MAS denuncia atentado a dinamite contra presidente eleito da Bolívia, Luis Arce

Por Tomas Castanheira
7 Novembro 2020

O Movimiento al Socialismo (MAS) fez uma denúncia de que o presidente recém-eleito, Luis Arce, sofreu um atentado a bomba na noite de quinta-feira enquanto participava de uma reunião na sede do partido em La Paz, capital da Bolívia. A explosão não deixou nenhum ferido.

Luis Arce (Crédito: Casa de America)

O episódio foi reportado esta manhã pelo porta-voz do MAS, Sebastián Michel, às redes nacionais Televisión Universitaria e Red Uno. Ele afirmou: "Fomos vítimas de um grupo que plantou dinamite na casa de campanha onde nosso presidente eleito, Luis Arce, estava em reunião".

A apenas dias da cerimônia de posse de Arce, que ocorrerá no domingo, o regime do golpe da presidente autoproclamada Jeanine Áñez não se pronunciou em relação ao grave episódio, que aparenta ter sido uma tentativa de assassinato do presidente eleito.

De acordo com Michel: "Não vimos nenhuma declaração do ministro de Governo Arturo Murillo; portanto, sentimos que estamos à mercê de nós mesmos, totalmente desprotegidos sem ninguém nos dar a garantia necessária de segurança a nossa autoridade".

A mídia boliviana também praticamente não reportou o acontecimento. Num esforço de descartar sumariamente a acusação feita pelo MAS, o jornal de Santa Cruz, El Deber, publicou uma matéria com o título: "Policia descarta uso de dinamite em 'atentado' à casa de campanha do MAS".

No artigo, El Deber dá o caso como encerrado com base em uma declaração completamente vaga do diretor departamental da Força Especial de Luta Contra o Crime (Felcc), Alfredo Vargas. Vargas afirmou que "há um relato de bombeiros mencionando que não se trata de um artefato explosivo, se trataria de fogos de artifício".

O atentado contra Arce ocorreu no mesmo dia em que grupos fascistas e de extrema direita iniciavam novas jornadas de protestos e "paralisações civis" pelo cancelamento das eleições presidenciais e anulação de uma medida recém-aprovada que derruba a necessidade de maioria de dois terços para certas votações na Assembleia Legislativa.

Os protestos foram convocados nas cidades de Santa Cruz, Cochabamba e Potosí pelos Comitês Cívicos de cada uma dessas cidades. Em La Paz, onde ocorreu uma manifestação de cerca de 300 pessoas, o Página Siete noticiou que "um grupo que protestava contra o resultado das eleições passou pelo lugar [onde teriam sido plantados os explosivos]".

As manifestações desta quinta e sexta-feira dão continuidade aos protestos que vêm ocorrendo desde a semana passada, encabeçadas pelos Comitês Cívicos e, principalmente, por seus braços armados, como a União Juvenil Cruceñista e a Resistência Juvenil Cochala (RJC).

Em Santa Cruz de la Sierra, a maior cidade da Bolívia e centro da oposição de direita, os protestos golpistas ganharam apoio direto do governo departamental. O secretário geral do governo, Roly Aguilera, declarou: "O governo não vai apenas acatar, mas será parte ativa da mobilização do Comitê. Rechaçamos qualquer tentativa de minar a democracia. Temos que nos redirecionar em Santa Cruz como uma só voz."

A mobilização golpista de direita, que se baseia acusações completamente infundadas de fraude eleitoral, recebeu outro forte impulso vindo do próprio Tribunal Supremo Eleitoral (TSE). A porta-voz do TSE, Rosario Baptista, enviou na quinta-feira uma carta à Organização dos Estados Americanos (OEA), exigindo a auditoria de um suposto "bloco de dados alternativo … fora do alcance daqueles que até agora verificaram a integridade deste registro e que nesta e outras eleições pode ter induzido ou condicionado o resultado final".

Rosario retirou suas alegações absurdas no dia seguinte, mandando uma nova carta à OEA dizendo que "não questiona especificamente o resultado do processo eleitoral de 18 de outubro de 2020". Sua ação serviu, contudo, para fomentar a conspiração e a violência fascista.

A resposta do MAS à escalada de violência política neste período pós-eleitoral – que incluiu o assassinato do dirigente sindical mineiro Orlando Gutiérrez, ao que tudo indica, pela extrema-direita – é reforçar seus apelos pela "unidade nacional" e "pacificação do país".

Na quarta-feira, enquanto os fascistas organizavam manifestações para derrubar sua presidência, Arce tuitou: "É tempo de unidade, para reconstruir e viver em paz. Não respondamos a provocações". O mesmo apelo foi repetido por Evo Morales respondendo ao atentado à vida de Arce. Morales escreveu no Twitter: "Pequenos grupos tentam gerar um clima de confusão e violência, mas não serão bem sucedidos. Não vamos cair em nenhuma provocação".

O MAS também demonstrou grande apreensão frente à notícia de que um setor do partido, em El Alto, defendera a criação de "milícias armadas" dentro de marcos legais para defender-se de "gente em Santa Cruz que está convulsionando” o país. Na entrevista em que denunciou o ataque a dinamite, Sebastián Michel fez questão de destacar que Arce não permitirá nenhum grupo armado irregular e não permitirá o uso de armas.

O objetivo do MAS é provar para a burguesia boliviana, sua verdadeira base social, que está pronto a reprimir qualquer tentativa de resistência da classe trabalhadora, seja contra a violência fascista, como às medidas de austeridade que o próprio governo Arce irá implementar em nome do conjunto da classe dominante e do capital internacional.

 

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