O último ano de Trotsky

Parte seis

Por David North
14 Dezembro 2020

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Publicado originalmente em 8 de setembro de 2020

Durante o último ano de sua vida, Trotsky enfrentou questões decisivas de perspectiva histórica levantadas com o início da Segunda Guerra Mundial. Por que a Revolução Russa de 1917 – que havia sido proclamada pelos bolcheviques como o prenúncio da revolução socialista mundial – foi seguida de derrotas da classe trabalhadora na Itália, China, Alemanha e Espanha, para citar apenas os mais relevantes desastres políticos? Por que a Grande Depressão — o maior colapso econômico da história do capitalismo — não levou ao socialismo, mas, em vez disso, ao fascismo e à guerra? Por fim, por que o Estado operário fundado sobre as bases da Revolução de Outubro se degenerou em um monstruoso regime totalitário?

A resposta dada por legiões de intelectuais pequeno-burgueses e de ex-radicais foi que as derrotas provaram a falência do marxismo e de toda a perspectiva da revolução socialista. Em um artigo escrito em março de 1939, Trotsky descreveu a psicologia política e a perspectiva desses setores:

A força não apenas conquista, mas, à sua maneira, "convence". O início da reação não destrói apenas fisicamente os partidos, mas também decompõe moralmente as pessoas. Muitos cavalheiros radicais têm o coração nos sapatos. Eles traduzem o seu medo diante da reação para a linguagem da crítica imaterial e universal. "Algo deve estar errado com as velhas teorias e métodos". "Marx estava equivocado...". "Lenin não conseguiu prever...". Alguns vão ainda mais longe. "O método revolucionário se provou falido". [1]

Os intelectuais desmoralizados concluíram que o maior erro do marxismo foi ter atribuído à classe trabalhadora uma missão revolucionária que ela não seria capaz de cumprir. A causa essencial de todos os desastres dos anos 1920 e 1930 estaria no caráter não-revolucionário da classe trabalhadora.

O documento de fundação da Quarta Internacional começa com um repúdio explícito à perspectiva pessimista e a-histórica dos antimarxistas. O problema fundamental da época da agonia mortal do capitalismo não era a ausência de uma classe revolucionária, mas sim a ausência de uma direção revolucionária capaz de conduzir a classe trabalhadora à conquista do poder.

"A situação política mundial no seu conjunto", escreveu Trotsky, "caracteriza-se, antes de mais nada, pela crise histórica da direção do proletariado". [2]

Leon Trotsky em 1940

Essa conhecida declaração é lida muitas vezes como mero encorajamento, destinado a inspirar os quadros da Quarta Internacional com uma declaração retórica elevada da missão política do partido. Essa interpretação perde o significado real da afirmação, que é um resumo conciso da lição essencial que deveria ser aprendida com as derrotas da classe trabalhadora.

Na segunda tese em Teses sobre Feuerbach, Marx escreveu em 1845: "A disputa sobre a realidade ou não-realidade do pensamento dissociado da prática é uma questão puramente escolástica." [3] Reelaborando esse conceito fundamental do materialismo filosófico no contexto do destino da revolução socialista, a formulação empregada por Trotsky no início do documento de fundação da Quarta Internacional afirma, em essência, que todas as discussões sobre o caráter revolucionário ou não-revolucionário da classe trabalhadora, separadas de um exame da prática dos seus principais partidos e organizações dirigentes, são abstratas, desprovidas de conteúdo político e falsas.

O artigo no qual Trotsky estava trabalhando no momento de sua morte foi dedicado a uma fundamentação do seu conceito de crise da direção. Ele foi intitulado "A classe, o partido e a direção: por que o proletariado espanhol foi derrotado? (Questões da teoria marxista)". O artigo, que termina abruptamente, foi publicado na edição de dezembro de 1940 da revista Fourth International, quatro meses após a morte de Trotsky. Embora incompleto, o artigo – considerado tanto do ponto de vista filosófico-teórico quanto político – está entre as mais profundas explicações da relação dialética entre os fatores objetivos e subjetivos do processo revolucionário na época da agonia mortal do capitalismo.

O artigo de Trotsky foi escrito em resposta ao jornal radical francês Que faire, que havia feito uma crítica hostil a um panfleto intitulado “Espanha traída”. O autor do panfleto era Mieczyslaw Bortenstein, membro da Quarta Internacional, que escreveu sob o pseudônimo de M. Casanova. Bortenstein havia lutado na Espanha, onde testemunhou a sabotagem stalinista da revolução. O panfleto, ao mesmo tempo em que era fundamentalmente influenciado pela análise de Trotsky sobre a Frente Popular e suas críticas à política centrista do POUM, baseava-se nas experiências pessoais do autor na Espanha. Além desse panfleto, há relativamente poucas informações disponíveis sobre as atividades políticas de Bortenstein. Entretanto, sabe-se que ele morreu tragicamente aos 35 anos de idade. Após a tomada da França pelos nazistas, Bortenstein foi preso pelo governo Vichy e eventualmente deportado para o campo de concentração de Auschwitz, onde foi assassinado em 1942.

