Bolsonaro amplia campanha de imunidade de rebanho em meio a novo surto de COVID-19

Por Eduardo Parati
1 Dezembro 2020

Publicado originalmente em 27 de novembro de 2020

O surto de novas infecções e mortes pela COVID-19 está acontecendo em meio às campanhas eleitorais municipais em todo o Brasil e à contínua campanha pela reabertura das escolas e dos locais de trabalho.

A pandemia está acelerando novamente no país, tendo registrado um aumento da média semanal de óbitos de 29% em relação a duas semanas atrás, alcançando uma média diária de aproximadamente 500 óbitos. Nos últimos dias, o número de mortes diárias cresceu continuamente até chegar a 700.

Fechamento do Hospital de Campanha do Ibirapuera em setembro (Crédito: Governo do Estado de São Paulo)

Com exceção do Paraná, todos os estados das regiões Sudeste e Sul, onde mora mais da metade da população, registraram uma aceleração da média móvel de óbitos, com uma alta de 132% no Rio de Janeiro, 93% em Minas Gerais, e 39% em São Paulo. O Amazonas, onde o Tribunal Regional Eleitoral determinou que as pessoas contaminadas poderiam ir às urnas no primeiro turno, registrou um aumento de 32% na média móvel de mortes diárias.

Estados de todas as regiões do país tiveram registro de aumento ou estabilidade da média móvel. No Ceará, governado por Camilo Santana do Partido dos Trabalhadores (PT), a média móvel aumentou em 74%.

Apesar das referências ao início de uma segunda onda no Brasil, na realidade não houve período de verdadeira contenção da doença no país. A média móvel permaneceu acima de 500 mortes diárias durante a maior parte do ano, tendo caído abaixo dessa marca pela primeira vez somente em 15 de outubro. Sob o impacto do aumento nos óbitos desde o fim de outubro, a média móvel já superou novamente as 500 mortes diárias na semana passada. Além disso, a média diária de novos casos permaneceu acima de 20 mil durante toda a pandemia com exceção da primeira semana de novembro. Ela está em torno dos 30 mil novos casos desde 15 de novembro e continua aumentando.

Vários meses após a reabertura da economia, levada adiante por governadores de todos os estados, incluindo aqueles governados pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), não sobraram sequer as medidas limitadas de contenção e tratamento da COVID-19 que foram levadas adiante durante o primeiro surto.

O número de testes realizados no Brasil foi insuficiente durante a pandemia, com uma taxa de positividade de 29,3% no início de novembro, quase seis vezes maior do que os 5% necessários para acompanhar a propagação do vírus. No domingo, foi noticiado pelo Ministério da Saúde que existem quase 7 milhões de testes estocados faltando menos de dois meses para o seu vencimento. O Conselho Nacional de Secretários da Saúde (CONASS) declarou que o governo federal não havia fornecido os insumos necessários para realizar a primeira etapa do teste, de coleta de amostras da população.

Diante do início da segunda onda de COVID-19 e da declaração do Ministro da Economia, Paulo Guedes, de que “do ponto de vista do governo, não existe prorrogação” do auxílio emergencial do governo federal, a resposta do governo Bolsonaro é a promoção do chauvinismo contra a China e a incitação de um movimento anti-vacina.

Após o anúncio do general Eduardo Pazuello, atual ministro da Saúde, de que compraria um lote de 46 milhões de vacinas da empresa chinesa Sinovac, desenvolvidas em parceria com o Instituto Butantan de São Paulo, Bolsonaro contrariou imediatamente o ministro. Em uma entrevista, o presidente declarou que “A da China nós não compraremos, é decisão minha” e alegou sem quaisquer provas que “Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população”, acrescentando depois: “A idéia é dar espaço a outras vacinas mais confiáveis”.

Seguindo a linha de propaganda nos círculos de extrema-direita, Bolsonaro insinuou que o vírus foi espalhado deliberadamente: “A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá”.

No início do mês, logo após o noticiamento de que um participante do teste da terceira fase da vacina pelo Instituto Butantan havia morrido, Bolsonaro, respondendo a um apoiador no Facebook, declarou que a vacina causava "Morte, invalidez, anomalia”, acrescentando morbidamente: “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha". Em resposta à confirmação no mesmo dia de que o voluntário havia cometido suicídio, Bolsonaro reafirmou a sua posição, declarando que a morte poderia ter sido provocada por “efeito colateral” da vacina.

