Milhares protestam no Peru contra impeachment, pandemia e colapso econômico

Por Rafael Azul
13 Novembro 2020

Publicado originalmente em 12 de novembro de 2020

Quarta-feira foi o terceiro dia de protestos massivos por todo o Peru. Milhares se mobilizaram em manifestações contra a crise política, econômica e sanitária que assola esse país sul-americano. Os manifestantes foram recebidos com canhões de água e repressão policial.

Na segunda-feira, 9 de novembro, o Congresso do Peru retirou o presidente Martín Vizcarra do cargo. No dia seguinte, Vizcarra foi substituído por Manuel Merino, presidente do Congresso. Várias cidades foram palco de manifestações contrárias ao afastamento de Vizcarra. Merino será presidente até próximas as eleições, em 11 de abril de 2021, ao mesmo tempo em que seguirá presidindo o Congresso.

Manifestantes confrontam polícia em Lima

Merino é o terceiro presidente no período de um mandato presidencial; Pedro Pablo Kuczynski, predecessor de Vizcarra, foi eleito em 2016.

Merino defendeu a ação do Congresso, definindo-a como um "processo de transição democrática" para proteger a nação peruana e declarou que os votos da assembleia "não foram comprados" e seguiram o devido processo.

Vizcarra havia sofrido um impeachment por "incapacidade moral permanente". Alegou-se que ele recebeu propinas ligadas a projetos de construção civil entre 2011 e 2014, quando Vizcarra era governador da província de Moquegua, no sul do país. As acusações se baseiam em acordos de delação premiada de outros réus, sem que nenhum julgamento ou mesmo investigação tenham sido realizados.

A remoção de Vizcarra foi resultado da segunda tentativa de impeachment feita pelo legislativo. Uma tentativa de impeachment há dois meses, alegadamente por "tráfico de influência", não obteve os dois terços de votos necessários.

O Departamento de Estado dos EUA indicou que funcionários do governo americano estavam "acompanhando os eventos de perto".

"Esperamos que as instituições peruanas mantenham a Constituição e o Estado de Direito", declarou um porta-voz. "Observamos que as eleições nacionais estão agendadas para abril. Como uma região de democracia e prosperidade, pedimos aos peruanos que continuem a perseguir seus objetivos políticos através de um processo pacífico, legal e democrático".

Irônica e hipocritamente, a declaração veio no mesmo dia em que o Secretário de Estado Mike Pompeo afirmou a uma conferência de imprensa do Departamento de Estado que haveria uma "transição suave para um segundo mandato Trump", apoiando a tentativa da Casa Branca de reverter os resultados das eleições presidenciais americanas.

A declaração do Departamento de Estado americano está mais relacionada a seu desejo de reprimir a reação popular à remoção de Vizcarra do que a qualquer defesa genuína do processo democrático.

Em Lima, capital do Peru, a decisão de substituir Vizcarra por Merino levou muitos às ruas. Na segunda-feira à noite e na terça-feira, multidões marcharam e se mobilizaram para protestar contra a nomeação de Merino. Uma passeata na terça-feira ao longo das ruas do centro de Lima foi bloqueada para não chegar ao edifício do Congresso. No decorrer de dez horas de protestos, dezenas de pessoas foram presas e várias foram feridas pela polícia.

Também estão ocorrendo protestos nas cidades de Ayacucho, Cusco, Trujillo, Piura e Iquitos, centros de mineração e indústria.

Embora Vizcarra tenha negado todas as acusações contra ele, a corrupção política na elite governante peruana é endêmica. O próprio Vizcarra tornou-se presidente após a renúncia de Kuczynski, em março de 2018, motivada por acusações de corrupção envolvendo a gigante da construção civil brasileira Odebrecht. Quase todos os ex-presidentes peruanos vivos estão implicados em investigações de corrupção.

A remoção de Vizcarra foi apoiada por todos os partidos políticos representados no Congresso peruano. Sessenta e oito dos votantes (de um total de 130 parlamentares) foram, eles mesmos, acusados de corrupção e estão impedidos de concorrer novamente ao cargo.

A destituição de Vizcarra e a nomeação de Merino ocorrem no contexto de aprofundamento da crise social e econômica. Além de ter seu governo sacudido por acusações de corrupção, o Peru é um epicentro da pandemia de COVID-19, com a maior taxa de mortalidade per capita da doença nas Américas.

Enquanto os políticos peruanos continuam a enriquecer em troca de serviços à oligarquia financeira do país e ao capital estrangeiro, o Peru entra em colapso. Em agosto deste ano, o produto interno bruto do Peru havia diminuído 30%; o desemprego é 40% maior do que em 2019. Muitas empresas declararam falência e a crise econômica do Peru ainda não chegou ao fim.

O turismo declinou 90%, a construção civil 67% e a mineração 37%.

Como seu predecessor, Vizcarra governou como um inimigo da classe trabalhadora e agente dos cartéis da mineração. Em junho, após três meses de lockdown, sem conseguir controlar o coronavírus e sob pressão da classe dominante, Vizcarra abriu a economia provocando efeitos devastadores. Os hospitais esgotaram seus recursos; o índice de novos casos e mortes continua a aumentar. Um regime liderado por Merino somente aprofundará os ataques à classe trabalhadora peruana.

 

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