Bortenstein escreveu seu panfleto após Barcelona, sob o governo da Frente Popular dominado pelos stalinistas, se render, sem resistência, ao exército fascista liderado por Franco. A rendição do que havia sido a fortaleza da revolução operária foi o desfecho da traição promovida pela Frente Popular. Na introdução do panfleto, Casanova-Bortenstein escreveu:

Preciso explicar o que acabou de acontecer, com base na minha própria experiência. Tenho que relatar os fatos. Descreverei como as posições estratégicas de importância crucial foram abandonadas sem luta, como os planos de defesa foram entregues ao inimigo por um gabinete de comando traidor, como a indústria de guerra foi sabotada e a economia foi desorganizada, como os melhores militantes da classe trabalhadora foram assassinados e como os espiões fascistas foram protegidos pela polícia "republicana", para explicar como a luta revolucionária do proletariado contra o fascismo foi traída e a Espanha foi entregue a Franco.

A minha análise e os fatos que vou descrever voltam-se todos ao mesmo tema: a política criminosa da Frente Popular. Somente a revolução operária poderia ter derrotado o fascismo. A política dos líderes republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas serviu para destruir a energia revolucionária da classe trabalhadora. "Primeiro ganhar a guerra, depois fazer a revolução" – essa fórmula reacionária matou a revolução para depois matar a guerra. [4]

Casanova-Bortenstein declarou que era decisivo que as lições da tragédia espanhola fossem aprendidas. "Nem o socialismo nem o marxismo falharam na Espanha, mas sim aqueles que o traíram tão criminosamente". [5]

A crítica hostil ao panfleto de Bortenstein, publicada no Que faire, um jornal produzido por ex-membros dissidentes do Partido Comunista na França, era um exemplo da postura cínica dos centristas pequeno-burgueses. A crítica atacou Bortenstein por se focar nos partidos e políticas responsáveis pela derrota, ao invés de se concentrar nos atributos da classe trabalhadora espanhola – acima de tudo, a sua "imaturidade" – o que a tornava incapaz de derrotar o fascismo. "Somos introduzidos", afirmou Que faire, "no domínio da demonologia pura; o criminoso responsável pela derrota é o demônio-chefe, Stalin, incitado pelos anarquistas e todos os outros diabinhos; o Deus dos revolucionários infelizmente não enviou um Lenin ou um Trotsky para a Espanha como o fez na Rússia em 1917". [6]

Trotsky criticou duramente o ataque do Que faire ao panfleto de Bortenstein. A "altivez teórica" da crítica do Que faire, escreveu Trotsky, "é ainda mais impressionante pelo fato de que é difícil imaginar como um número tão grande de banalidades, vulgaridades e erros típicos do filisteu conservador poderiam caber em tão poucas linhas". [7]

O objetivo central da crítica do Que faire era absolver os partidos, organizações e indivíduos que dirigiam a classe trabalhadora, de toda a responsabilidade pela derrota na Espanha. A culpa pela "política equivocada das massas" não deveria ser atribuída aos seus autores políticos, mas à classe trabalhadora, que, como consequência da sua "imaturidade", estava inclinada a seguir uma linha política incorreta. Esse argumento, concebido pelo autor da crítica do Que faire, era uma desculpa desprezível para os organizadores da derrota. Trotsky escreveu:

Quem estiver atrás de uma tautologia não poderia encontrar uma mais rebaixada. Uma "política equivocada das massas" é explicada pela "imaturidade" das massas. Mas o que é a "imaturidade" das massas? Obviamente, sua predisposição para erros políticos. Em que consistia a política equivocada, e quem foram seus precursores, as massas ou os dirigentes – isso é ignorado silenciosamente por nosso autor. Por meio de uma tautologia, ele descarrega a responsabilidade sobre as massas. Esse truque clássico de todos os traidores, desertores e seus defensores é especialmente revoltante em relação ao proletariado espanhol. [8]