O cenário de um sistema de saúde sobrecarregado pela segunda onda da pandemia e incapaz de resistir foi preparado com o fechamento dos hospitais de campanha meses atrás.

Em setembro, o governo estadual de São Paulo fechou o Hospital de Campanha do Ibirapuera, o último do estado, após ter tratado mais de 3 mil pacientes de COVID-19.

No Rio de Janeiro, onde a crise política envolvendo o desvio de verbas durante a compra de equipamentos para a pandemia e a construção de hospitais de campanha levou à queda do governador de ultradireita, Wilson Witzel, o atual governador do Rio, Claudio de Castro do Partido Social Cristão (PSC), declarou na terça-feira que não haverá lockdown e que reativará o hospital de campanha de São Gonçalo. A construção da instalação atrasou por meses e disponibilizou apenas 40 dos 200 leitos planejados antes de ser fechada. Na quinta-feira, Carlos Alberto Chaves, o quarto Secretário de Saúde no estado desde o início da pandemia, afirmou que não haverá reabertura do hospital do Maracanã, montado no campo de futebol do estádio do Maracanã e com capacidade de 400 leitos, declarando ser muito caro manter as instalações.

A falta de quaisquer contramedidas, por mais insuficientes que tenham sido durante o primeiro surto, acaba sendo um alinhamento dos governos estaduais e federal na implementação de uma política que é na prática a imunidade de rebanho.

As cirurgias e os tratamentos que só poderiam ser oferecidos nos hospitais haviam sido suspensos durante o início da pandemia, e estavam sendo realizados nos últimos meses. Uma pesquisa do Instituto Oncoguia revelou que 59% dos pacientes da rede pública de saúde relataram que a pandemia afetou os tratamentos de câncer em março e abril, e esse número foi de 41% em julho. Entretanto, o novo surto de casos está forçando as unidades de saúde a adiar ou cancelar novamente muitos desses tratamentos por falta de leitos. No dia 19 no estado de São Paulo, foi determinado a suspensão do agendamento de novas cirurgias eletivas e que os leitos voltados para pacientes de COVID-19 não fossem fechados.

Os trabalhadores nos hospitais estão trabalhando há meses sem descanso ou férias, tendo que se adaptar às novas condições de isolamento sob o impacto da pandemia, e, em muitos casos, tendo que cuidar de pacientes infectados sem equipamentos de proteção e infra-estrutura adequados.

Em condições de completo despreparo para a segunda onda da COVID-19 e de indiferença ao desgaste dos trabalhadores, a revolta dos trabalhadores da saúde tem se expressado em manifestações e paralisações em todo o país.

No estado de Rondônia, que registrou um aumento de 107% nos casos de COVID-19 em outubro e onde a taxa de ocupação dos leitos de UTI subiu de 38,4% para 59,1% entre outubro e novembro, os enfermeiros e profissionais de saúde, realizaram uma paralisação em todo o estado, exigindo que o governo apresentasse avanços em uma proposta de plano de carreira, cargos e salários (PCCR), cujo prazo expirou no início de setembro. A greve contou com a participação de três sindicatos da categoria, que a finalizaram alguns dias depois com promessas de pressionar o governo para que apresentasse uma proposta. Enquanto isso, o governo declarou que apoiaria o decreto federal deste ano, “que proíbe qualquer reajuste salarial, majoração de remunerações e, inclusive, a implantação de PCCR até janeiro de 2022”.

No capital do Rio de Janeiro, os funcionários do hospital do Bonsucesso, onde ocorreu um incêndio causado por anos de cortes no investimento em saúde, realizaram paralisações denunciando a indefinição das obras de reparo após o incêndio e a transferência obrigatória e sem aviso para outras unidades. Na sexta-feira da semana passada, os funcionários do hospital São João Batista entraram em greve pelo atraso nos salários e pela falta de equipamentos e insumos. Alguns dos equipamentos haviam começado a ser retirados da unidade, gerida por uma Organização Social contratada pelo governo.

No Distrito Federal, os funcionários de limpeza dos hospitais estaduais entraram em greve há duas semanas pelo atraso nos salários. No ano passado, os funcionários haviam denunciado a falta de funcionários nos hospitais, onde os próprios acompanhantes dos pacientes precisavam limpar os corredores e quartos.