproclamada Jeanine Áñez, que tuitou na manhã seguinte: "A assembleia cruceña serve de lição para os masistas: Arce ganhou mas não poderá governar pelo abuso". Essa é uma perigosa ameaça vindo de quem preparou os militares para um possível golpe nestas eleições, e expressa o grau de instabilidade política que se mantém na Bolívia.

Acusações de fraude eleitoral, feitas apenas pelos chamados Comitês Cívicos e seus "grupos de choque", como a UJC, foram insuficientes para mobilizar forças imediatamente após as eleições, ocorridas em 18 de outubro. A clara vitória de Luis Arce foi reconhecida quase prontamente pelo regime do golpe de Jeanine Áñez e, em seguida, até pelo candidato da ultradireita de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho.

Manifestações pela anulação das eleições convocadas pela UJC não tiveram adesão inicial, mas subitamente ganharam força na quarta-feira passada, após uma decisão tomada na Assembleia Legislativa. Tendo ampla maioria de deputados do MAS, a assembleia votou pela modificação do seu próprio regulamento, derrubando a maioria necessária de dois terços, substituindo-a por maioria simples, para a aprovação de uma série de temas, entre eles a promoção de policiais e militares.

Denunciada primeiro pela bancada da Unidad Demócrata (UD), a decisão logo tornou-se o cavalo de batalha de toda a oposição de direita. A deputada da UD, Claudia Mallón afirmou que o MAS buscava "uma vingança contra de a Polícia e os militares".

O segundo colocado nas eleições presidenciais, Carlos Mesa da Comunidad Ciudadana (CC), anunciou que, caso o MAS não retroceda na "decisão dos dois terços", não comparecerá à cerimônia de posse de Arce, na prática deslegitimando o novo governo. O advogado da CC, Carlos Alarcón afirmou que as modificações "são um atentado sorrateiro contra a democracia e o estado de direito".

Camacho tomou novamente a ofensiva e gravou uma declaração dizendo: "A retirada [da regra] dos dois terços é um claro indício que Luis Arce governará de acordo com o mesmo estilo autoritário do masismo". E conclamou: "vem aí novas lutas para defender a democracia que o MAS volta a ferir e pisotear".

O atual presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, Rómulo Calvo, sucessor de Camacho neste posto, caracterizou a medida como mais outro "golpe" do MAS e anunciou uma greve de fome em frente à Assembleia Legislativa.

Alavancados por esse apoio político, protestos encabeçados pelos fascistas em Santa Cruz e outras cidades grandes como La Paz e Cochabamba passaram a exigir não apenas a anulação do voto que derrubou a regra dos "dois terços", como a anulação das eleições presidenciais. Lideradas pela UJC e sua "prima" de Cochabamba, a Resistência Juvenil Cochala (RJC), gritavam palavras de ordem como: "Se não houver anulação, não haverá posse!", e "Não, não, não, não tenho vontade de viver numa ditadura como a venezuelana".

Em Santa Cruz, uma vigília nas portas da Oitava Divisão do Exército exigindo a tomada do poder pelos militares, que já vinha acontecendo há dias, cresceu de tamanho na quarta-feira, segundo o jornal Página Siete. Bloqueios também foram erguidos em dezenas de pontos de Santa Cruz e alguns locais de Cochabamba.

Os protestos se intensificaram e foram mais violentos na sexta-feira. Em Cochabamba, manifestantes, supostamente membros da RJC, tentaram derrubar o portão e ocupar a Unidade Tática de Operações Especializadas, onde foi iniciado um motim policial durante o golpe de 2019 contra Evo Morales.

Na mesma noite, um grupo de sete jornalistas de diferentes emissoras relatou ter sido atacado verbalmente e detido durante cerca de10 minutos por esses manifestantes. Jornalistas do Opinión também disseram ter sido rodeados e aterrorizados por membros da RJC. No dia seguinte, oito membros da RJC foram presos por um terceiro incidente, envolvendo a destruição de veículos de supostos apoiadores do MAS. Os detidos portavam explosivos, uma bazuca artesanal e outras armas.

Enquanto seus braços paramilitares agiam nas ruas, os Comitês Cívicos lançaram um apelo por uma auditoria internacional do processo eleitoral, que foi apoiado quase imediatamente pela Igreja Católica, também apoiadora do golpe de 2019. Essa exigência, completamente infundada, serve apenas como meio de legitimação das manifestações fascistas que exigem um novo golpe.

Significativamente, um membro importante do governo de Áñez respaldou o apelo pela revisão dos resultados eleitorais. O ministro das Obras Públicas, Iván Arias declarou neste sábado: "O que Santa Cruz e, penso eu, todo o país está pedindo é uma auditoria, e acho melhor que o Corpo Eleitoral ordene uma auditoria rápida e imediata com observadores internacionais".

Em mais uma provocação política, Áñez convidou para a cerimônia de posse de Luis Arce o fantoche de Washington, autodeclarado "presidente interino" da Venezuela, Juan Guaidó. O presidente derrubado do MAS, Evo Morales, não foi convidado.

O clima crescente de violência política que marca o período pós-eleitoral na Bolívia manifestou-se no obscuro assassinato de Orlando Gutiérrez, secretário executivo da Federação Sindical de Trabalhadores Mineiros da Bolívia e militante do MAS. Gutiérrez, que já havia sofrido outros ataque, foi espancado quando voltava para casa nos dias posteriores às eleições, no que parece ter sido um assassinato premeditado pela extrema-direita. Ele foi internado com traumatismo craniano numa clínica em La Paz em 22 de outubro e morreu dias depois.

O ministro de Governo Arturo Murillo, uma das figuras mais brutais do regime do golpe, espalhando calúnias para encobrir os motivos reais do assassinato, disse que Gutiérrez "farreou por dois dias e então foi atacado". Ele continuou: "Falam que ele estava com outros dirigentes mineiros, muitos dizem … que estavam brigando por cargos num ministério que lhes ofereceram, e aí ocorreu a agressão".

Essa violência fascista é capaz de crescer graças à política do MAS. Desde o golpe de novembro de 2019, os líderes do MAS trabalharam pela desarticulação dos trabalhadores e camponeses resistindo nas ruas, e por um acordo com os militares e os setores mais reacionários da burguesia boliviana.

Numa entrevista a seus apoiadores pseudoesquerdistas de classe média da Jacobin, o proeminente líder do MAS, Andrónico Rodriguez, deixou claro que, tendo ganho as eleições, seu partido manterá a mesma atitude covarde e continuará suas traições à classe trabalhadora. Afirmou que o governo de Arce "representa a todos os setores", entre os quais inclui a "extrema direita". Ele disse: "Esperamos conseguir orquestrar uma espécie de unidade entre todos, que seja possível estabelecer políticas de Estado para que, finalmente, a Bolívia saia ganhando, apesar das colorações políticas de cada um".

A vitória eleitoral do MAS, como os recentes acontecimentos deixam claro, não eliminou os as ameaças ditatoriais colocadas pelos fascistas. Arce sobe ao poder com a promessa de formar um governo de "unidade nacional" e trabalhar pela "pacificação do país", ou seja, suprimir a luta da classe trabalhadora boliviana, enquanto acomoda sua gestão às forças políticas que buscam, desde já, derrubar sua presidência.

 

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