Ainda que os dirigentes da classe trabalhadora espanhola fossem maus – argumentaram os apologistas – não teria sido culpa das massas elas terem seguido os maus dirigentes? Em resposta a esse sofisma pernicioso, Trotsky – fundamentando o testemunho de Bortenstein – apontou que repetidas vezes a classe trabalhadora procurou romper as barreiras políticas erguidas pelos stalinistas, socialdemocratas e anarquistas; e que, sempre que a classe trabalhadora esteve prestes a lançar uma ofensiva, os seus dirigentes traidores empregaram forças em apoio às políticas contrarrevolucionárias. A revolta da classe trabalhadora em Barcelona, em maio de 1937, contra as políticas traidoras do governo da Frente Popular foi suprimida implacavelmente. Trotsky escreveu:

Só ignorando completamente a esfera das inter-relações entre a classe e o partido, entre as massas e os dirigentes, para repetir a afirmação vazia de que as massas espanholas simplesmente seguiram os seus líderes. A única coisa que se pode dizer é que as massas, que procuraram a todo momento abrir caminho para a trajetória correta, não encontraram forças suficientes para produzir, sob o próprio fogo da batalha, uma nova direção que correspondesse às exigências da revolução [9].

Trotsky relembrou o epigrama exaustivamente utilizado de que todo povo recebe o governo que merece. Aplicado à esfera da luta social, esse argumento sustentaria que cada classe recebe a direção que merece. Assim, se os trabalhadores possuem maus dirigentes, é isso que eles merecem; pois são incapazes de formar dirigentes melhores. Trotsky respondeu a esse argumento formal e mecânico.

Na realidade, a direção não é de modo algum um mero "reflexo" de uma classe ou o produto da sua própria livre criatividade. Uma direção é moldada no processo de choques entre as diferentes classes ou no atrito entre as diferentes camadas dentro de uma determinada classe. Uma vez surgida, a direção se eleva invariavelmente acima de sua classe e se torna assim exposta à pressão e à influência de outras classes. O proletariado pode "tolerar" durante muito tempo uma direção que já sofreu uma completa degeneração interna, mas que ainda não teve a oportunidade de expressar essa degeneração em meio aos grandes eventos.

É necessário um grande choque histórico para revelar com clareza a contradição entre a direção e a classe. Os choques históricos mais fortes são as guerras e as revoluções. Precisamente por essa razão, a classe trabalhadora é frequentemente pega desprevenida pela guerra e pela revolução. Porém, mesmo nos casos em que a antiga direção revelou a sua corrupção interna, a classe não consegue improvisar imediatamente a criação de uma nova direção, especialmente se ela não herdou do período anterior quadros revolucionários fortes, capazes de utilizar o colapso do antigo partido-líder. A interpretação marxista, ou seja, a dialética – e não a interpretação escolástica – da inter-relação entre uma classe e a sua direção, não deixa pedra sobre pedra do sofisma legalista do nosso autor. [10]

A crítica burguesa ao marxismo – especialmente na forma como é propagada na academia – afirma que o materialismo filosófico determinista não presta atenção suficiente ao "fator subjetivo" da história. O marxismo, preocupado com a estrutura socioeconômica e de classe da sociedade, não leva em conta a influência da consciência, especialmente nas suas manifestações supra-históricas e irracionais, no desenvolvimento caótico da sociedade. Essa crítica, que atribui ao marxismo uma rígida separação dos fatores objetivos e subjetivos, combina ignorância e distorção com falsificação pura e simples. Um tema central dos escritos de Trotsky durante muitos anos foi o papel crucial do fator subjetivo – atribuindo um significado particular ao papel dos dirigentes políticos – na determinação do resultado das lutas revolucionárias. Em um famoso trecho de um diário que Trotsky manteve em 1935, ele enfatizava o papel decisivo que Lenin havia desempenhado na vitória da Revolução de Outubro. "Se eu não estivesse presente em 1917 em Petersburgo, a Revolução de Outubro ainda teria ocorrido – sob a condição de Lênin estar presente e no comando". [11]

Em sua refutação do Que Faire, Trotsky voltou ao papel de Lenin na Revolução de Outubro. Ele rejeitou a crítica por ela ter substituído o "condicionamento dialético do processo histórico pelo determinismo mecanicista" e por suas "descrições baratas sobre o papel de indivíduos, bons e maus". A luta de classes não se desdobra como um processo supra-humano. Seres humanos reais estão envolvidos e as suas ações desempenham um papel – em alguns casos, um papel decisivo para determinar se a insurreição revolucionária será bem sucedida ou será um fracasso, ou mesmo se, antes de mais nada, ela ocorrerá. "A chegada de Lenin a Petrogrado em 3 de abril de 1917 transformou o Partido Bolchevique a tempo e permitiu que o partido liderasse a revolução para a vitória". [12] Trotsky continuou:

Nossos sábios poderiam dizer que se Lenin tivesse morrido no exterior no início de 1917, a Revolução de Outubro teria acontecido "mesmo assim". Porém, isso não é verdade. Lenin representou um dos elementos vivos do processo histórico. Ele personificou a experiência e a perspicácia da seção mais ativa do proletariado. A sua chegada oportuna na arena da revolução foi necessária para mobilizar a vanguarda e dar a ela a oportunidade de reunir a classe trabalhadora e as massas camponesas. A direção política nos momentos cruciais de virada histórica pode se tornar um fator tão decisivo quanto o papel do comandante nos momentos decisivos da guerra. A história não é um processo automático. Caso contrário, por que líderes? Por que partidos? Por que programas? Por que lutas teóricas? [13]

Em seu panfleto, Bortenstein apontava que todos os partidos e indivíduos cujos erros, e mesmo traições políticas, asseguraram a derrota da Revolução Espanhola declararam em seu desfecho que nenhum outro resultado era possível. "Se ouvirmos as explicações dos dirigentes da Frente Popular, incluindo os anarquistas, e se levarmos essas explicações a sério, tudo o que podemos fazer é nos desesperar e perder a esperança nas capacidades revolucionárias do proletariado, no seu futuro e até mesmo na sua missão histórica". [14] Não faltaram desculpas para a derrota.

De acordo com os nossos democratas pequeno-burgueses da Frente Popular, tudo era inevitável. Os republicanos e os socialistas justificavam a derrota pela superioridade militar dos fascistas, e os comunistas pela existência de uma burguesia pró-fascista (uma descoberta, isto!) que, por sua política de não-intervenção, favorecia Franco. Eles esqueceram de acrescentar que apoiaram o governo Blum, que inaugurou essa política. Os anarquistas justificaram as suas capitulações e as suas repetidas traições com a chantagem exercida pelos russos através das armas que eles enviavam aos republicanos. Quanto ao POUM, ele também se uniu ao coro fatalista e disse: "Éramos muito fracos e tínhamos que seguir os outros e, acima de tudo, não podíamos romper a unidade". Assim, tudo era inevitável. O que aconteceu tinha que acontecer, e foi escrito com antecedência no Alcorão... [15].

Trotsky, em uma magnífica passagem, apoiou integralmente a denúncia feita por Bortenstein, do fatalismo autojustificado daqueles que levaram os trabalhadores espanhóis à derrota:

Essa filosofia impotente, que procura conciliar as derrotas como um elo necessário na cadeia de desenvolvimentos cósmicos, é completamente incapaz de colocar, e se recusa a colocar, a questão de fatores concretos como programas, partidos e indivíduos que foram os organizadores da derrota. Essa filosofia de fatalismo e prostração é diametralmente oposta ao marxismo como a teoria da ação revolucionária. [16]

* * * * *

Trotsky continuou a trabalhar na biografia de Stalin. O último capítulo do volume inacabado é intitulado "Reação termidoriana", em que ele apresenta uma avaliação e um retrato devastadores de Stalin e sua comitiva.

Geralmente, no campo do stalinismo, você não encontrará um único escritor, historiador ou crítico talentoso. É um reino de mediocridades arrogantes. Daí a facilidade com que os marxistas altamente qualificados começam a ser substituídos por pessoas do acaso e de segunda categoria que dominavam a arte das manobras burocráticas. Stalin é a mais notável mediocridade da burocracia soviética. Não consigo encontrar outra definição além desta. [17]

A transformação de Stalin em um "gênio" foi obra da burocracia, que encontrou nele um instrumento brutal na sua luta por privilégios. O mito de Stalin, desenvolvido a partir de mentiras, foi a criação da burocracia. "Esse caráter massivo, orgânico e irreparável da mentira", observou Trotsky, "é a prova inegável de que não se trata meramente de uma questão de ambições pessoais de um indivíduo, mas algo imensamente maior: a nova casta de arrivistas privilegiados precisava da sua própria mitologia". [18]

Todo o desenvolvimento cultural da União Soviética estava sendo sufocado pelo regime burocrático. "A literatura e a arte da época stalinista", escreveu Trotsky, "ficarão na história como exemplos da mais absurda e servil futilidade". [19] Mesmo os artistas genuinamente talentosos foram obrigados a se vender a serviço de Stalin. Trotsky citou um poema de Alexis Tolstoy, que retrata Stalin como uma divindade: "Tu, sol brilhante das nações, / O sol indeclinável de nossos tempos", etc. Comentando estas linhas, Trotsky escreveu: "Para chamar as coisas pelo nome correto, esta poesia lembra mais o grunhido de um porco". [20]

Até mesmo a arquitetura soviética foi distorcida e degradada por Stalin. A Casa dos Sovietes, construída segundo as especificações de Stalin, era "um edifício monstruoso que, com sua imponente inutilidade e grandiosidade bruta, fornece a expressão concreta de um regime brutal desprovido de qualquer ideia ou perspectiva". [21] Quanto aos filmes, seus diretores e atores foram obrigados a receber instruções de Stalin. Seu único propósito tornou-se a glorificação do ditador. "Desta forma, a cinematografia soviética, que teve um começo tão promissor, foi assassinada completamente". [22]

Quanto à pessoa de Stalin, na medida em que se pode separar o homem vivo do mito no qual estava enclausurado, sua característica essencial, enfatizou Trotsky, "é a crueldade pessoal, física, que geralmente é chamada de sadismo". [23]

Incapaz de apelar para os melhores instintos das massas, Stalin apela para os seus instintos mais rasteiros – ignorância, intolerância, visão estreita, primitivismo. Ele busca o contato com as massas através de expressões grosseiras. Mas esse jeito rude também serve de camuflagem para a sua malícia. Ele coloca todo o seu ardor em planos cuidadosamente arquitetados, aos quais todo o resto está subordinado. Como ele detesta a autoridade! Como ele gosta de impor a sua autoridade! [24]

Na penúltima página da biografia, Trotsky escreveu sobre a sua posição subjetiva em relação a Stalin:

A posição que eu ocupo hoje é única. Portanto, sinto-me no direito de dizer que nunca nutri um sentimento de ódio por Stalin. Muito foi dito e escrito sobre o meu suposto ódio por Stalin que aparentemente me impregna de julgamentos sombrios e perturbados. Eu só posso dar de ombros para tudo isso. Nossos caminhos se separaram há tanto tempo que qualquer relação pessoal entre nós se extinguiu há muito tempo. De minha parte, e na medida em que Stalin é uma ferramenta de forças históricas estranhas e hostis contra mim, meus sentimentos pessoais em relação a ele não se distinguem dos meus sentimentos em relação a Hitler ou ao Mikado japonês. [25]

* * * * *

O mundo de 1940 parecia estar vivendo um pesadelo. Como a civilização parecia frágil e desamparada diante do avanço da barbárie! Sob a pressão da reação, mesmo os representantes mais inteligentes e sensíveis entre os intelectuais europeus abandonaram toda a esperança. Walter Benjamin, vivendo em um exílio precário, traduziu o seu desespero pessoal em um trabalho morbidamente desmoralizado, "Sobre o conceito de história". O hitlerismo não era a negação da civilização, mas a sua verdadeira essência. "Não há documento de cultura", opinou ele, "que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. E assim como esse documento nunca está livre da barbárie, também a barbárie mancha a maneira como ele foi transmitido entre as pessoas". [26]

Angelus Novus

Benjamin chamou a atenção para o quadro Angelus Novus do artista Paul Klee. Neste trabalho, estaria retratada a real natureza do processo histórico: "Seu rosto está voltado para o passado. Onde uma cadeia de acontecimentos aparece diante de nós, ele vê uma única catástrofe, que continua empilhando destroços sobre destroços e os atira aos seus pés". [27] O desespero de Benjamin o levou ao cinismo, que ele dirigiu contra a perspectiva da revolução socialista. Benjamin escreveu amargamente: "Os epígonos de Marx conceberam (entre outras coisas) a noção da 'situação revolucionária', que, como sabemos, sempre se recusou a chegar". [28]

Que atitude, então, restou a Walter Benjamin senão tirar sua própria vida? Fugindo da França de Vichy, e à vista da fronteira espanhola, Benjamin – convencido da desesperança de sua situação – cometeu suicídio na noite de 26 de setembro de 1940. Se ele tivesse esperado apenas mais um dia, o escritor teria atravessado a fronteira em segurança.

Walter Benjamin em 1938

Trotsky sem dúvida teria sentido grande empatia por Benjamin. Porém, os sentimentos de desespero eram estranhos ao revolucionário. O seu poderoso senso histórico lhe permitiu colocar as brutalidades de seu tempo em seu contexto apropriado. Em uma seção da biografia de Stalin que traz o título "Um paralelo histórico", Trotsky observou: "Neste período de decadência capitalista, a regressão da Europa produz muitos dos traços da infância do capitalismo. A Europa atual se assemelha fortemente à Itália do século XV". [29] É claro, essa foi uma época em que os pequenos Estados "representavam os passos de bebê de um capitalismo infantil". Mas o período da Renascença se assemelhava à era moderna em um aspecto importante: "Era uma época de transição das normas antigas para as novas – um período amoral e intrinsecamente imoral". [30] Os cardeais "escreviam comédias pornográficas e os Papas as apresentavam em seus tribunais". [31]

A corrupção era a tônica da política italiana. A arte de governar era praticada em pequenos círculos e consistia nas artes sutis da mentira, da traição e do crime. Cumprir um contrato, cumprir uma promessa, era considerado o auge da estupidez. A dissimulação caminhava de mãos dadas com a violência. A superstição e a desconfiança envenenavam todas as relações entre os chefes dos Estados. Era o período dos Sforzas, dos Médicis, dos Borgias. Mas não foi apenas o período da traição e da falsificação, do veneno e da dissimulação. Era também o período da Renascença. [32]

Assim como no período da Renascença, o homem moderno se encontra

na fronteira entre dois mundos – o burguês capitalista, que está agonizando, e aquele novo mundo destinado a substituí-lo. Hoje, mais uma vez, estamos vivendo a transição de um sistema social para outro, na época da maior crise social, que, como sempre, é acompanhada por uma crise na moralidade. O antigo foi estremecido até suas bases. O novo mal começou a surgir. As contradições sociais atingiram o ponto mais alto novamente. [33]

Tais períodos impõem imensa pressão sobre os indivíduos.

Quando o telhado desaba e as portas e janelas se soltam da parede, a casa fica desoladora e difícil de viver. Hoje, ventos tempestuosos estão soprando em todo o nosso planeta. [34]

* * * * *

Trotsky considerou sua sobrevivência ao ataque de 24 de maio como nada mais do que um adiamento. Ele sabia que a GPU faria outro atentado contra sua vida. Harold Robins, em uma discussão com este escritor, relembrou que Trotsky solicitou uma reunião com os guardas no início de agosto. O noticiário mundial foi dominado pelos ataques aéreos lançados pela Alemanha nazista contra o Reino Unido. Trotsky disse aos guardas que previa que Stalin tentaria tirar proveito da distração do público, realizando outro ataque o mais rápido possível. Um conhecido jornalista da Cidade do México, Eduardo Tellez Vargas, que escreveu para o El Universal, reuniu-se várias vezes com Trotsky após o ataque de 24 de maio. Em uma entrevista realizada com o Comitê Internacional em dezembro de 1976, Tellez Vargas relembrou seu último encontro com Trotsky, que ocorreu em 17 de agosto de 1940, apenas três dias antes do assassinato. Sentindo sincera admiração pelo grande revolucionário, Tellez Vargas ficou profundamente perturbado com o que Trotsky lhe disse.

Chegou um momento em que Trotsky não confiava em absolutamente ninguém. Ele não confiava em ninguém. Ele não especificou ou deu nomes, mas ele me disse: "Serei morto ou por um deles aqui dentro ou por um dos meus amigos de fora, por alguém que tenha acesso à casa. Porque Stalin não pode poupar minha vida". [35]

Eduardo Tellez Vargas [Crédito: David North]

No dia da última entrevista de Tellez Vargas com Trotsky, houve outro visitante à vila na Avenida Viena. Jacques Mornard, dessa vez sem Sylvia Ageloff, foi autorizado a entrar na residência. Mornard disse que havia escrito um artigo, que ele queria que Trotsky lesse. Trotsky, que teve vários breves encontros com Mornard, já havia indicado que não gostava dele. Mornard teria falado na presença de Trotsky de seu "chefe", que tinha se tornado rico através da especulação financeira. Em seu relato autobiográfico de sua vida com Trotsky, Natalia Sedova lembrou que ele "era totalmente indiferente" à conversa de Mornard sobre as façanhas de seu patrão. “Essas breves conversas costumavam me irritar", escreveu Sedova, "e Leon Davidovich também não gostava delas. ‘Quem é esse patrão fabulosamente rico?’, perguntou-me ele. ‘Deveríamos descobrir. Afinal de contas, ele pode ser algum aproveitador com tendências fascistas e talvez seja melhor deixar de ver absolutamente o marido de Sylvia.…’" [36].

A reunião com Mornard em 17 de agosto aumentou a preocupação de Trotsky. Trotsky saiu de seu escritório após apenas dez minutos. Ele ficou perturbado com o comportamento de Mornard. Trotsky notou que Mornard não havia tirado o chapéu ao entrar no escritório e depois continuou sentado no canto da mesa de Trotsky. Esse comportamento era estranhamente inapropriado para um homem que afirmava ser belga e ter sido criado na França. Trotsky, depois de apenas alguns minutos com Mornard, tinha dúvidas sobre a nacionalidade do visitante. Conforme foi contado por Isaac Deutscher:

Quem era ele realmente [Mornard-Jacson]? Eles deveriam descobrir isso. Natalia ficou estarrecida; pareceu-lhe que Trotsky "havia percebido algo novo sobre 'Jacson', mas ainda não havia chegado, ou melhor, não tinha pressa de chegar a qualquer conclusão". Entretanto, as implicações do que ele havia dito eram alarmantes: se 'Jacson' estava enganando-os sobre a sua nacionalidade, por que ele fazia isso? Ele não estaria enganando-os sobre outras coisas também? Sobre o quê? Essas perguntas devem ter estado na mente de Trotsky, pois dois dias depois ele repetiu suas observações a Hansen, como se quisesse saber se havia ocorrido algo semelhante com alguém além de si próprio. [37]

O fato de Trotsky, depois de apenas alguns minutos sozinho com Mornard, ter levantado dúvidas sobre a sua nacionalidade e suspeitar que ele poderia ser um impostor, leva a pensar por que Alfred e Maguerite Rosmer, ambos franceses, nunca levantaram suspeitas semelhantes – embora tenham passado muito mais tempo com o homem que viria a ser o assassino de Trotsky.

No final da tarde de terça-feira, 20 de agosto, Mornard, sem compromisso, voltou novamente para ver Trotsky. Apesar das preocupações que lhe foram transmitidas diretamente por Trotsky, Joseph Hansen – cujas conexões com a GPU seriam expostas quase 40 anos depois – aprovou a entrada de Mornard na residência. Embora o tempo estivesse quente e o céu sem nuvens, Mornard estava usando um chapéu e carregando uma capa de chuva. Havia uma faca, uma pistola automática e uma picareta escondidas dentro do casaco. Mornard não foi revistado. Ele foi autorizado a acompanhar Trotsky até o seu escritório. Ele deu a Trotsky o que ele disse ser uma nova versão do artigo que ele havia apresentado em 17 de agosto. Enquanto Trotsky lia o artigo, Mornard retirou a picareta do casaco e bateu na cabeça de Trotsky. Embora mortalmente ferido, Trotsky levantou-se de sua cadeira e lutou contra o agressor. Harold Robins, tendo ouvido o grito de Trotsky, correu para a sala de estudo e dominou o assassino.

No caminho para o hospital na Cidade do México, Trotsky perdeu a consciência. Ele morreu, com Natalia a seu lado, na noite seguinte.

* * * * *

Seis meses antes de seu assassinato, em 27 de fevereiro de 1940, Trotsky havia escrito seu Testamento. Ele tinha a intenção de que a declaração fosse publicada após a sua morte. Embora a sua capacidade de trabalho permanecesse intacta, Trotsky acreditava que não tinha muito tempo de vida. Além da ameaça sempre presente de assassinato, ele sofria de pressão alta, para a qual não havia, naquela época, tratamento eficaz. O Testamento rejeitou "a estúpida e vil calúnia de Stalin e de seus agentes: não há uma única mancha em minha honra revolucionária". [38] Ele expressou a sua convicção de que as futuras gerações revolucionárias reabilitariam a honra das vítimas de Stalin "e lidariam com os executores no Kremlin de acordo com seus atos". Claramente emocionado, Trotsky prestou homenagem a Natalia Sedova: "Além da felicidade de ser um lutador pela causa do socialismo, o destino me deu a felicidade de ser seu marido". [39] Trotsky então reafirmou para a posteridade o propósito, os princípios e a filosofia que haviam guiado o seu trabalho de vida:

Por 43 anos de minha vida consciente permaneci um revolucionário; por 42 deles lutei sob a bandeira do marxismo. Se eu tivesse que começar tudo de novo, é claro que eu tentaria evitar esse ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria inalterado. Morrerei um revolucionário proletário, um marxista, um materialista dialético e, consequentemente, um ateu irreconciliável. Minha convicção no futuro comunista da humanidade não diminuiu, na verdade é maior hoje do que nos dias de minha juventude. [40]

A humanidade e a visão de Trotsky encontraram a sua expressão consumada na conclusão do Testamento:

Natasha acaba de vir do pátio abrir mais a janela para que o ar possa entrar mais livremente em meu quarto. Posso ver a brilhante faixa de grama sob o muro, e o céu azul claro acima do muro, e a luz do sol em todos os lugares. A vida é bela. Que as gerações futuras a livrem de todo o mal, opressão e violência e a desfrutem em toda sua plenitude. [41]

* * * * *

Oitenta anos se passaram desde o assassinato de Trotsky. Ainda assim, a passagem do tempo não

diminuiu a sua importância. A sombra lançada por este gigante político do século XX se torna ainda maior no século XXI.

A história fez justiça a Trotsky e venceu seus inimigos. O edifício do stalinismo foi destruído. O nome de Stalin está agora e estará para sempre associado a traições criminosas. O dano que seus crimes causaram à União Soviética – política, econômica e culturalmente – foi irreparável. Stalin será lembrado apenas como uma das duas figuras mais monstruosas do século XX, um contrarrevolucionário assassino em massa dos socialistas, superado nos seus atos apenas por Hitler. Trotsky estava certo: "A vingança da história é muito mais terrível do que a vingança do mais poderoso Secretário Geral". [42]

O lugar de Trotsky na história perdura e cresce cada vez mais porque as tendências e características essenciais do capitalismo contemporâneo e do imperialismo correspondem à sua análise da dinâmica da crise capitalista global e da lógica da luta de classes global. Os seus escritos – imprescindíveis para uma compreensão do mundo contemporâneo – permanecem tão atuais quanto no dia em que foram escritos. A vida e as lutas de Trotsky, a sua inabalável devoção à libertação da humanidade, continuarão a viver na história.

O mundo não passou além de Lev Davidovich Trotsky. Ainda vivemos na época que ele definiu como a agonia mortal do capitalismo. A solução que ele defendeu para a crise do capitalismo – a revolução socialista mundial – apresenta a única saída historicamente progressista para a crise existencial do sistema capitalista.

Mas essa solução requer a resolução da crise da direção revolucionária. A essa tarefa que o Comitê Internacional da Quarta Internacional se dedica ao relembrar o octogésimo aniversário da morte de Trotsky.

Conclusão

[1] “Once Again on the ‘Crisis of Marxism,” em Writings of Leon Trotsky 1938–39 (New York: 1974), p. 205
[2] The Death Agony of Capitalism and the Tasks of the Fourth International (New York: 1981), p. 1
[3] Marx-Engels Collected Works Volume 5 (New York: 1976), p. 6
[4] Mieczyslaw Bortenstein (M. Casanova), Spain Betrayed: How the Popular Front Opened the Gate to Franco, Introdução em https://marxists.architexturez.net/history/etol/document/spain2/index.htm
[5] Ibid
[6] Citação de Trotsky de artigo do Que Faire em “The Class, The Party, and the Leadership,” The Spanish Revolution 1931–39 (New York, 1973), p. 355
[7] Ibid, p. 355
[8] Ibid, pp. 355–56
[9] Ibid, p. 357
[10] “The Class, the Party, and the Leadership,” in The Spanish Revolution 1931–39 (New York: 1973), p.358
[11] Trotsky’s Diary in Exile 1935 (New York: 1963), p. 46, ênfase do original.
[12] “The Class, the Party, the Leadership,” p. 361
[13] Ibid, p. 361–62
[14] Spain Betrayed, Chapter 21, em https://marxists.architexturez.net/history/etol/document/spain2/index.htm
[15] Ibid, Chapter 21 em https://marxists.architexturez.net/history/etol/document/spain2/index.htm
[16] “The Class, the Party, the Leadership”, p. 364
[17] Stalin: An Appraisal of the Man and His Influence, traduzido por Alan Woods (London: 2016), p. 663
[18] Ibid, p. 671
[19] Ibid, p. 671
[20] Ibid, p. 671
[21] Ibid, p. 671
[22] Ibid, p. 671
[23] Ibid, p. 667
[24] Ibid, p. 667
[25] Ibid p. 689 [Há um erro na tradução em inglês do texto russo original, que foi corrigida na edição em espanhol da biografia. O texto como aparece neste artigo incorpora a correção.]
[26] Walter Benjamin Selected Writings, Volume 4: 1938–1940 (Cambridge and London, 2003), p. 392
[27] Ibid, p. 392
[28] Ibid, pp. 402–03
[29] Stalin, op. cit., p. 682
[30] Ibid, p. 682
[31] Ibid, p. 683
[32] Ibid, p. 682
[33] Ibid, p. 689
[34] Ibid, p. 689
[35] International Committee of the Fourth International, Trotsky’s Assassin At Large (Labor Publications, 1977), p. 16
[36] Victor Serge and Natalia Sedova Trotsky, The Life and Death of Leon Trotsky (New York, 1975), p. 265
[37] The Prophet Outcast, Trotsky: 19291940 (New York: 1965), pp. 498–99
[38] Writings of Leon Trotsky 1939–40, p. 158
[39] Ibid, p. 158
[40] Ibid, pp. 158–59
[41] Ibid, p. 159
[42] Stalin, op. cit., p. 689